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As 24 horas que se seguiram ao impacto do asteróide que extinguiu os dinossauros



Há 66 milhões de anos, caiu no México o asteróide que extinguiu os dinossauros. Um estudo permite agora saber o que aconteceu nas 24 horas após o impacto. Mas o problema foram os 30 anos seguintes.

Não se sabe o dia, o mês ou o ano. Não se sabe sequer ao certo a década o século ou o milénio. Sabe-se apenas que terá acontecido — mais mil, menos mil — há cerca de 66 milhões de anos. E sabe-se também que o que aconteceu mudou para sempre a Terra: o asteróide que caiu na planície de Yucatán, no México, transformou o nosso planeta e moldou-o para o que é hoje. Só que um estudo revela agora muito mais: diz exatamente o que aconteceu naquelas 24 horas depois do impacto brutal do Chicxulub.

Não foi a cratera com 180 km de diâmetro, no fundo do mar, que levou a que se extinguisse 75% da vida na Terra, apesar de se falar essencialmente do fim dos dinossauros. Naquele momento, foi como se tivessem explodido 10 mil milhões de bombas como a de Hiroshima. Foram libertadas para a atmosfera 425 gigatoneladas de CO2 e outras 325 toneladas de ácidos sulforetos. O megatsunami que a queda do asteróide provocou levou a água do golfo do México, nas Caraíbas, para os Grandes Lagos do norte dos EUA, na fronteira com o Canadá, a 2.500 quilómetros de distância.

Aquele dia foi o fim de uma era (geológica): terminou o mesozoico e começou o cenozoico (a atual).

Uma expedição científica que desde 2016 está a estudar a zona do impacto do asteróide conseguiu, através de uma espécie de plataforma petrolífera instalada no mar, fazer um furo na zona da borda da cratera e retirar de lá, 1.334 metros abaixo do fundo marinho, o respectivo cilindro de rocha. Nele são perfeitamente visíveis diferentes círculos de sedimentos, impactos e rochas diferentes que os geólogos e cientistas analisaram ao pormenor. Esses dados contam de forma precisa a história em capítulos do que aconteceu minuto a minuto no dia do impacto (tal como os anéis dos troncos das árvores ou as marcas dos blocos de gelo revelam o que se passou ao longo dos anos).

Segundo o estudo, publicado pelo PNAS (a Academia de Ciências dos EUA) e revelado por vários jornais, a rocha mostra que foram 24 horas de inferno, cujos efeitos devastadores se sentiram depois ao longo de muitos anos. Mas, para surpresa dos investigadores, foi tudo muito rápido.

Minutos depois do impacto, os primeiros 40-50 metros da cratera encheram-se de imediato de rocha fundida e fragmentária. Uma hora depois, uma nova camada com rochas de vidro, suevita e materiais fundidos estava formada. Mais umas horas e já havia outra camada com sedimentos mais finos. Ou seja, bastou um dia para tudo ficar coberto com uma capa de 130 metros de sedimentos. Depois a água do tsunami gigante voltou arrastando todos os resíduos imagináveis, desde árvores ardidas das redondezas a restos de regiões longínquas, e cobriu o resto.

O asteróide teria entre 10 a 12 quilómetros e os efeitos do impacto terão chegado a 1.500 quilómetros de distância, causando também múltiplos incêndios pelo material incandescente libertado ao entrar na atmosfera. Daí os muitos vestígios de carvão vegetal, mas também de materiais orgânicos apodrecidos pela água e fungos que se criaram entretanto, presentes nesta amostra de rocha da cratera.

O que está escrito neste cilindro de pedra é como se fosse um papiro com uma fita do tempo ao minuto. Mas se as conclusões são muitas, as dúvidas que logo se levantaram também. Afinal se tudo aconteceu tão rapidamente, os efeitos também se terão dissipado em poucos dias, não sendo assim suficientes para uma extinção em massa como a que aconteceu.

Para a entender, foi preciso fazer ligações entre o impacto, aquelas horas que se seguiram e o que veio depois. E a chave está exatamente no depois: no que o primeiro minuto daquelas 24 horas provocou.

Apesar das muitas teorias que abundam para o que se passou, desde a possibilidade de terem existido múltiplas quedas de asteróides (mais pequenos) simultâneas, ao facto de se ter dado a erupção de vários vulcões no Oriente na mesma altura, até a sismos e tsunamis consecutivos naquele período — podendo tudo isto ter acontecido como uma reação em cadeia ao próprio impacto –, aquilo que estes cientistas concluíram foi mesmo que o Chicxulub reescreveu a história da Terra.

O cilindro de rocha mostra muitas coisa. Mas o mais importante acaba por ser o que não mostra. A amostra não contém evidências de materiais sulfurosos: nada de enxofre, apesar das rochas ricas em sulforeto. Isto reforça a ideia de que o impacto do asteróide lançou o enxofre e os sulforetos todo para a atmosfera criando um escudo químico impenetrável que impediu os raios solares de chegarem ao solo. Todo o planeta arrefeceu e muito. Pelos cálculos científicos e pelas simulações tecnológicas, a temperatura media global baixou 20 graus e manteve-se assim durante 30 anos. Quase nada resistiu a essa era glaciar. E quando a vida foi voltando e evoluindo, já era completamente diferente.

https://observador.pt/2019/09/09/as-24-horas-que-seguiram-ao-impacto-do-asteroide-que-extinguiu-os-dinossauros/

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