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Origem da vida: Encontrado açúcar nas profundezas da Via Láctea



 - Cientistas detectaram eritrulose, um açúcar, no meio interestelar da Via Láctea.  

- Descoberta feita com radiotelescópios, confirmada por assinaturas espectrais.  

- Açúcares são essenciais para RNA/DNA; reforça que podem surgir no espaço, antes de planetas.  

- Açúcares já foram achados em asteroides e cometas, mas a origem deles era incerta.  

- Estudo sugere que toneladas desses compostos podem ter chegado à Terra via impactos celestes.  

- Intrigante: não foi encontrado um açúcar mais simples (3 carbonos), contrariando modelos químicos.  

- Próximo passo: procurar ribose e desoxirribose no espaço



Cientistas detectam açúcar nas profundezas da Via Láctea — e reforçam hipóteses sobre origem da vida

Estudo identifica pela primeira vez uma molécula de açúcar no meio interestelar e amplia as hipóteses sobre a origem dos compostos que deram origem à vida

A busca por entender como os primeiros compostos essenciais para a vida surgiram ganhou uma nova evidência. Pesquisadores identificaram, pela primeira vez, uma molécula de açúcar no meio interestelar da Via Láctea, descoberta descrita nesta segunda-feira, 13, na revista Nature Astronomy. O resultado amplia o conhecimento sobre a química do espaço e pode ajudar a explicar como moléculas fundamentais chegaram à Terra antes do surgimento da vida.

O composto detectado foi a eritrulose, um açúcar formado por quatro átomos de carbono, oito de hidrogênio e quatro de oxigênio. Para o astroquímico Brett McGuire, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que não participou da pesquisa, não há dúvidas sobre a natureza da molécula. "É um açúcar de verdade, autêntico", afirmou.

A presença de açúcares na Terra primitiva sempre foi considerada um requisito para o desenvolvimento dos primeiros organismos. Apesar disso, cientistas ainda não conseguiram reproduzir em laboratório, de forma consistente, os processos químicos capazes de gerar essas moléculas nas condições existentes no início do planeta.

Uma das hipóteses mais aceitas é que esses compostos tenham chegado por meio de impactos de asteroides e cometas. Missões espaciais e análises de meteoritos já identificaram açúcares como glicose e ribose nesses corpos celestes. O que permanecia sem resposta era a origem dessas moléculas antes de serem incorporadas aos asteroides.

Como a pesquisa foi feita?
A pesquisa foi liderada pela astroquímica Izaskun Jiménez-Serra, do Centro de Astrobiologia, na Espanha. Segundo a cientista, a procura por açúcares no espaço começou a ganhar força no início dos anos 2000, mas as sucessivas tentativas sem resultados reduziram as expectativas da comunidade científica.

Esse cenário começou a mudar nos últimos anos, com a identificação de moléculas orgânicas cada vez mais complexas em nebulosas. Esses avanços reforçaram a possibilidade de que compostos relacionados à química da vida também estivessem presentes no meio interestelar.

O ambiente entre as estrelas da Via Láctea, formado por poeira e gases, já é conhecido como um local de intensa atividade química. Centenas de moléculas diferentes foram catalogadas nessa região, incluindo compostos considerados blocos fundamentais para a formação do RNA mensageiro. Estudos experimentais também indicavam que açúcares poderiam surgir a partir de reações químicas em partículas de gelo presentes nesse ambiente.

Para realizar a nova detecção, os pesquisadores utilizaram dois radiotelescópios voltados para o centro da Via Láctea. As observações registraram frequências de rádio emitidas pelas moléculas presentes no espaço. Como cada substância produz uma assinatura espectral específica ao girar e vibrar, foi possível comparar esses sinais com medições obtidas em laboratório.

Foi essa comparação que revelou a presença da eritrulose em uma nebulosa localizada nas proximidades do centro da galáxia. Jiménez-Serra relatou que a confirmação provocou grande emoção, mas a equipe decidiu revisar repetidamente os resultados para eliminar qualquer possibilidade de erro ou confusão com outra molécula.

McGuire avaliou que a análise foi rigorosa e destacou o cuidado dos pesquisadores em descartar interpretações alternativas antes de confirmar a descoberta.

O estudo também recebeu avaliação positiva do astroquímico Yoshihiro Furukawa, da Universidade de Tohoku, no Japão. O pesquisador participou de trabalhos anteriores que identificaram açúcares no asteroide Bennu, mas não integrou a nova pesquisa.

Os autores afirmam que a descoberta fortalece a hipótese de que açúcares podem ser produzidos naturalmente no espaço, sem a presença de organismos vivos e até antes da formação de estrelas e planetas. Essa possibilidade ajuda a compreender como moléculas necessárias para a formação de RNA e DNA poderiam estar disponíveis nos primeiros estágios da história da Terra.

Segundo Jiménez-Serra, o mesmo processo pode ocorrer em outras nuvens moleculares distribuídas pela Via Láctea, ampliando a possibilidade de que ingredientes básicos para a vida também existam em diferentes regiões da galáxia.

A equipe pretende ampliar as investigações para identificar moléculas ainda mais complexas, como ribose e desoxirribose, componentes estruturais do RNA e do DNA.

Os pesquisadores estimam que, durante o período inicial da formação da Terra, entre 0,5 milhão e 50 milhões de toneladas desse tipo de açúcar possam ter sido transportadas ao planeta por impactos de corpos celestes.

Outro resultado chamou a atenção da equipe. Embora a eritrulose tenha sido detectada, nenhum sinal de um açúcar mais simples, composto por três átomos de carbono, foi encontrado. Para Brett McGuire, essa ausência contraria o comportamento esperado das reações químicas conhecidas e deve motivar novos estudos sobre a formação de moléculas orgânicas no espaço.


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