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"Afastados da realidade": ataques da Ucrânia estão a esgotar a paciência até àqueles que sempre estiveram ao lado de Putin


Coluna de fumo na refinaria de petróleo de Moscovo da Gazprom Neft - Anadolu


 Mais de quatro anos depois do início da invasão em larga escala da Ucrânia, a estratégia de Vladimir Putin de manter a guerra afastada do quotidiano da população começa a revelar os seus limites. Pela primeira vez em vários anos de guerra, até algumas das vozes mais nacionalistas e pró-guerra da Rússia começam a admitir que aquilo que os russos veem "com os próprios olhos" já não coincide com a narrativa oficial de que "está tudo bem"


A guerra que Vladimir Putin tentou manter à distância dos russos está a chegar cada vez mais ao interior do país e a tornar-se impossível de esconder. A conclusão é do mais recente relatório do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), que considera que a intensificação dos ataques ucranianos em profundidade está a expor "as fraquezas da Rússia e a incapacidade de defender a sua população", ao mesmo tempo que coloca o Kremlin perante um dilema: como continuar a apresentar a invasão da Ucrânia como um conflito distante quando as consequências começam a ser sentidas no coração da própria Rússia. 


Ao longo de mais de quatro anos de guerra, o Kremlin procurou preservar uma espécie de normalidade no quotidiano dos russos. Enquanto as operações militares se desenrolavam em território ucraniano, a máquina de propaganda do Estado manteve a ideia de que a chamada "operação militar especial" decorria longe das grandes cidades russas e que os cidadãos não tinham de alterar as suas vidas por causa dela. No entanto, essa narrativa está a tornar-se progressivamente mais difícil de sustentar, de acordo com o ISW.


Segundo os analistas norte-americanos, a "crescente frequência, dimensão e profundidade" dos ataques ucranianos contra cidades fortemente protegidas, como Moscovo e São Petersburgo, está a revelar "vulnerabilidades cada vez mais evidentes nas defesas russas" e a obrigar o Kremlin a confrontar-se com os "custos internos da guerra" que lançou em fevereiro de 2022. 


O ISW considera que Kiev está a conseguir demonstrar que mesmo os centros urbanos mais importantes da Rússia não são intocáveis. E os acontecimentos das últimas horas voltam a reforçar essa ideia. 


Na madrugada de quarta-feira, a Ucrânia lançou uma nova vaga de ataques em território russo, tendo voltado a atingir a refinaria de Moscovo, pela segunda vez em apenas dois dias. Apesar de as autoridades russas garantirem ter intercetado a esmagadora maioria dos drones, o ISW considera que Kiev está a aumentar as suas capacidades de ataque de longo alcance ao ponto de "mesmo um número relativamente reduzido de drones que consegue atingir os seus alvos produzir efeitos significativos".


Mais importante ainda, os ataques parecem estar a provocar fissuras num dos setores que, desde o início da guerra, mais apoio tem dado ao Kremlin. 


Até os bloggers militares pró-guerra começam a perder a paciência

Uma das observações mais relevantes do relatório do ISW prende-se com a reação de vários bloggers militares russos, habitualmente nacionalistas e defensores do esforço de guerra de Moscovo, alguns deles até com visões que vão para lá dos objetivos oficiais de Vladimir Putin.


Longe de repetirem a narrativa oficial, vários desses comentadores utilizaram os ataques a Moscovo para chamar a atenção para uma realidade incómoda para o Kremlin: a guerra está a deixar de ser um fenómeno distante e a chegar a regiões da Rússia que, durante anos, estiveram relativamente protegidas. 


Um dos bloggers, numa publicação entretanto apagada, reconheceu que as forças ucranianas conseguiram provocar danos significativos apesar da forte proteção antiaérea em torno da capital russa. Outros sublinharam que a Ucrânia está a conseguir levar a guerra para muito além das regiões fronteiriças e defenderam que a Rússia terá de reforçar os sistemas de defesa aérea em todo o território. 


No entanto, as críticas mais contundentes não foram dirigidas às Forças Armadas, mas sim ao próprio sistema de informação controlado pelo Estado. 


Um dos bloggers acusou os responsáveis pelos meios de comunicação russos de estarem "desligados do povo" e de terem criado uma realidade artificial em que "está tudo bem". Na sua opinião, os cidadãos devem ser confrontados com uma imagem mais próxima da realidade.


Outro alertou que, se nada mudar, os relatos oficiais acabarão por ficar "ainda mais afastados da realidade do que já estão". Houve ainda quem apontasse diretamente o dedo à narrativa construída pelo Kremlin desde o início da invasão.


Segundo um desses bloggers, os meios de comunicação estatais habituaram os russos à ideia de que a "operação militar especial" era algo distante, que afetava apenas a Ucrânia e não a própria Rússia. Agora, escreveu, os cidadãos russos conseguem "ver com os próprios olhos" que as afirmações da comunicação social estatal de que "está tudo a correr bem" não correspondem à realidade.


Kremlin tenta manter a narrativa de normalidade

Para o ISW, a resposta da comunicação social estatal aos ataques demonstra que o Kremlin continua empenhado em controlar a informação e em minimizar o impacto político dos acontecimentos.


Os analistas sublinham que os repetidos ataques ucranianos contra áreas profundamente recuadas e fortemente defendidas, como Moscovo, "continuam a expor as fraquezas da Rússia e a incapacidade de defender a sua população".


Segundo o relatório, em vez de se concentrarem nos danos provocados pelos ataques, os principais meios de comunicação russos privilegiaram as declarações oficiais e deram destaque à necessidade de punir os cidadãos que filmam os ataques e as suas consequências.


Para os analistas, esta estratégia reflete o dilema crescente enfrentado pelo Kremlin: quanto mais a guerra se aproxima do coração da Rússia, mais difícil se torna sustentar a ideia de que o conflito permanece distante da vida dos russos.


"Afastados da realidade": ataques da Ucrânia estão a esgotar a paciência até àqueles que sempre estiveram ao lado de Putin - CNN Portugal


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