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Aníbal Cavaco Silva

Diogo agostinho


 Num país que está sem rumo, sem visão e sem estratégia, é bom recordar quem já teve essa capacidade aliada a outra, que não se consegue adquirir, a liderança.


Com uma pandemia às costas, e um país político-mediático entretido a debater linhas vermelhas, o que vemos são medidas sem grande coerência e um rumo nada perceptível.


No meio do caos, importa relembrar Aníbal Cavaco Silva. O político mais bem-sucedido eleitoralmente no Portugal democrático. Quatro vezes com mais de 50% dos votos, em tempos de poucas preocupações com a abstenção, deve querer dizer algo, apesar de hoje não ser muito popular elogiar Cavaco Silva. Penso que é, sem dúvida, um dos grandes nomes da nossa Democracia. Nem sempre concordei com tudo. É assim a vida, é quase impossível fazer tudo bem. Penso que tem responsabilidade na ascensão de António Guterres e José Sócrates ao cargo de Primeiro-Ministro, com enormes prejuízos económicos, financeiros e políticos para o país. Mas isso são outras questões.


Aníbal Cavaco Silva foi, de longe, o Primeiro-Ministro, do pós-25 de Abril, mais marcante deste espaço mais ocidental da Europa.


É bom recordar que Cavaco Silva também foi “fascista” na boca de muitos de esquerda e, para alguns continua a sê-lo. É comum. Da linha do PSD para a Direita não há outro mimo que não apelidar de “fascista” a quem não ponha o cravo na lapela. Interessante que, historicamente, quem mais fez pela liberdade e progresso deste país em funções governativas foram mesmo os “fascistas” Sá Carneiro, Aníbal Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho.


Por tudo o que temos passado, atendendo à história, é bom relembrar Cavaco. Pelo livro que lançou, em que tive oportunidade de assistir ao lançamento, com uma excelente intervenção de Luís Marques Mendes (está em boa forma). Nesse livro, muito se escreveu sobre a Social Democracia Moderna. Sim, de 1985 a 1995, dez anos de poder, os dez anos onde o país mais cresceu na história democrática, mais se modernizou e mais se abriu ao capitalismo (esse demónio para os radicais de esquerda). Erros? Sim, alguns existiram com certeza. Mas havia visão. Havia vontade de reformar a sério. E reformou-se, nomeadamente os monólitos herdados da economia à moda do PREC.


Até no Ambiente, imaginem só. Ainda nem a menina Greta tinha nascido, já Cavaco Silva colocava no topo das prioridades o Ambiente. Com medidas, com Ministério próprio e peso político, tendo sido marcante o papel de Carlos Pimenta e Macário Correia. Obras e infraestruturas, também foram marcantes e ficaram mais presentes na memória e no dia a dia de todos, mormente os que viviam mais afastados das urbes, contribuindo para o país ficar mais ligado. Naquela altura, eram aquelas as necessidades e as prioridades dos fundos comunitários. E hoje? Hoje fingimos que lançamos programas de alta velocidade de 10 em 10 anos para tudo continuar na mesma modorra.


Imaginem só que a AutoEuropa chegou a Portugal nessa altura. E hoje? Hoje quem procura ir lá fora buscar mais investimento? Quem tem esse mandato? O que faz? Como está o ponto de situação? É essencial para um país com a nossa dimensão procurar investimento estrangeiro, pois os recursos próprios são os que sabemos. Onde está a estratégia? Onde está o golpe de asa de ir buscar, com as contrapartidas certas, os investidores dos sectores do futuro?


Cavaco Silva tinha uma política social, focada na classe média. No crescimento do poder de compra da classe média. Ou seja, a mola de um crescimento económico para o país. É aí que está a chave do desenvolvimento.


E os fundos europeus? Foram os fundos. Cavaco Silva recebeu muito dinheiro da Europa, por isso se modernizou Portugal. É esta a narrativa. Também António Guterres recebeu e só desbaratou. Mas sobre os fundos era bom perceber o que foi feito, de errado também. E perceber, como disse Cavaco Silva ao Diário de Notícias, numa excelente entrevista da Paula Sá, que “os fundos são a oportunidade que Portugal tem de sair da debilidade em que caiu ao longo dos últimos anos". Mas e quem quer debater e escrutinar o uso da bazuca prometida?


Não, preferimos debater as linhas vermelhas e tratar de categorizar a barrica ideológica em que cada um se tem de acantonar.


Perdidos, fomos largados à deriva no mar que está revolto. Assim nos deixam os decisores do nosso país. E, também por isso, importa relembrar um político com a capacidade de liderança de Aníbal Cavaco Silva, o homem do leme. O país precisa com urgência de uma alternativa social democrata moderna, que aposta na iniciativa privada, sem deixar ninguém para trás. Que entenda o que foi feito, mas sobretudo tenha uma estratégia para, na prática, lutar pela melhoria das vidas de todos na nossa comunidade nacional. Que ponha fim ao extremismo anti-capitalismo, pró-nacionalizações e contra a ascensão económica das pessoas. É que este Governo, capturado pelos extremistas e pelas suas pesadas e caras agendas (não só no orçamento e na economia), não tem rumo. Tem apenas instinto de sobrevivência. É curto, é poucochinho.

https://amp.expresso.pt/blogues/bloguet_economia/blogue_econ_diogo_agostinho/2020-11-16-Anibal-Cavaco-Silva

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