Em plena crise de Ceuta, Marrocos procura alternativa a Espanha para chegar à Europa: Portugal pode abrir nova porta elétrica
Governo português esclareceu em agosto que a interligação se encontra numa “fase de avaliação e não de decisão de investimento” e que só avançará caso seja possível obter financiamento europeu ou privado
Em plena crise de Ceuta, Marrocos procura alternativa a Espanha para chegar à Europa: Portugal pode abrir nova porta elétrica
Portugal e Marrocos recuperaram um projeto que pode alterar o mapa das ligações elétricas entre a Europa e o Norte de África. Os dois países querem estudar uma interligação direta através de um cabo submarino, estimado em 800 milhões de euros em 2018, e pretendem pedir financiamento a Bruxelas e atrair investidores privados para tornar a infraestrutura possível.
A concretizar-se, Marrocos passaria a dispor de uma segunda ligação direta ao mercado elétrico europeu, deixando de depender exclusivamente de Espanha. Mas o projeto poderá ter também consequências deste lado da fronteira: uma maior capacidade para exportar eletricidade para Marrocos pode, em determinados períodos, exercer pressão em alta sobre os preços no mercado ibérico, embora a ligação possa produzir o efeito contrário quando for Portugal e Espanha a importar energia mais barata.
O projeto ainda não está, contudo, decidido. O Governo português esclareceu em agosto que a interligação se encontra numa “fase de avaliação e não de decisão de investimento” e que só avançará caso seja possível obter financiamento europeu ou privado.
Projeto de 800 milhões regressa à mesa
Portugal e Marrocos acordaram em julho relançar o projeto durante uma reunião em Lisboa entre a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, e a ministra marroquina da Transição Energética e Desenvolvimento Sustentável, Leila Benali.
Os dois governos decidiram procurar apoio financeiro da Comissão Europeia e estudar a possibilidade de conferir à infraestrutura um estatuto que permita aceder a cofinanciamento comunitário. Está igualmente em cima da mesa uma manifestação de interesse dirigida a empresas privadas do setor energético.
O objetivo é evitar que a totalidade do investimento recaia sobre consumidores e contribuintes.
Quando o projeto foi estudado em 2018, o investimento necessário foi estimado em cerca de 800 milhões de euros. Maria da Graça Carvalho já advertiu, porém, que esse número está desatualizado, devido à evolução dos custos de construção e das tecnologias disponíveis.
O desenho estudado anteriormente apontava para uma interligação submarina de cerca de 1 GW e aproximadamente 250 quilómetros. Estudos ainda mais antigos chegaram a considerar uma ligação entre as regiões de Tavira e Tânger.
Marrocos ganharia uma segunda porta para a Europa
É aqui que o projeto português ganha uma dimensão que ultrapassa as relações entre Lisboa e Rabat.
Atualmente, a ligação elétrica de Marrocos à rede europeia passa por Espanha. Uma interligação direta com Portugal permitiria ao país do Norte de África diversificar as suas ligações e reforçar a integração energética com o mercado europeu.
O ‘El Economista’ sublinha que esta possibilidade ganha particular relevância numa altura de tensão entre Espanha e Marrocos na sequência da crise de Ceuta.
Portugal e Marrocos, pelo contrário, têm procurado aprofundar a cooperação energética. O próprio Ministério marroquino da Transição Energética afirmou, depois da reunião de julho, que os dois países consideram a interligação importante para reduzir custos e disponibilizar energia a preços mais acessíveis às populações e às empresas.
Os próximos passos deverão incluir contactos em Bruxelas e uma nova cimeira entre Portugal e Marrocos, prevista para o início de 2027.
E o que pode acontecer ao preço da eletricidade?
Uma nova interligação não serve apenas para aumentar a segurança energética. Pode também alterar a formação dos preços no mercado ibérico.
Se Marrocos estiver a importar eletricidade e oferecer um preço superior ao praticado na Península Ibérica, a capacidade adicional de exportação aumenta a procura pela energia produzida em Portugal e Espanha. Para responder simultaneamente ao consumo interno e às exportações, poderá ser necessário recorrer a tecnologias de produção mais caras.
Como o mercado grossista funciona segundo um modelo marginalista, é a última tecnologia necessária para satisfazer a procura que tende a determinar o preço do mercado naquele período.
Na prática, uma maior capacidade de exportação para Marrocos poderá reduzir algumas das horas em que a abundância de produção solar e eólica empurra os preços ibéricos para valores muito baixos ou mesmo negativos.
Esse cenário favorece os produtores de renováveis, que encontram mais mercado para a energia produzida, mas pode retirar aos consumidores parte do efeito de descida provocado pelos excedentes de eletricidade.
Ligação também pode fazer baixar preços
O efeito não é, contudo, necessariamente de subida.
As interligações funcionam nos dois sentidos. Se Marrocos tiver, em determinados períodos, produção solar ou eólica disponível a preços inferiores aos da Península Ibérica, Portugal e Espanha poderão importar essa eletricidade, aumentando a oferta e contribuindo para baixar os preços.
Há ainda uma questão de segurança do sistema. Quanto mais interligadas estiverem as redes, maior é a possibilidade de os países se auxiliarem perante falhas de produção ou situações de emergência.
É precisamente essa combinação entre segurança de abastecimento, integração das renováveis e possibilidade de trocar eletricidade entre as duas margens que Portugal e Marrocos apresentam como argumento para recuperar o projeto.
Governo português ainda não deu luz verde
Apesar do relançamento político, a construção está longe de ser uma certeza.
Em resposta parlamentar divulgada em agosto, o Ministério do Ambiente e Energia esclareceu que pretende fazer uma nova análise custo-benefício, comparar diferentes soluções técnicas e financeiras e avaliar o interesse dos operadores das redes e de potenciais investidores.
A posição do Governo é clara: a interligação “só avançará se houver possibilidade de financiamento europeu ou do setor privado”.
Isso significa também que os 800 milhões de euros não devem ser tratados como o preço atual da obra. São apenas a estimativa feita em 2018 e o próprio Governo reconhece que está ultrapassada.
Se o projeto receber luz verde, Portugal passará a ter uma ligação elétrica internacional que não atravessa Espanha e Marrocos ganhará uma segunda porta direta para o mercado europeu. Uma mudança com consequências que poderão ser sentidas não apenas no mapa energético da região, mas também, dependendo da direção dos fluxos de eletricidade, nos preços do mercado ibérico.
Francisco Laranjeira

Comentários
Enviar um comentário