Avançar para o conteúdo principal

Ghost Font: o texto “invisível” para a IA que só os humanos conseguem ler



 

Num momento em que a Inteligência Artificial (IA) parece capaz de ler tudo o que lhe é mostrado, surge uma experiência que tenta inverter essa lógica: a Ghost Font, um projeto que esconde mensagens em vídeo através de pontos em movimento, legíveis pelo olho humano, mas praticamente indecifráveis pelos modelos mais avançados.

Criada pela Mixfont, a Ghost Font não é uma fonte no sentido tradicional, pois não existe um ficheiro TTF para instalar.

Por sua vez, trata-se de uma experiência visual que transforma texto num pequeno vídeo, onde as letras são formadas por dezenas de pontos em movimento constante.

Enquanto o vídeo está em reprodução, o cérebro humano consegue captar o padrão e “ler” a mensagem através do movimento. Contudo, assim que se pausa o vídeo, ou se tira uma captura de ecrã, os pontos confundem-se com o ruído de fundo e a mensagem desaparece por completo.

Nenhum frame isolado revela o conteúdo; só a sequência em movimento o faz.

Uma ideia com raízes em 2013

Em 2013, o designer Sang Mun lançou a fonte ZXX, pensada para ser ilegível por sistemas de OCR (reconhecimento ótico de caracteres), mas perfeitamente legível por humanos, através de ruído visual, riscos e marcas falsas sobrepostas às letras.

Na altura, a ZXX foi considerada uma solução “à prova de vigilância”.

Mais de uma década depois, os modelos de IA atuais conseguem ler esse tipo de texto sem grande dificuldade. Aliás, os autores da Mixfont testaram a fonte com ferramentas de IA generativa e a mensagem disfarçada foi identificada num único pedido.

O ChatGPT leu facilmente um texto escrito com a fonte ZXX. Fonte: MixFont

Ghost Font foi testada contra os modelos mais avançados

Por forma a contornar esta limitação, nasceu a Ghost Font. Segundo os autores, vídeos gerados com esta técnica foram submetidos a alguns dos modelos de IA mais capazes atualmente disponíveis, incluindo ferramentas com capacidades de raciocínio avançado e execução de código.

De acordo com a equipa da Mixfont, os resultados mostraram estes modelos tiveram dificuldade em decifrar a mensagem real, muitas vezes identificando apenas uma “mensagem disfarçada” propositadamente incluída no vídeo como camada adicional de proteção, um truque para despistar qualquer tentativa de análise automatizada mais persistente.

Ainda assim, os próprios criadores reconhecem que a solução está longe de ser infalível. Um agente de IA com acesso a um ambiente de execução de código local poderá, em teoria, analisar o movimento dos pontos ao longo dos vários frames e acabar por reconstruir a mensagem. A verdadeira forma de garantir sigilo absoluto perante a IA continua a ser, dizem, a encriptação tradicional.

O GPT-Sol 5.6 Ultra tentou descodificar uma mensagem escrita com a fonte Ghost. O modelo leu a mensagem disfarçada, mas não conseguiu ler a mensagem real em movimento. Fonte: MixFont

Que aplicações poderá ter?

Entre as ideias apontadas para o futuro deste projeto está a possível integração em sistemas de CAPTCHA, hoje em dia frequentemente resolvidos sem grande esforço por bots equipados com IA.

O uso de movimento em vídeo poderia tornar este tipo de verificação mais difícil de automatizar, mantendo-se simples para um utilizador humano.

Os autores apontam ainda a possibilidade de a Ghost Font servir como uma espécie de benchmark para medir a evolução da perceção visual da IA, especialmente à medida que surgirem modelos verdadeiramente “nativos” em vídeo, capazes de analisar sequências de movimento e não apenas frames isolados.


Ghost Font: o texto "invisível" para a IA que só os humanos conseguem ler


Comentários

Notícias mais vistas:

Digi admite sair de Portugal se não tiver condições para concorrer e apela a Anacom que reconsidere prorrogação automática das licenças

O estudo da Lisbon Economics, apresentado por Abel Mateus, conclui que a proposta de renovação do espectro da Anacom congela a estrutura do mercado móvel até à década de 2040.  A Digi mostra-se surpreendida com a iminência de ver as licenças dos operadores de telecomunicações Meo, NOS e Vodafone renovadas automáticamente pela Anacom, alegando que não foi essa a expetativa que teve quando investiu em Portugal e participou no leilão da quinta geração de rede móvel. E apela para que a Anacom, a Autoridade Nacional de Comunicações, reconsidere a decisão de prorrogar automaticamente os direitos de espectro dos três maiores operadores, em nome da concorrência leal. O apelo foi feito esta sexta-feira, em Lisboa, pelo diretor executivo do grupo Digi, Valenti Popoviciu, num encontro com a imprensa portuguesa, que contou com a presença do antigo presidente da Autoridade da Concorrência (AdC), Abel Mateus, que apresentou um estudo feito pela Lisbon Economics, a pedido da Digi, e de acordo com...

Flávio Bolsonaro terá recebido bitcoins da Atlas Quantum, pirâmide financeira que lesou portugueses

Rogério Correia (PT). Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados Vice-líder do governo Lula pede a Moraes nova investigação contra Flávio Bolsonaro  Deputado Rogério Correia quer que PF investigue suposto pagamento de bitcoins ao senador por empresa ligada à Atlas Quantum, acusada de fraude de R$ 7 bilhões O deputado Rogério Correia (PT) pediu investigação no Supremo Tribunal Federal (STF)Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados O deputado federal Rogério Correia (PT), vice-líder do governo Lula na Câmara, pediu ao ministro Alexandre de Moraes (STF) a abertura de uma nova frente de investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (PL). O pedido envolve um suposto contrato de consultoria jurídica que prevê o pagamento de 15 bitcoins ao parlamentar por uma empresa ligada à Atlas Quantum, acusada de provocar prejuízos de aproximadamente R$ 7 bilhões a investidores. A representação solicita que a Polícia Federal (PF) investigue a autenticidade do contrato e rastreie as movimentações finan...

Novo mapa revela marés negras a sufocarem os oceanos, com foco na EuropaNovo mapa revela marés negras a sufocarem os oceanos, com foco na Europa

Crise da Deepwater Horizon continua a ser o maior derrame de petróleo no mar da história -  Direitos de autor  WikiCommons Direitos de autor WikiCommons Mais de 90% da poluição por hidrocarbonetos estimada nos oceanos ocorre em águas sob jurisdição nacional, incluindo zonas protegidas. Manchas de óleo cobrem cerca de 1,58 milhões de quilómetros quadrados dos oceanos do mundo todos os anos, segundo uma nova análise por satélite que revela a dimensão da poluição no mar. Equivale a uma área cerca de três vezes maior do que a Espanha. Mas, ao contrário de derrames que fazem manchetes, como a crise da Deepwater Horizon, grande parte da poluição surge sob a forma de pequenas manchas de óleo que passam praticamente despercebidas ao público. A análise realizada pela organização de conservação tecnológica sem fins lucrativos SkyTruth concluiu que os navios estiveram associados a cerca de 81% das manchas de óleo cuja origem provável pôde ser identificada. Petroleiros e navios de carg...