Avançar para o conteúdo principal

O fim do comunismo e a Festa do Avante


Francisco Mendes da Silva

Com atitudes como a de insistir na realização da Festa do Avante a meio de uma pandemia, só pelo interesse da receita gerada e quando nenhum outro festival do género se pode realizar, qualquer dia esse eleitorado já nem o Partido Comunista tem.

 Em 1997, o Monde perguntou a Robert Conquest se o Holocausto havia sido pior do que os crimes do estalinismo. Conquest respondeu afirmativamente. Perguntado porquê, apenas conseguiu dizer que “sentia que sim”. Um dos grandes historiadores do comunismo, implacável na denúncia da devastação soviética, Robert Conquest não conseguiu dizer nada mais analítico, denso e estruturado do que, simplesmente, “sinto que sim”.

Estabelecer uma hierarquia de maldade entre as duas grandes tragédias do séc. XX não é só uma tarefa difícil; é também um exercício absolutamente fútil. Se fizermos uma medição com base no desprezo pela vida humana, a coisa fica ela por ela, seja numa escala de perversidade dos fins e dos métodos seja numa escala numérica (contando com os mortos da Segunda Guerra, necessária para derrotar Hitler).

Mas a Europa Ocidental sente que sim, que no “photo-finish” ético o comunismo merece um pouco mais de tolerância. Na nossa memória colectiva, os seus crimes são mais “estrangeiros” do que os do nazismo. Para além disso, o comunismo era supostamente uma decorrência do iluminismo, por via do marxismo, e por isso foi-nos sempre impingido como condição e consequência da libertação dos povos.

O marxismo era intelectual, ilustrado e científico, das classes altas e médias, prometia o Paraíso e tinha boa consciência. O nazismo era tabloide, ressentido e apelava directamente aos piores instintos do Homem. O marxismo e as suas derivações práticas declaravam-se humanistas. O nazismo alimentava-se, apenas, do humano. O problema do primeiro foi não ter percebido a natureza humana; o problema do segundo foi tê-la percebido demasiado bem.

Quando a desgraça do comunismo foi revelada, quando as suas bases científicas foram arrasadas, quando a sua legitimidade moral ficou em escombros, o que sobrou? Se virmos os partidos comunistas europeus que ainda restam, como o nosso PCP, ou os herdeiros de várias facções dos partidos comunistas antigos, percebemos que, tudo espremido, sobrou apenas o discurso conspirativo, o apelo inorgânico contra as “elites”, a crítica moralista à aspiração individual, a denúncia da venalidade, o espicaçar do ressentimento, a constante diabolização de inimigos externos, a combater com políticas “patrióticas” (“e de esquerda”). E, triste desilusão final, sobrou também o pessimismo antropológico: se o Homem quis como destino o capitalismo, então é porque o Homem é, afinal, intrinsecamente corrupto.

O ponto de chegada do longo fim do comunismo é este: por vezes é difícil distinguir o populismo comunista do populismo de direita, porque ambos apelam aos impulsos de um eleitorado que se sente antipolítico, antielitista, anti-intelectual e anticosmopolita.

Em muitos aspectos, é um eleitorado órfão de representação e com justas razões de queixa, e também por isso não pode ser deixado sem alternativa. Com atitudes como a de insistir na realização da Festa do Avante a meio de uma pandemia, só pelo interesse da receita gerada e quando nenhum outro festival do género se pode realizar, qualquer dia esse eleitorado já nem o Partido Comunista tem.

https://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/francisco-mendes-da-silva/detalhe/o-fim-do-comunismo--e-a-festa-do-avante


Comentários

Notícias mais vistas:

Bruxelas adverte governo de Pedro Sánchez que baixar IVA dos combustíveis é contra regras europeias

A Comissão Europeia enviou uma carta ao governo de Pedro Sánchez, indicando que baixar o IVA nos combustíveis para a taxa de 10% vai contra as regras europeias.  O Governo de Pedro Sánchez recebeu uma advertência da Comissão Europeia por ter baixado o IVA dos combustíveis, em violação das regras europeias. Tal como o Observador já tinha avançado, a descida do IVA da taxa normal para uma taxa reduzida de 10% em Espanha vai contra as regras da União Europeia definidas para este imposto. Isso mesmo admitiu fonte oficial de Bruxelas ao Observador, ao remeter para a diretiva europeia os produtos e serviços que podem ter taxa reduzida, que integra o gás e a eletricidade — onde o IVA pode ser 5% — mas que exclui essa aplicação aos combustíveis fósseis. Face à aplicação pelo Governo de Pedro Sánchez de uma taxa reduzida de 10% aos combustíveis fósseis, Bruxelas enviou uma carta a Espanha advertindo-a de que essa redução viola as normas europeias, noticia o El País que indica que a carta fo...

Rússia lançou operação para roubar em Portugal informação de natureza governamental, militar e de infraestruturas críticas

 Há mais países além de Portugal alvo desta operação da Rússia. Secretas portuguesas fazem aviso à população O Serviço de Informações de Segurança (SIS) alertou esta quarta-feira para uma operação de ciberespionagem de escala global realizada pelo serviço de informações militar russo GRU para aceder a informação sensível de natureza governamental, militar e de infraestruturas críticas. Num alerta, o SIS diz que o serviço de informações militar russo GRU “executou uma operação de ciberespionagem de escala global, destinada ao comprometimento de ‘routers’, com o objetivo de intercetar e de exfiltrar informação sensível de natureza governamental, militar e referente a infraestruturas críticas”. Nesse sentido, o SIS avança que se juntou aos parceiros da Alemanha, Canadá, Chéquia, Dinamarca, Eslováquia, Estados Unidos da América, Estónia, Finlândia, Itália, Letónia, Lituânia, Noruega, Polónia, Roménia e Ucrânia “para a difusão de um alerta coordenado destinado a alertar o público e enco...

Grandes inundações, incêndios e não só: vem aí um Super El Niño

  É raro que um fenómeno deste seja tão intenso, pelo que os especialistas esperam consequências mais graves, quase como uma série de dominós que caem Prepare-se para ouvir muito mais sobre o El Niño nos próximos meses - e talvez até durante mais tempo - à medida que o infame ciclo climático regressa, desenvolvendo-se e intensificando-se no Oceano Pacífico, junto ao equador. Se se formar como previsto, este El Niño irá redesenhar os mapas climáticos globais, provocando inundações em algumas regiões e secas e incêndios florestais noutras - tudo isto enquanto acelera o ritmo do aquecimento global. Há indícios crescentes de que um El Niño não só está iminente - a chegar no final do verão ou no início do outono - como também pode ser significativo. Na verdade, este poderia até ser classificado como um "Super El Niño", o que aumentaria significativamente os impactos sentidos em todo o mundo. El Niños tão intensos são raros. Para que um El Niño seja declarado, em geral, as temperat...