Avançar para o conteúdo principal

Autor de "História Concisa dos EUA": "Trump pode acabar na prisão, Netanyahu também e onde Putin vai parar ninguém sabe"

 

Donald Trump capa bandeira EUA América revista alemã Stern "Sein Kampf" (Michael Sohn/AP)

Nos 250 anos da fundação dos Estados Unidos da América, historiador Don Watson fala num país "em declínio" ao leme de um presidente em "desespero" - e especula que, se tivesse tempo, Donald Trump tentaria dominar o Brasil

O historiador australiano Don Watson considera, em entrevista à Lusa, que a América está em declínio, admitindo que a democracia demorará tempo a reverter, e manifesta algum pessimismo quanto ao resultado das eleições intercalares norte-americanas.

“Os EUA estão em declínio, se não em declínio absoluto, pelo menos relativo, porque a China e a Índia estão a crescer cada vez mais”, afirma Don Watson a partir de Melbourne, Austrália, numa conversa a propósito do seu recente livro “História Concisa dos EUA” (The Shortest History of the United States of America), no âmbito dos 250 anos do país.

O historiador, que foi assessor e conselheiro do primeiro-ministro australiano Paul Keating, aponta que centenas de milhares de pessoas dependem do trabalho na indústria de armamento.

“O facto de os EUA fabricarem mais armas e gastarem mais com as forças armadas do que todos os outros países juntos parece-me uma fraqueza, em termos relativos”, além de que o país está “a desistir das energias renováveis” e a ficar “para trás na vanguarda da ciência e da tecnologia”, argumenta, para explicar o seu relativo declínio.

Relativamente às intercalares, “se os Democratas conquistarem a Câmara, ou melhor ainda, se conquistarem a Câmara e o Senado, haverá um alívio para Trump, penso eu, mas também poderá ser um incentivo, poderá significar que irá pressionar a sua agenda com mais força e de forma menos democrática”, adverte.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, “tem algo de muito profundo em comum com Putin e Netanyahu”, estão “encostados à parede” e “precisam de vencer pessoalmente”, pelo que há “uma espécie de desespero neles”, refere.

Trump “pode acabar na prisão, Netanyahu também, e onde Putin vai parar, ninguém sabe”, comenta.

foto Evan Vucci/AP

Num Congresso controlado pelos democratas “o que é que eles fariam?", questiona em tom retórico. "Destituí-lo-iam? Bem, já o tentaram algumas vezes, não faz grande diferença."

Só que agora, prossegue Watson, “também seria destituído no Senado, e aí teríamos uma crise constitucional, que não seria nada bonita”, até porque se se partir do princípio que Trump não aceita “ser o Presidente mais fraco de sempre porque há um Congresso democrata, conhecendo Trump, não se consegue imaginá-lo a ceder”, diz.

Don Watson não acredita que a base de apoio de Trump permita a sua queda. Caso os oligarcas tecnológicos decidam migrar o apoio para um eventual candidato democrata, a sua chegada ao poder com esta base “vai parecer aos eleitores democratas quase tão tóxico como Trump”.

A grande questão do Partido Democrata é que este “tem de mudar, não pode continuar a ser o partido alternativo das empresas” porque as pessoas detestam isso.

“Será que a democracia mudou permanentemente por causa disso? Penso que tende a ser um argumento para dizer que será alterado de forma permanente, não pode ser de outra forma, porque há muito poder nas forças armadas, nos multimilionários da tecnologia, na indústria petrolífera e assim por diante”, aponta, pelo que a questão é como governar sem estar sob a alçada destes.

O historiador, nascido em 1949, considera que se Trump tivesse tempo tentaria dominar o Brasil.

“Acho que [Trump] não sabe exatamente onde fica Portugal”, ironiza, salientando que ele causou uma série de danos na democracia e nas instituições. Do Projeto 2025, metade foi implementado: “departamentos foram esvaziados, acólitos de Trump foram colocados no comando, milhares e milhares de funcionários públicos foram despedidos, e com eles se foi muito conhecimento corporativo, politizou muitas instituições que não costumavam ser politizadas” e “desviou dinheiro da USAID e de instituições culturais americanas”, elenca.

Sem contar com as suas ordens executivas, tarifas, as guerras que declara, diz. “Reverter esta situação será muito difícil”, salienta, referindo que Vance não será tão diferente de Trump.

foto Jim Lo Scalzo/Pool/EPA-EFE/Shutterstock

“Penso que a democracia vai precisar de muitos reparos, mesmo no melhor dos cenários possíveis. Vai precisar de muitos reparos no pior cenário, sabe-se lá o que vai acontecer. Porque ele está a criar precedentes que vão impedir o próximo presidente de avançar”, acrescenta.

“E é muito difícil ver o Partido Democrata encontrar a coragem, a força de caráter” porque este” tem muita responsabilidade em relação a Trump”. Além disso, “não consigo imaginar como é que a democracia americana regressará a um estado mais imaculado quando Trump sair”, admite.

A história da América é feita sobre enormes contradições: “uma declaração de independência escrita por um homem que possuía 600 escravos, uma Constituição escrita por homens, todos eles proprietários de escravos, exceto talvez um ou dois”, recorda.

“Os cinco primeiros presidentes eram proprietários de escravos” e até hoje persistem “divisões raciais que nunca desaparecerão”, sublinha.

Quanto à Europa, “está certamente num ponto de inflexão”. Se os europeus “assumirem mais responsabilidade pela sua própria defesa e forem unidos por esse interesse comum, isso poderá ser uma coisa boa”, sublinha.

Critica ainda o apoio de Vance ao húngaro Viktor Orbán, algo “muito estranho”, que se traduziu em duas coisas positivas: “uma delas é que os húngaros votaram para tirar Orbán do poder” e, a segunda “que os europeus se uniram o suficiente para financiar a Ucrânia por mais dois anos”.

No livro, Don Watson aborda a história norte-americana desde a declaração de independência ao MAGA, e os 250 anos de convulsões, conquistas e recuos. Os EUA nasceram em 04 de julho de 1776, quando 13 colónias declararam independência da Grã-Bretanha.


Autor de "História Concisa dos EUA": "Trump pode acabar na prisão, Netanyahu também e onde Putin vai parar ninguém sabe" - CNN Portugal


Comentários

Notícias mais vistas:

Este restaurante é tão bom que há pessoas proibidas por lei de irem lá comer

  Não é um local que sirva para ir todos os dias, mas antes em ocasiões bastante especiais. Ainda assim, nem nessas circunstâncias algumas pessoas podem entrar, mesmo que ninguém saiba porquê Como refúgio secreto outrora reservado aos antigos imperadores da China, para além da vigilância dos homens de negro que guardam a entrada em frente ao histórico Templo Lama de Pequim, um estreito caminho de pedra conduz silenciosamente a um pátio. A névoa flutua suavemente ao longo da passadeira. No final do mesmo, uma mulher envolta num manto simples sobre um vestido tradicional chinês aguarda junto a um muro caiado que protege o pátio das ruas movimentadas da antiga Pequim. Com um gesto delicado, convida os visitantes a entrar no restaurante. Não é o tipo de restaurante que se frequenta todos os dias. É um local reservado para ocasiões especiais: pedidos de casamento, aniversários ou receções. Contudo, há um tipo de convidado que não pode desfrutar do elegante estabelecimento, nem mesmo em ...

Construção da maior central solar em Portugal encravada há mais de dois anos na justiça, apesar de aprovada

Santa Luzia in northeastern Brazil.  EPA/SEBASTIAO MOREIRA  Desde 2024 que a autorização ambiental dada à central solar Fernando Pessoa foi suspensa por decisão do juiz e após impugnação do Ministério Público. Agência do Ambiente recorreu, mas não há decisão. A maior central solar aprovada para Portugal, com mais de mil megawatts (MW) de potência, está parada há mais de dois anos, na sequência de processos judiciais colocados contra a aprovação emitida pelas autoridades ambientais. A atribulada história do projeto, que foi batizado com o nome do poeta Fernando Pessoa, mostra que o licenciamento ambiental — por intervenção da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ou do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza de Florestas) — nem sempre é o maior obstáculo à execução dos projetos de energias renováveis. A central solar fotovoltaica Fernando Pessoa está prevista para o concelho de Santiago do Cacém e obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada em jane...

Trump anuncia que cessar-fogo com Irão “acabou” e corta relações comerciais com Espanha

 "Para mim, acho que acabou. Não quero lidar com eles", avisou o Presidente norte-americano, a partir de Ancara, quando questionado sobre se o memorando de entendimento com Teerão tinha chegado ao fim. O Presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou esta quarta-feira que o memorando de entendimento assinado com o Irão para pôr fim ao conflito “acabou”, acrescentando que não quer manter contactos com Teerão e referindo-se aos líderes iranianos como “pessoas doentes”. As declarações do líder da Casa Branca, que se encontra em Ancara, na Turquia, para participar na cimeira da NATO, surgem após os Estados Unidos terem lançado novos ataques militares contra o Irão e revogarem uma licença que permitia a Teerão vender petróleo, em resposta aos ataques a três petroleiros. “É uma questão muito interessante. Para mim, acho que acabou. Não quero lidar com eles. São escória. São pessoas doentes. São liderados por pessoas doentes“, afirmou o Chefe de Estado norte-americano, quando questionado...