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Queremos criar um centro altamente especializado na área dos drones em Oeiras


Tiago Bastos, coordenador do Oeiras Valley Innovation Lab. Foto: Hugo Amaral/ECO


 O Oeiras Valley Innovation Lab quer ser um cluster de defesa na área de drones, acolhendo empresas como a Beyond Vision ou a UAVision. O coordenador Tiagos Bastos fala do projeto ao ECO/eRadar.


Criar o primeiro laboratório de defence tech do país é um dos objetivos do Oeiras Valley Innovation Lab. O espaço está a posicionar-se como um cluster de indústria de defesa, com foco nos drones, acolhendo empresas como a Beyond Vision ou a UAVision.


Tiago Bastos, coordenador do Oeiras Valley Innovation Lab, explica a ambição do projeto que está a ganhar asas em Oeiras: “Fazer um centro, um projeto de âmbito nacional, estratégico para Portugal, mas com impacto a nível internacional, especializado nos drones. Mas, sobretudo, especializado no desenvolvimento de prototipagem em tempo real.” Ligando academia, empresas e end users, ou seja, as Forças Armadas, explica.


Alguma relação com o cluster de drones que Henrique Gouveia Melo anunciou estar a dinamizar? “Essa parte prefiro não responder”, diz Tiago Bastos. “Poderá perguntar ao Sr. Almirante.”


Nesta corrida ao investimento da defesa, o que faria uma empresa de defesa instalar-se em Oeiras e não noutra região qualquer do país?

Oeiras tem um ecossistema único no país, é para muitos considerada como a capital da ciência, da tecnologia e da inovação. É um concelho dominante a nível da economia nacional — é a segunda maior economia a nível municipal que contribui para o PIB português. Tem um ecossistema único, com universidades, centros de investigação, centros de pesquisa, e um ecossistema também muito ligado à área da defesa, já com uma grande tradição e história. A NATO está instalada em Oeiras. Muitas empresas nacionais estão, neste momento, concentradas em Oeiras e, por si só, todo o ecossistema Oeiras Valley é muito apelativo para qualquer indústria, qualquer empresa, neste caso, na área de defesa, se venha a instalar em Oeiras.


Referiu as instalações da NATO, mas neste momento qual é a radiografia do setor de defesa no concelho? Já tem peso? Onde se querem posicionar?

Já existem stakeholders instalados no município de Oeiras. A Thales Edisoft é uma referência a nível internacional. Temos o Instituto Superior Técnico, altamente especializado e [com os] melhores engenheiros do país, com projeção a nível internacional na área da robótica, inteligência artificial e também na parte espacial. Temos centros de pesquisa da NOVA. E temos também o legado histórico de Oeiras na área da defesa: o Forte São Julião da Barra, a Fábrica da Pólvora. Há aqui já todo um ecossistema que contribui e que permite posicionar Oeiras também dentro desse setor. Há outras entidades, parques empresariais relevantes, como o Taguspark, um parque com projeção a nível internacional. Tudo isso contribui para a criação deste ecossistema, muito em particular na área da defesa.


Dizem querer “atrair investimento de elevado valor acrescentado, gerar emprego qualificado e posicionar o país nas cadeias internacionais de desenvolvimento tecnológico”. Como se propõem fazer isso?

Oeiras sempre teve a capacidade de se posicionar e de antecipar os grandes desafios do futuro.


Mas o foco é atrair empresas portuguesas a nascer, ou seja, o hub servir como incubadora focada no setor da defesa, grandes empresas internacionais… Qual é a estratégia?

A estratégia é criar o primeiro ou dos primeiros laboratórios de Defence Tech em Portugal. Um espaço dedicado à investigação, à pesquisa, ao desenvolvimento, à experimentação, à validação e à aceleração de projetos tecnológicos. É essa a grande diferença. Pretende-se, com algumas empresas de referência, empresas bandeira, mas, sobretudo, a nível das startups, a transferência do conhecimento para a indústria através da aceleração de projetos de inovação. É esse o grande propósito. Através de um espaço dedicado, com características únicas, um centro colaborativo onde se faça a ligação não só da academia, das universidades, das empresas, mas também dos end users.


Já temos empresas muito relevantes, comprometidas com o projeto, a instalar-se no Oeiras Valley Innovation Lab, e empresas que já têm um relacionamento muito estreito com as Forças Armadas. Esse relacionamento estreito com as Forças Armadas vai necessariamente implicar a presença das Forças Armadas a acompanhar esses projetos e também a ver o que se passará dentro do Oeiras Valley Innovation Lab e do hub .


Que estratégias estão ou vão a levar a cabo para trazer as Forças Armadas portuguesas a testar ou a colaborar também no desenho dos produtos que venham a sair do hub?

Há uma parte da questão que deverá ser respondida pela Câmara Municipal de Oeiras, a nível de futuras estratégias para o projeto. O que posso dizer é que hoje em dia já temos empresas muito relevantes, comprometidas com o projeto, a instalar-se no Oeiras Valley Innovation Lab, e empresas que já têm um relacionamento muito estreito com as Forças Armadas. Esse relacionamento estreito com as Forças Armadas vai necessariamente implicar a presença das Forças Armadas a acompanhar esses projetos e também a ver o que se passará dentro do Oeiras Valley Innovation Lab e do hub.


Já existe aqui uma tradição, não estamos a inventar a roda. O Oeiras Innovation Valley já vem de um relacionamento estreito de Oeiras com as Forças Armadas. Foi assinado um protocolo com o Centro de Experimentação do Exército, localizado em Paço de Arcos, entre a Câmara Municipal de Oeiras e a AED Cluster Portugal. Em 2020, durante o Covid, foi assinado um protocolo em várias entidades, nomeadamente, além da Câmara Municipal, com a AED Cluster Portugal, com a NATO NCIA [centro cibernético e tecnológico da NATO], para se criar um cluster da aeronáutica, espaço e defesa em Oeiras. Foram propósitos que vinham de trás e, portanto, não é um trabalho que nasceu deste contexto a nível europeu ou a nível internacional. É um trabalho que vem de trás e que se procurou rentabilizar, dar consequência e seguimento.


Referiu que já várias empresas se instalaram no hub. A fabricante de drones Beyond Vision é uma delas. O que pode adiantar em termos de empresas instaladas, empregos criados?

São, sobretudo, empresas ligadas ao setor de aeronáutica, defesa, a nível de drones, sistemas autónomos, setor de energia, inteligência artificial, na área da aviação, em particular na formação da aviação em ramos distintos. Formação de profissionais para a parte de mecânica de A a Z da aviação e também de uma futura escola de aviação que se irá implementar muito em breve no hub.


Vamos ter dois clusters nacionais no hub. A AED Cluster Portugal já tem um escritório. A Plataforma Ferroviária Portuguesa, quando soube do projeto, também ficou com interesse em se associar. Eles estão no Porto e vão ter também aqui um escritório, uma delegação em Oeiras. Para além da Beyond Vision, temos aqui a particularidade de juntar duas empresas de dimensão já nacional, a UAVision. A Beyond Vision e a UAvision vão trabalhar no mesmo espaço, em áreas naturalmente distintas. Vamos ter também a ENA Portugal, uma empresa de comunicações. A GTZ.Esports, acaba por ser interessante, porque está ligada à parte do gaming, e a formação de muitos operadores de drones vem também destas áreas, portanto, acaba por haver aqui um complemento a nível das valências que estão no hub.


A Navictus e a Skylab, empresas com origem no Técnico, são verdadeiras startups e irão dar dimensão e posicionamento ao projeto a nível da transferência da tecnologia, futuramente, para a indústria. São empresas que esperemos que corram o melhor possível. Poderá correr, poderá não correr…


É um pouco esse o conceito de startup.

Tal e qual. Já temos lá a CENFORTEC, a escola de formação técnica e profissional na área da manutenção, extremamente interessante e com criação de valor enorme. São técnicos que amanhã vão para a OGMA, para a Ryanair, para a EasyJet, para essas empresas a nível de operadores de mecânicos de aviões. A Post77, uma empresa também de drones, um projeto extremamente interessante. A Storm Productions, é outra área. A Recarbono Next, que também tem a ver com a parte da energia. E iremos ter em breve a Intercontinental Aviation Academy, uma empresa com origem no Dubai, que se vai posicionar.


Academia de formação de pilotos?

De pilotos. E temos finalmente uma empresa que está em pipeline, que não quero neste momento divulgar o nome, mas que tem origem na Ucrânia e que também é bastante interessante.


Uma startup?

Uma empresa de direito português, uma startup, mas com origem na Ucrânia.


Referiu várias empresas de drones. Os drones já são o campeão nacional de defesa, representam 20% das exportações de defesa nacionais. O hub poderá ser um cluster de drones a que querem começar a dar asas ou o foco não é esse?

O foco é precisamente esse. Portanto, fazer um eixo vertical a nível dos drones, também com alinhamento com a parte espacial. Fazer um centro, um projeto de âmbito nacional, estratégico para Portugal, mas com impacto a nível internacional, especializado nos drones. Temos empresas já reputadas a nível de drones, com experiência no mercado e também com os end users. Temos também, a nível da formação, como disse, a empresa de gaming, temos as empresas de formação de pilotos, que também se poderão replicar para a indústria dos drones. A ideia é precisamente criar um eixo vertical e um centro altamente especializado na área dos drones. Mas, sobretudo, especializado no desenvolvimento de prototipagem em tempo real.


Não pretendemos ser os campeões em quantidade de startups, não pretendemos ser os campeões de unicórnios — se aparecerem, tanto melhor —, mas pretendemos, sobretudo criar condições para transferência do conhecimento, para que seja replicado para a indústria.


Há espaços com áreas bastante grandes, generosas, e isto é a grande inovação. Espaço para desenvolvimento, para prototipagem, testagem em tempo real. Esta é que é a grande diferença. Não pretendemos ser os campeões em quantidade de startups, não pretendemos ser os campeões de unicórnios — se aparecerem, tanto melhor —, mas pretendemos, sobretudo, criar condições para transferência do conhecimento, para que seja replicado para a indústria. Independentemente de haver a parte da mentoria, obviamente necessária, também existirem condições para o desenvolvimento de testes em tempo real de prototipagem, essa será a grande diferença do projeto.


As empresas vão ter um espaço para criar, com outras ou sozinhas, um protótipo e chamar as Forças Armadas também para fazer essa testagem, é isso?

Sim, é isso. E depois, futuramente, existirão uma ou duas naves onde a ideia é fazer o coração do projeto. Nesse coração do projeto [vamos] fazer a zona dos laboratórios onde as startups se irão instalar. Isto é como termos uma fábrica onde nesse coração irão nascer projetos, onde as que estão lá hoje implementadas amanhã terão outras necessidades de crescimento, sairão e passarão para o outro lado. Portanto, vamos alimentando a fábrica com a passagem das startups que nascem no coração, na aceleradora, passando depois para as outras áreas que vão sendo libertadas com o tempo, de forma natural.


A startup de origem ucraniana que referiu há pouco é de drones? A ideia é beneficiar do conhecimento que adquiriram no confronto diário com as forças invasoras russas?

Não quero entrar em grandes pormenores, não será uma empresa dedicada à parte de inovação tecnológica no nível de drones, está relacionada com esse processo. Hoje a Ucrânia, infelizmente pelo que aconteceu, pelo que está a acontecer e continuará a acontecer nos próximos tempos, afirmou-se como o principal país a nível de inovação tecnológica nesta área a nível europeu e mesmo internacional. Pretende-se, naturalmente, aproveitar essas sinergias e conhecimento e trabalhar também conjuntamente com esse ecossistema que muito tem contribuído para a resiliência europeia e também para responder às necessidades, aos grandes desafios europeus.


Diz estarem a lançar as sementes para um cluster de drones. O almirante Gouveia Melo anunciou que iria dinamizar um cluster de drones. Gouveia Melo está envolvido neste projeto, era a este cluster que se referia?

Essa parte prefiro não responder.


Então já respondeu.

(risos) Poderá perguntar ao Sr. Almirante.


Mas há alguma relação com ele? Consultor…

Não, neste momento não. Existe uma ótima relação, como é sabido, entre o Município de Oeiras e o Sr. Almirante Gouveia Melo [Isaltino Morais foi apoiante da candidatura do ex-Chefe do Estado Maior da Armada às Presidenciais], mas o futuro não saberemos, portanto, no futuro tudo será possível naturalmente.


Mas poderá caminhar para isso, é o que está a dizer?

Logo veremos.


Falou num vertical que fizesse a ligação entre a defesa e o espaço. Em Oeiras está instalado um dos aceleradores da Agência Espacial Europeia, o ESA BIC Tagus. Vai haver sinergias ou a ligação ao espaço vai ser feita de outro modo?

Há coisas que acontecem neste momento em Oeiras, com a participação do CEiiA e de outras entidades, com o município. Mas quem compete a responder a isso será o município do Oeiras, são questões mais estratégicas. Mas também é fácil de compreender que existem partos naturais. O Instituto Superior Técnico está localizado em Taguspark, está numa posição estratégica.


E está envolvido neste acelerador.

Há situações que são perfeitamente naturais, mas quem vai responder a essa questão a nível de parcerias estratégicas é o município de Oeiras.


Mas não é algo que negue à partida.

Na minha visão faz sentido, mas será o município de Oeiras que deverá responder.


Portugal aumentou a sua participação no orçamento da ESA, por isso são esperados mais projetos de georetorno; garantiu uma fatia do SAFE de 5,8 mil milhões de euros; o primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou em Ancara que este ano Portugal vai atingir já este ano 3,1% do PIB em defesa. Das suas conversas com a indústria, sente que esse retorno, esse investimento está a chegar à indústria, ou Portugal está-se a posicionar mais como comprador e não propriamente criador, produtor?

Se Portugal está comprador ou não, há grandes projetos de âmbito nacional, no âmbito do SAFE, já identificados.


Um deles de drones.

Há aqui uma coisa que me parece óbvia. Apesar de Portugal ser um país pequeno e, independentemente do peso das nossas Forças Armadas a nível da aquisição de compras, as nossas Forças Armadas têm um grande prestígio a nível internacional. O facto de startups ou de empresas a se desenvolver nesse setor poderem desenvolver projetos conjuntos com as Forças Armadas, será depois uma porta de entrada noutras Forças Armadas ou num contexto internacional, europeu. Nessa nossa visão, a aproximação dos end-users é fundamental e crucial. Mas para haver aproximação também tem que haver uma justificação, tem que se despertar o interesse dos end-users para que possam acompanhar este tipo de projetos.


Temos empresas, num ponto de vista tecnológico, já muito avançado e a área dos drones permite abrir mercado a nível internacional, fugindo também um pouco desse contexto nacional. É uma especialização portuguesa. Como temos o caso extraordinário do novo navio do João II.


Oeiras conseguiu criar um prestígio a nível internacional e que contribuiu ativamente para o PIB nacional. É a segunda economia a seguir a Lisboa, possivelmente. Um volume de negócios de 35 mil milhões de euros com 640 empresas, se não me engano, por quilómetro quadrado, num total de 46 quilómetros quadrado. Isto diz muito do potencial de Oeiras e da capacidade de gerar riqueza, não só para a economia. É neste contexto que Oeiras se quer posicionar, ativamente, conforme já tem sido o seu ADN, na contribuição para a segurança e para a autonomia europeia, não só a nível tecnológico, mas também com contributo para a indústria.


Temos empresas, num ponto de vista tecnológico, já muito avançado e a área dos drones permite abrir mercado a nível internacional, fugindo também um pouco desse contexto nacional. É uma especialização portuguesa. Como temos o caso extraordinário do novo navio João II…


O porta-drones.

É um exemplo extraordinário como Portugal sabe-se adaptar às novas realidades e pode-se transformar numa referência a nível internacional.


Quer que olhem para Oeiras com esse carimbo? O cluster da defesa português, é essa a ambição?

Se não o cluster da defesa português, pelo menos, um dos clusters da defesa portuguesa.


Assista aqui à entrevista completa:

“Queremos criar um centro altamente especializado na área dos drones em Oeiras” – ECO


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