Avançar para o conteúdo principal

Não é possível escrever numa língua que não existe

 Querer, num passe de mágica, diluir as diferenças naturais entre as expressões portuguesa e brasileira é despropositado e aberrante.

Em Janeiro, o diário brasileiro O Globo garantia, em título, que as “Editoras independentes brasileiras preparam ofensiva em Portugal”. Boa notícia, para os amantes da leitura. Porém, logo nas primeiras linhas, trazia esta declaração espantosa: “Júlio Silveira, um dos fundadores da editora Casa da Palavra, que dirigiu a Nova Fronteira e é curador do LER Salão Carioca do Livro, conta que sempre perguntam se os livros que ele vende são escritos em português ou em ‘brasileiro’. Ele responde que são escritos na língua portuguesa do Acordo Ortográfico.”


Não se sabe onde Silveira ou O Globo foram desencantar tal língua, porque ela simplesmente não existe. É uma ficção absurda, inventada por lunáticos. Querem exemplos? Aqui vai um, bem recente. A editora Planeta DeAgostini, especialista em colecções generalistas, vendidas em bancas de jornais ou papelarias, acaba de lançar o primeiro volume (são 61) de uma família bem célebre na história da banda desenhada: Snoopy, Charlie Brown & Friends – A Peanuts Collection. O título vem em inglês, mas a edição é em português… do Brasil. A ficha, logo nas primeiras páginas, não engana e até o serviço de atendimento “ao colecionador” (sic) é, não em Portugal, mas no Brasil: www.planetadeagostini.com.br. Se o Snoopy fosse criação brasileira, fazia todo o sentido. Mas não: o original é americano, criado por Charles Monroe Schulz em 1950. Por isso, quiseram apenas poupar numa nova tradução, à boleia das promessas do Acordo Ortográfico (edições iguais para todo o espaço lusófono) e das crenças do senhor Silveira.


Vamos então ao Snoopy. “Que puxa! Ontem à noite nevou!”, vemo-lo dizer, coberto de neve no topo da sua casota. Mais diante, Charlie Brown dirige-se a uma árvore, com um papagaio de papel na mão e diz: “Olá, árvore devoradora de pipas!”; Lucy diz a Schroeder, num inventário sobre o que irão ter quando ele for um pianista famoso: “Vamos ter uma perua, um carro de passeio e um carro esportivo”; e, mais adiante, “uma quadra de tênis”. Noutra tira, a mesma Lucy estende a mão para Schroeder: “Toma aqui, uma balinha de limão...”; Noutras, Schroeder grita “Eu bati a cabeça!” e Charlie Brown diz “Nosso time nunca desiste!” Claro que isto só fará sentido em Portugal (além de esta fala ser claramente brasileira) se se souber que uma pipa é um papagaio de papel, que a perua é (lá diz o Priberam do Brasil) um “veículo automóvel de carga e de passageiros”, que a tal quadra é um campo de ténis, que a balinha é um rebuçado, que Schroeder bateu com a cabeça e não a cabeça; e que “nosso time” é “a nossa equipa”.



Mas há melhor. Quando Lucy se vira para Charlie Brown e grita: “Seu cachorro idiota fungou na minha gengibirra!” No original, em inglês americano, a frase é: “Your stupid dog sniffed in my root beer!!” Se pegarmos nesta frase e a dermos a traduzir ao Google, a resposta virá em português do Brasil: “Seu cachorro estúpido cheirou minha cerveja!!” Mas errada. Porque root beer não é uma cerveja, é um refrigerante acastanhado, parecido com a Coca-Cola. Já a tal gengibirra, que aparece várias vezes nestas tiras do Snoopy, é uma bebida brasileira tradicional do Paraná, um refrigerante gaseificado de gengibre inventado há mais de 80 anos. Em Portugal, tal legenda poderia ser: “O estúpido do teu cão farejou o meu refrigerante!!”


Língua portuguesa do Acordo Ortográfico? Nem como anedota. As culturas portuguesa e brasileira talharam o idioma à sua medida. É por isso que o romance Wuthering Heights, de Emily Brontë (1818-1848) se chama por cá Monte dos Vendavais e no Brasil O Morro dos Ventos Uivantes (que é, aliás, a tradução dada pelo tradutor automático da Google). Ou que o filme de Robert Wise The Sound Of Music (1965) ganhou por título em Portugal Música no Coração e no Brasil foi titulado como A Noviça Rebelde. Isso pode ser comprovado em milhares de livros e filmes, onde cada tradução segue o caminho que lhe ditam os costumes e coloquialismos locais. Uma frase inglesa tão vulgar em filmes como “Do you love me?”, será traduzida no Brasil por “Você me ama?” e em Portugal por “Amas-me?”. Há, neste domínio, inúmeros exemplos, maus e bons. A que voltaremos, porque são dignos de nota.


Querer, num passe de mágica, diluir numa expressão única estas diferenças naturais e nada subtis (sutis, no Brasil), é despropositado e aberrante. Este Snoopy, no seu contrabando linguístico, é um bom alerta: para o desprezo a que vamos votando o português europeu.


Nuno Pacheco 

nuno.pacheco@publico.pt 

https://www.publico.pt/2021/03/11/culturaipsilon/opiniao/nao-possivel-escrever-lingua-nao-existe-1953670

Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Polónia quer convocar mais de 300 mil reservistas, recrutas e voluntários

© Klaudia Radecka/NurPhoto via Getty Images  O Governo polaco prevê convocar em 2027 mais de 300 mil reservistas e recrutas, entre profissionais e voluntários, segundo um projeto divulgado hoje pelo Ministério da Defesa da Polónia. O projeto prevê 20.000 novas vagas no serviço militar profissional — mais 6.500 do que no ano passado —, além de 200.000 reservistas e 83.700 elementos de corpos auxiliares. A medida da Defesa inclui a convocação de mais de 200.000 cidadãos para avaliar as suas capacidades e designá-los para uma unidade militar caso ocorra uma mobilização. Trata-se da maior convocatória dos últimos anos e afetará homens e mulheres até aos 60 anos, que deverão apresentar-se no centro de recrutamento designado para terem as suas capacidades físicas e conhecimentos avaliados. Após isso, passarão a ser reservistas e serão destinados provisoriamente a um corpo militar. A falta injustificada ou a recusa em comparecer à convocatória pode implicar desde uma multa até à busca e c...

Governo aprova hoje bónus das pensões e alívio do IRS: vêm aí apoios?

Luís Montenegro, primeiro-ministro - © Dursun Aydemir/Anadolu via Getty Images  O Governo aprova esta quinta-feira o bónus das pensões e o alívio do IRS, na reunião do Conselho de Ministros que arranca pelas 9h30. Além disso, o Governo também poderá anunciar apoios para quatro setores devido ao aumento dos preços dos combustíveis. O Governo vai reunir-se esta quinta-feira em Conselho de Ministros, com início previsto para as 9h30, de acordo com uma nota de agenda do gabinete do primeiro-ministro, Luís Montenegro, enviada às redações. Em cima da mesa estará a aprovação do bónus das pensões e o alívio do IRS. Além disso, o Governo também poderá anunciar apoios para quatro setores devido ao aumento dos preços dos combustíveis.    Suplemento para pensionistas e alívio no IRS O primeiro-ministro anunciou, na semana passada, a atribuição de um suplemento extraordinário para os pensionistas que recebem até 1.611 euros e um alívio fiscal até ao sexto escalão do IRS. O anúncio foi...