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Calçada portuguesa mata mais em Lisboa: Carlos Moedas muda de passeios "progressivamente"



 Tese de doutoramento no ISCTE mostra que quedas no passeio estão na origem de muitas mortes por pneumonia


Ricardo Antunes, sociólogo e doutorado em Sociologia, investigou as causas remotas de 1935 óbitos hospitalares: 944 em Lisboa e 991 em Beja. “Surpreendentemente, percebi que na capital há mais mortes por pneumonia”, relata à CNN Portugal. Essa constatação deixou-o surpreendido. “Como é que a região mais rica do país, com os hospitais mais diferenciados, os melhores técnicos e a melhor tecnologia de saúde, ainda tem tantos casos fatais de uma infeção respiratória como a pneumonia?”, questionou-se o sociólogo.


Ao reconstruir a história clínica dos falecidos, encontrou um padrão. “As informações nos registos de saúde mostram, claramente, que um número significativo dessas vítimas tinha, na sua história recente, um episódio de queda na via pública”, relata o enfermeiro, que se doutorou em Sociologia no ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa. Um dos capítulos da sua tese, sobre desigualdades em saúde, trata da relação entre a calçada portuguesa e a mortalidade. A sequência fatal é a seguinte: queda, fratura, internamento, período longo de convalescença na cama, sedentarismo, medo de sair de casa, acumulação de secreções na base dos pulmões. “A pessoa cai e começa por ter um problema ortopédico. Mas depois isso vai detonar muitos outros”, descreve Ricardo Antunes.


Câmara de Lisboa conhece bem o risco

A Câmara Municipal de Lisboa (CML) reconhece o problema, pelo menos, desde 2013, altura em que foi aprovado o Plano de Acessibilidade Pedonal da cidade. Um inquérito realizado, na época, a lisboetas a partir dos 55 anos, revelou que 55% já haviam caído no passeio e 92% têm medo de vir a sofrer uma queda. O resultado foi considerado melhor do que a realidade: a auscultação aos munícipes aconteceu em reuniões presenciais, excluindo por isso aqueles com pior mobilidade.


Numa resposta escrita enviada à CNN Portugal, Carlos Moedas reconhece que “a calçada fica polida com o uso dos peões e a passagem do tempo, tornando-se potencialmente mais escorregadia”. Por isso, o presidente de câmara garante que a autarquia está a tomar medidas, no sentido de conciliar “a identidade que a calçada confere à cidade” com a segurança dos peões. “A opção tem sido fazer coexistir ambos os tipos de pavimentos: os pisos antiderrapantes para as zonas dos percursos pedonais e a calçada para as margens dos passeios”, expõe o autarca.


Um problema de saúde pública

Em muitos bairros históricos, essa adaptação é difícil. Passeios estreitos, ruas íngremes e pedra desgastada continuam a criar obstáculos a idosos, pessoas com dificuldades motoras ou cidadãos que usam bengalas, andarilhos ou muletas. “Isto é um problema de saúde pública. Pelo menos nestas ruas íngremes, é urgente substituir a calçada por um piso mais aderente”, pede Ricardo Antunes.


O sociólogo defende que Lisboa precisa de adaptar o espaço público ao envelhecimento da população. “Os idosos não podem ter medo de sair à rua, isso é o contrário do envelhecimento ativo”, protesta o autor do livro “Desigualdades em Saúde”, recentemente editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.


“A calçada portuguesa é um desastre”, declarou também o ex-ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, na conferência ‘50 Anos de Autonomia – Saúde’, promovida na semana passada pela Universidade da Madeira.


Calçada portuguesa mata mais em Lisboa: Carlos Moedas muda de passeios "progressivamente" - CNN Portugal


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