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Sozinha no espaço interestelar, Voyager 2 está prestes a perder contato com a Terra


A Voyager 2 seguirá por sua conta uma parte de sua viagem interestelar – até que reparos no sistema de comunicação em terra sejam concluídos.

É solitário lá fora, no espaço profundo, especialmente quando uma nave espacial já viajou para tão longe na vastidão do espaço interestelar. Agora tudo o que poderia realmente ser chamado de terra natal não passa de uma referência distante.

É claro que esse sempre foi o destino da Voyager 2, a sonda da agência espacial dos Estados Unidos que foi lançada há mais de 40 anos e agora permanece como a missão espacial de maior duração da NASA. Projetada para se aventurar nos limites do nosso Sistema Solar por décadas, essa longeva nave tem feito exatamente isso, mas a incrível viagem dessa desbravadora do Cosmos está prestes a encontrar um desafio que não enfrentou em toda essa longa e solitária jornada.

A NASA anunciou que a Estação Espacial Profunda 43 (Deep Space Station 423 ou DSS-43), a única antena na Terra que pode enviar comandos para a sonda Voyager 2,  está em silêncio, e não por pouco tempo.

Esse telescópio gigante, localizado na Austrália e que tem aproximadamente do tamanho de um prédio de 20 andares, exige atualizações críticas, segundo a agência espacial. As instalações de Canberra estão em serviço há quase cinquenta anos, portanto, não é de surpreender que o hardware antigo precise de manutenção.

No entanto, o trabalho de atualizar tudo por lá vai ter consequências. Além do custo monetário, outro preço a se pagar por todo o serviço de update do DSS–43 será o abandono à própria sorte da solitária Voyager 2. Por aproximadamente 11 meses, até o final de janeiro de 2021, que é o tempo que os reparos levarão para ser concluídos, a Voyager 2 estará totalmente sozinha, chegando ao desconhecido em um modo de operação inativo, que foi projetado para economizar energia da sonda. Isso manterá a sonda em navegando em modo de espera até o DSS–43 ficar online renovado.

“Colocamos a sonda de volta a um estado em que tudo ficará bem, supondo que tudo corra normalmente durante o tempo em que a antena estiver inoperante”, explica a gerente de projeto da Voyager, Suzanne Dodd, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (o JPL), um centro tecnológico de pesquisa espaciais norte-americano ligado à NASA, responsável pelo desenvolvimento e operação de sonda espaciais não tripuladas.

“Se as coisas não correrem normalmente, o que é sempre uma possibilidade, especialmente com uma espaçonave envelhecida, a proteção de falhas a bordo existente poderá lidar com a situação”, explica Dodd.

Durante esse período de quase um ano de silêncio no rádio, o silêncio será apenas de mão única, ou seja, os técnicos operadores ainda poderão saber o que se passa com a Voager 2, no entanto sem poder enviar comandos até lá. É que outras antenas do Complexo de Comunicação do Espaço Profundo de Canberra (CDSCC) serão configuradas para receber quaisquer sinais que a nave transmita à Terra. Com isso, ouviremos o que a Voyager 2 tem a nos dizer, mas não poderemos dizer nada de volta, mesmo que seja necessário.

O rádio-telescópio DSS–43, ou Deep Space Station 43, com seus 73 metros de diâmetro, é o único que pode mandar comandos para a nave Voyager 2. (Crédito: CDSCC – Canberra Deep Space Communication Complex)

Embora a NASA tenha feito todo o possível para preparar o Voyager 2 para o apagão das comunicações, esse ainda é um tiro no escuro, com risco calculado, com certeza, mas também aparentemente uma situação sem precedentes na longa duração desta missão espacial histórica. “Há riscos nesse ramo, assim como em voos espaciais”, disse ao jornal The New York Times Glen Nagle, gerente de educação e divulgação pública do CDSCC. “É uma grande mudança e o maior tempo de inatividade para esse telescópio nos dezoito anos em que estive aqui”.

De acordo com a agência espacial, as maiores incógnitas são se os sistemas automatizados de controle de impulso da Voyager 2 funcionarão com precisão por um período tão longo. São esses sistemas disparam várias vezes ao dia para manter a antena da sonda voltada para a Terra. Outra incógnita é se os sistemas de energia, projetados manter aquecida a Voyager 2, também farão seu trabalho.

Esse novo desafio ocorre a apenas pouco mais de um mês depois que a NASA informou que a sonda havia retomado às suas operações normais após um susto em janeiro, quando uma anomalia acionou as rotinas autônomas de proteção contra falhas da Voyager. Esse mau funcionamento significou que a sonda falhou em realizar uma manobra de voo programada para 25 de janeiro, o que obrigou os sistemas da nave a entrarem em modo de proteção.

Avaliações meticulosas posteriores dos engenheiros da NASA resolveram o problema. Com os controladores tendo que esperar 34 horas por cada resposta da Voyager 2, dado o tempo de transmissão de 17 horas para que os sinais viajem até a posição atual da sonda para ida e mais outras 17 horas para o sinal percorrer o espaço até as antenas na Terra, novas análises revelaram que tudo voltara ao normal.

A correção do problema envolveu desligar e ligar novamente cinco instrumentos científicos importantes, algo que, nunca havia sido feito antes, mas que, felizmente, funcionou muito bem para resolver o problema.

Leia também “A Voyager 2 está oficialmente deixando o sistema solar, segundo dados recentes”.

A fonte de alimentação da Voyager 2 vem de um gerador termoelétrico de radioisótopo (RTG, sigla para radioisotope thermoelectric generator), que transforma o calor da decomposição de um material radioativo em eletricidade para alimentar os sistemas da espaçonave e também para mantê-la aquecida. Devido à deterioração natural do material dentro do RTG (fenômeno do decaimento radioativo), a energia disponível para a sonda vem diminuindo progressivamente. Comparada com a potência de quando a nove foi lançada, atualmente ela conta com cerca de quatro watts a menos por ano. No ano passado, os engenheiros desligaram o aquecedor primário do instrumento denominado subsistema de raios cósmicos para compensar essa perda de energia e permitir que os demais instrumentos continuem a operar por mais um tempo.

Esperamos que os próximos onze meses sejam igualmente bem-sucedidos para a distante Voyager 2, atualmente localizada a mais de 17 bilhões de quilômetros da Terra. Distância que assegurou cientificamente que essa viajante solitária entrou no espaço interestelar. Algo muito próximo com o que foi constatado para a nave gêmea, a Voyager 1, o único outro objeto feito pelo homem que já realizou tal façanha até agora. Quando as atualizações do telescópio DSS-43 estiverem concluídas, os reparos não apenas reforçarão nossas comunicações com a Voyager 2, mas também permitirão comunicações mais seguras à futuras missões e instalações, incluindo missões a Marte. Antes disso, porém, talvez a questão mais premente seja reconectar os laços com essa famosa pioneira de décadas atrás, enquanto ela navega para cada vez mais longe, em sua viagem de ida às estrelas.

Mais informações sobre a missão Voyager 2 podem ser acessadas no site da NASA, clicando aqui. 


https://socientifica.com.br/sozinha-no-espaco-interestelar-voyager-2-esta-prestes-a-perder-contato-com-a-terra/

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