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Este restaurante é tão bom que há pessoas proibidas por lei de irem lá comer

 

Sopa (servida num bule de chá) e outras entradas adornam a mesa no King's Joy (Steve Wang/CNN)

Não é um local que sirva para ir todos os dias, mas antes em ocasiões bastante especiais. Ainda assim, nem nessas circunstâncias algumas pessoas podem entrar, mesmo que ninguém saiba porquê

Como refúgio secreto outrora reservado aos antigos imperadores da China, para além da vigilância dos homens de negro que guardam a entrada em frente ao histórico Templo Lama de Pequim, um estreito caminho de pedra conduz silenciosamente a um pátio.

A névoa flutua suavemente ao longo da passadeira. No final do mesmo, uma mulher envolta num manto simples sobre um vestido tradicional chinês aguarda junto a um muro caiado que protege o pátio das ruas movimentadas da antiga Pequim. Com um gesto delicado, convida os visitantes a entrar no restaurante.

Não é o tipo de restaurante que se frequenta todos os dias. É um local reservado para ocasiões especiais: pedidos de casamento, aniversários ou receções.

Contudo, há um tipo de convidado que não pode desfrutar do elegante estabelecimento, nem mesmo em ocasiões especiais, mesmo que paguem a refeição do próprio bolso: os funcionários públicos chineses.

A entrada do Palácio da Alegria do Rei. Do outro lado da muralha, uma movimentada rua de Pequim (Steve Wang/CNN)
A entrada do Palácio da Alegria do Rei. Do outro lado da muralha, uma movimentada rua de Pequim (Steve Wang/CNN)

Por ordem do governo, os funcionários públicos estão proibidos de frequentar o restaurante desde o ano passado, segundo informou à CNN uma fonte chinesa familiarizada com o assunto.

O local chama-se King’s Joy. A combinação dos carateres em chinês faz referência à rica herança cultural de Pequim, capital de quatro dinastias imperiais. Reservar mesas aqui tornou-se extremamente concorrido, com chineses ricos e famosos a competir com turistas estrangeiros. Cada vez mais, a crescente classe média chinesa procura também frequentar o restaurante.

O King’s Joy é famoso pelo seu menu inteiramente vegetariano, feito com ingredientes provenientes exclusivamente da China. Os pratos são preparados com técnicas culinárias simples e apresentados com elegância num ambiente clássico, criando um ambiente zen.

No interior, um piso de mármore preto polido estende-se pelo centro do salão como um lago profundo. As mesas estão dispostas em torno da sua borda e um harpista apresenta-se no centro. Durante o dia, as mudanças de estação e a luz que incide sobre o pátio do restaurante são visíveis através das janelas. Ao cair da noite, o interior é iluminado por candelabros de seda com um brilho suave e pela luz trémula das velas.

Dizer que o King’s Joy foi um sucesso é um eufemismo. É o único restaurante chinês no mundo a ter conquistado três estrelas Michelin e a Estrela Verde Michelin pelas suas práticas sustentáveis. Foi considerado “o padrão mundial da gastronomia vegetariana” pela lista dos 50 Melhores Restaurantes do Mundo. O seu modelo operacional foi tema de um estudo de caso na Harvard Business School, em 2019.

O restaurante King's Joy é famoso pelo seu menu inteiramente vegetariano, feito com ingredientes provenientes exclusivamente da China (Steve Wang/CNN)
O restaurante King's Joy é famoso pelo seu menu inteiramente vegetariano, feito com ingredientes provenientes exclusivamente da China (Steve Wang/CNN)

Parece contraditório que os funcionários públicos não possam jantar num restaurante tão conceituado, especialmente um que tem sido bem-sucedido na promoção da cozinha chinesa numa altura em que Pequim procura fortalecer a sua influência internacional.

Desde o ano passado que o King’s Joy é um dos vários estabelecimentos em Pequim que os funcionários públicos estão proibidas de frequentar, segundo uma fonte chinesa. A lista não é pública e não há uma explicação oficial para a proibição.

Uma possível razão seria o custo: uma refeição no King’s Joy custa a partir de 220 euros por pessoa, o que contraria a implacável campanha anti-corrupção do líder chinês Xi Jinping.

Xi fez dos banquetes sumptuosos e do consumo excessivo de álcool um dos principais alvos da sua longa guerra contra a corrupção, afirmando que tais práticas podem levar à decadência moral no seio do Partido Comunista.

Os legumes da época e os cogumelos morel são servidos como prato principal (Steve Wang/CNN)
Os legumes da época e os cogumelos morel são servidos como prato principal (Steve Wang/CNN)

O salário médio mensal dos funcionários públicos em Pequim ronda os 1.400 euros, segundo dados do Departamento Nacional de Estatísticas da China de 2025. Este rendimento relativamente modesto destoaria das visitas a locais sofisticados e poderia dar a impressão de que os fundos públicos estariam a ser mal utilizados, ou que os funcionários teriam recebido ou estariam envolvidos em subornos.

A proibição não é provavelmente uma surpresa para aqueles que serão afetados. Numerosos clubes privados de luxo foram obrigados a encerrar em 2014, quando Pequim intensificou a sua campanha anticorrupção para conter o estilo de vida outrora extravagante dos seus funcionários.

Xi é conhecido por preferir refeições simples e caseiras nas suas viagens pela China. Em 2013, foi fotografado na fila para comprar um tabuleiro de pão cozido a vapor num restaurante de rua em Pequim, uma imagem cuidadosamente escolhida para mostrar a sua proximidade com as pessoas comuns.

Gary Yin, chef executivo do King's Joy, admite à CNN que ouviu rumores sobre a proibição, mas não presenciou pessoalmente qualquer prova da mesma.

Um restaurante e uma atração turística

O King’s Joy está localizado no antigo centro imperial de Pequim, a cerca de seis quilómetros da Cidade Proibida. Também fica a apenas algumas estações de metro de onde muitos ministérios do governo central e embaixadas estrangeiras têm os seus escritórios.

Embora as pessoas de todo o mundo adotem dietas vegetarianas por diversos motivos, o vegetarianismo tem uma longa e interessante história na China. Durante séculos, esteve associado à prática budista e à vida frugal. Mas a capacidade do chef Yin em pegar em pratos simples e humildes e transformá-los numa experiência luxuosa conquistou muitos fãs. “Optámos por investir na alta gastronomia porque Pequim é uma cidade muito influente - cultural, política e historicamente”, diz Yin.

O nome do King's Joy está escrito em chinês e inglês, assim como o seu menu (Steve Wang/CNN)
O nome do King's Joy está escrito em chinês e inglês, assim como o seu menu (Steve Wang/CNN)

“Estar localizado no antigo coração imperial da capital também nos dá a oportunidade de influenciar pessoas influentes e incentivá-las a falar em nome do vegetarianismo e da alimentação sustentável”, acrescenta.

“Se as autoridades governamentais reconhecerem e apoiarem estas ideias, isso poderá ajudar a promover legislação em áreas como o bem-estar animal, a promoção dos vegetais e o apoio a práticas agrícolas biológicas e mais limpas.”

O pai de Yin, David Yin, foi um defensor do vegetarianismo durante toda a sua vida. Fundou o King’s Joy em 2010 e deu-lhe o nome de um restaurante que a sua família geria em Taipei.

Originários de Pequim, os Yin mudaram-se para Taiwan em 1966, abrindo um restaurante famoso por servir doces ao estilo imperial. Dizia-se que o seu pudim de ervilhas era um dos favoritos da Imperatriz Viúva Cixi no final da dinastia Qing.

A família Yin mudou-se para o Canadá em 1995, regressando a Pequim 15 anos depois para abrir o restaurante perto do Templo Lama.

Atualmente, Gary é o responsável pelo restaurante, enquanto a sua irmã, Mia, é a chef pasteleira.

Desde que abriu portas em 2012, o King’s Joy tornou-se uma referência na alta gastronomia vegetariana na China, sendo frequentado por várias celebridades, desde Rupert Murdoch a Ashin, vocalista da banda taiwanesa Mayday. Personalidades estrangeiras, como o presidente italiano Sergio Mattarella e o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, já ali jantaram durante visitas de Estado.

O átrio do restaurante faz lembrar a casa de uma grande família da China antiga (Steve Wang/CNN)
O átrio do restaurante faz lembrar a casa de uma grande família da China antiga (Steve Wang/CNN)
Alguns dos prémios e reconhecimentos do restaurante estão em exposição (Steve Wang/CNN)
Alguns dos prémios e reconhecimentos do restaurante estão em exposição (Steve Wang/CNN)

Bernhard Schwartländer, antigo diretor-geral adjunto da Organização Mundial de Saúde e seu representante na China, refere à CNN que já visitou o King's Joy por diversas vezes. "Dominam a arte de preparar comida sem carne nem peixe. É uma combinação de leveza, frescura e muito, muito, muito sabor", afirma. "O restaurante em si, claro, é um oásis de beleza. O serviço é excecional."

O King's Joy tornou-se também um marco cultural único para muitos turistas ocidentais que visitam a China pela primeira vez. Embora sejam atraídos pela sua fama, o menu vegetariano também tranquiliza alguns visitantes estrangeiros preocupados com a segurança alimentar e com estilos culinários desconhecidos.

Segundo Yin, a grande maioria dos clientes do King’s Joy não é vegetariana.

O restaurante serve um menu fixo com pratos individuais, em vez dos grandes pratos partilhados que são comuns noutros locais da China. Os menus estão disponíveis em chinês e inglês, e a maioria dos funcionários do restaurante fala ambos os idiomas fluentemente.

Um conceito gastronómico "radical"

O King’s Joy tem um menu sazonal que muda a cada duas semanas. Na China, isto não significa apenas primavera, verão, outono e inverno - o ano está dividido em 24 períodos solares com nomes poéticos como “água da chuva” e “orvalho branco”. Dependendo da época da visita, os clientes podem experimentar seda de arroz manchuriana com trufa negra e bolbos de lírio, sopa feita com medula de bambu ou pudim de leite de osmanthus. Ingredientes chineses menos conhecidos, como o fruto górgona - uma semente redonda e castanho-avermelhada - também aparecem no menu. O restaurante oferece ainda harmonizações com bebidas fermentadas caseiras, bem como chá ou vinho.

Yin não acha que a comida vegetariana deva ser uma reflexão tardia na China.

O chef Gary Yin posa em frente a alguns dos seus prémios (Fotografia cedida por Gary Yin)
O chef Gary Yin posa em frente a alguns dos seus prémios (Fotografia cedida por Gary Yin)

“Já existe uma base sólida de técnicas culinárias, desenvolvimento de sabores e sofisticação gastronómica”, diz. “E, no entanto, muitos restaurantes ainda não tratam os legumes como o verdadeiro protagonista de um prato. É uma pena."

“Em vez disso, países como a Tailândia, a Índia e até mesmo muitos países ocidentais, cujas cozinhas são tradicionalmente muito menos centradas nos vegetais, desenvolveram culturas gastronómicas vegetarianas vibrantes. Num país como a China, poder desfrutar de uma cozinha vegetariana verdadeiramente deliciosa deveria ser algo natural e esperado.”

O que mudou não foi a existência de comida vegetariana na China - mas sim o facto de poder ser sofisticada e cara.

Atualmente, cerca de 4% da população chinesa identifica-se como vegetariana, de acordo com um estudo dos meios de comunicação estatais de 2024. As Diretrizes Alimentares Chinesas, um conjunto oficial de sugestões de nutrição e alimentação saudável, começaram a incluir orientações para vegetarianos em 2016.

Uma geleia, algumas folhas verdes e uma pequena flor roxa cobrem uma preparação de ervilha de cheiro, frutos de górgona e caju (Steve Wang/CNN)
Uma geleia, algumas folhas verdes e uma pequena flor roxa cobrem uma preparação de ervilha de cheiro, frutos de górgona e caju (Steve Wang/CNN)

Fuchsia Dunlop, autora e chef britânica especializada em cozinha chinesa, afirma que apresentar comida vegetariana ao público em geral, em vez de aos budistas, é ainda uma atitude radical na China.

"Outro aspeto radical é o preço elevado", nota. "É muito radical pedir às pessoas que paguem caro pelos ingredientes vegetais."

"E acho que o que está a acontecer agora é que as pessoas estão interessadas na comida vegetariana como uma escolha de estilo de vida, e não religiosa. Isto proporciona uma certa liberdade para a cozinha vegetariana."


Este restaurante é tão bom que há pessoas proibidas por lei de irem lá comer - CNN Portugal


Comentário do Wilson

A ideia generalizada de que os salários dos chineses são extremamente baixos e que é apenas por isso que existem carros novos à venda por menos de 4000€ está ultrapassada. Como se pode observar neste artigo, o salário médio na China — especialmente nos grandes centros urbanos — tem vindo a crescer de forma vertiginosa, aproximando-se a passos largos da realidade europeia.

A grande diferença reside no poder de compra e no custo de produção local: na China, bastam poucos meses de salário médio para adquirir um automóvel novo, enquanto em Portugal são necessários quase dois anos de trabalho para alcançar o mesmo objetivo.



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