Mais do que ligar continentes, os cabos submarinos tornaram-se uma infraestrutura crítica para atrair centros de dados, cloud e inteligência artificial, reforçando a competitividade do país.
A 8 de junho de 1870, Portugal entrou na era das telecomunicações globais com a entrada em funcionamento do primeiro cabo telegráfico submarino, que ligava Carcavelos a Porthcurno, na costa sul do Reino Unido. Mais de século e meio depois, o país continua a desempenhar um papel estratégico nas comunicações internacionais, beneficiando sobretudo da sua posição geográfica privilegiada no Atlântico.
Localizado na interceção das ligações entre a Europa, as Américas e África, Portugal afirma-se como uma plataforma de ligação entre continentes. Segundo um estudo deste ano da Câmara de Comércio Americana em Portugal (AmCham Portugal), até ao final deste ano, o país deverá contar com 20 cabos submarinos amarrados à costa. Em 2027, está ainda prevista a entrada em operação de mais um sistema, reforçando o papel de Portugal como uma das principais portas de entrada do tráfego digital na Europa.
Entre os principais sistemas encontram-se o EllaLink, Equiano, Medusa, 2Africa, Nuvem, New CAM Ring e Olisipo. O mais recente a chegar foi o Nuvem, da Google, o primeiro cabo submarino a estabelecer uma ligação direta entre os Estados Unidos e Portugal. Depois do Equiano, que entrou em operação em 2022, a tecnológica de Mountain View prepara já outro projeto, o Sol, que ligará a Florida à cidade espanhola de Santander, com passagem pela ilha açoriana de São Miguel.
A crescente concentração de infraestruturas de conectividade tem também um impacto económico significativo. O estudo da AmCham Portugal, elaborado pela PwC, estima que, além dos cerca de 200 milhões de euros investidos diretamente em projetos de cabos submarinos, esta infraestrutura deverá suportar mais de 10,3 mil milhões de euros em investimentos em projetos tecnológicos e digitais.
O efeito multiplicador estende-se muito para além das telecomunicações. A crescente capacidade de conectividade está a impulsionar o desenvolvimento de centros de dados, serviços cloud e inteligência artificial (IA), áreas que dependem diretamente desta infraestrutura para crescer.
Adicionalmente, em junho, a CEO da Meo, Ana Figueiredo, revelou numa entrevista ao ECO que a operadora vai, “pela primeira vez em 11 anos, investir num novo cabo submarino que liga a Irlanda a Lisboa e que vai ser operado aqui no território nacional pelas” respetivas equipas. “Este cabo chama-se PISCES, do ponto de vista oficial. Não oficialmente, chama-se cabo Brexit, porque é o primeiro cabo que permite à Irlanda conectar-se à Europa sem ser pelo Reino Unido”, indicou a gestora.
Sem cabos submarinos não há data centers
“Há uma velha máxima que diz que data centers sem conectividade são frigoríficos muito caros.” É desta forma que o presidente da Associação Portuguesa de Centros de Dados (Portugal DC), Luís Pedro Duarte, resume, em declarações ao ECO, a relação entre duas infraestruturas que atualmente são indissociáveis na economia digital.
A explicação é simples. Enquanto os cabos submarinos transportam mais de 95% do tráfego internacional de dados, os centros de dados armazenam, processam e distribuem essa informação. Sem ligações internacionais rápidas, resilientes e com elevada capacidade, um data center perde competitividade e dificilmente consegue responder às exigências de serviços cloud, IA, streaming ou plataformas digitais.
No final de 2026, Portugal deverá contar com 20 cabos submarinos amarrados.Magnific
A crescente adoção da IA veio reforçar ainda mais esta dependência. O treino e a operação dos modelos exigem a transferência de enormes volumes de informação entre centros de dados distribuídos por diferentes continentes, aumentando a necessidade de ligações internacionais com maior capacidade, menor latência e elevada redundância.
“Seja um data center de inferência, de investigação ou transacional, existe sempre uma troca constante de dados. Os cabos submarinos são tão essenciais como o próprio data center“, explica Luís Pedro Duarte.
Na prática, a informação pode ser armazenada, processada ou simplesmente encaminhada para outros destinos. Um serviço de armazenamento na cloud, uma videochamada, uma plataforma de streaming ou um modelo de inteligência artificial dependem todos desta interação permanente entre cabos submarinos e centros de dados.
Menos latência, mais competitividade, e o desafio de criar valor em Portugal
A importância dos novos sistemas mede-se também pela latência, que consiste no tempo que os dados demoram a percorrer o percurso entre a origem e o destino. “Cada vez mais se diz que a latência é o novo ouro”, afirma o presidente da Portugal DC. “Quanto mais rapidamente os dados chegam aos utilizadores ou entre centros de dados, maior é a eficiência dos serviços”, prossegue o responsável.
É precisamente esse um dos principais benefícios da ligação direta entre Portugal e os Estados Unidos assegurada pelo Nuvem. Ao reduzir o número de ligações intermédias, o cabo permite diminuir o tempo de transmissão dos dados e melhorar o desempenho de aplicações que exigem respostas praticamente instantâneas. Este fator ganha especial relevância numa altura em que a computação em cloud e a inteligência artificial aumentam significativamente os volumes de informação que circulam entre continentes e entre centros de dados.
Mas o potencial dos cabos submarinos vai além da melhoria da conectividade internacional. O verdadeiro desafio passa por garantir que Portugal não se limita a servir de corredor para o tráfego global de dados. “O importante é que esses dados sejam armazenados em Portugal, processados em Portugal e depois novamente transmitidos. Não queremos ser apenas um ponto de passagem“, defende Luís Pedro Duarte.
É precisamente nesta fase que entram os centros de dados. Se os cabos submarinos constituem a infraestrutura que liga Portugal às principais redes mundiais, são os data centers que permitem captar uma parte maior da cadeia de valor da economia digital. É neles que os dados são armazenados, tratados e transformados em serviços digitais, aplicações de IA ou plataformas cloud.
Nos últimos anos, o país tem vindo a captar projetos de operadores internacionais que procuram aproveitar a combinação entre conectividade global, disponibilidade de energia e uma posição geográfica estratégica para servir mercados em diferentes continentes.
O maior investimento é liderado pela Start Campus, em Sines, que está a desenvolver um dos maiores campus de centros de dados da Europa. O projeto prevê uma capacidade total de 1,2 gigawatts e um investimento da Microsoft estimado no valor de dez mil milhões de dólares, apoiando-se na proximidade aos cabos submarinos e na utilização de energia renovável.
Mas não é um caso isolado. A Equinix reforçou a sua presença em Lisboa com dois centros de dados, planeia o terceiro, e posiciona a capital como um gateway digital internacional para operadores globais. A AtlasEdge inaugurou em outubro o seu campus em Carnaxide com um investimento previsto que ascenderá a 500 milhões de euros, quando tiver todos os edifícios concluídos, e uma capacidade prevista de cerca de 30 megawatts. Já a Merlin Edged tem em desenvolvimento um pipeline que poderá atingir 1,3 gigawatts em Portugal, enquanto a Digital Realty entrou recentemente no mercado nacional com projetos junto das principais infraestruturas de conectividade.
Um estudo da consultora imobiliária JLL, divulgado no início do ano, estima ainda que a capacidade instalada de centros de dados no mundo aumente de 103 gigawatts para cerca de 200 gigawatts até 2030, o equivalente a uma taxa média de crescimento anual de 14%. A consultora identifica ainda a localização geográfica, a estabilidade da rede elétrica e o crescente investimento em energias renováveis como alguns dos fatores que reforçam a competitividade de Portugal.
Em maio, o ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, revelou que existem atualmente cerca de 40 pedidos para instalação de centros de dados em Portugal, um indicador da crescente procura por infraestruturas digitais no país e do potencial que a combinação entre cabos submarinos, disponibilidade energética e localização estratégica está a gerar.
A localização geográfica continua, no entanto, a ser um dos principais trunfos do país. Além de estar na ligação natural entre a Europa, as Américas e África, Portugal beneficia da proximidade de águas profundas junto à costa, sobretudo com o porto marítimo de águas profundas em Sines, uma característica que, segundo Luís Pedro Duarte, reduz os custos de instalação dos cabos submarinos e diminui o risco de avarias provocadas por atividades marítimas.
A futura entrada em funcionamento do Sol em 2027 acrescentará ainda um novo fator de resiliência. O sistema fará ligação entre a Florida e Santander, passando pelos Açores, criando uma alternativa ao Nuvem em caso de falha entre os Açores e Sines. “Se houver um problema num dos troços, existe outro percurso disponível. Isso aumenta significativamente a redundância e a segurança da infraestrutura”, explica o responsável.
Se hoje são essenciais para a economia digital, os cabos submarinos começam também a desempenhar novas funções. Além de assegurarem a circulação global de dados, estas infraestruturas passam a integrar sensores capazes de monitorizar o oceano e detetar fenómenos como tsunamis. “Estes cabos começam a ter um conjunto de sensores que permite detetar tsunamis”, refere Luís Pedro Duarte, numa evolução que demonstra como uma infraestrutura criada para ligar continentes está também a ganhar importância na monitorização e proteção do ambiente marinho.
Portugal perto de amarrar 20 cabos submarinos e tornar-se ‘hub’ digital – ECO

Comentários
Enviar um comentário