Avançar para o conteúdo principal

Híbridos plug-in falham promessa climática: emissões de CO2 são 4,6 vezes acima do esperado


Foto: JORGE SILVA / REUTERS


 Os veículos híbridos plug-in estão a emitir muito mais CO2 do que indicam os testes de homologação. As emissões reais já são 4,6 vezes superiores aos valores oficiais, segundo um novo estudo.


O estudo conclui que a utilização do modo eléctrico caiu de 26% nos veículos matriculados em 2021 para apenas 17% nos registados em 2023 


Apesar das suas baterias maiores e autonomias eléctricas cada vez mais elevadas, os veículos híbridos plug-in estão a emitir muito mais dióxido de carbono (CO₂) do que indicam os testes de homologação. Um novo estudo do Conselho Internacional de Transporte Limpo (ICCT, na sigla inglesa) conclui que as emissões reais destes veículos continuam a afastar-se dos valores oficiais, levantando dúvidas sobre o seu contributo efectivo para a descarbonização do transporte rodoviário.


A análise incidiu sobre cerca de 920 mil veículos matriculados na Europa entre 2021 e 2023, com base nos dados recolhidos pelos próprios automóveis e comunicados à Agência Europeia do Ambiente. Os resultados mostram que os híbridos plug-in matriculados em 2023 emitiram, em média, 4,6 vezes mais CO₂ do que os valores oficiais de homologação. Em 2021, essa diferença situava-se nas 3,5 vezes.


“Os veículos híbridos plug-in apresentam uma discrepância média muito elevada entre os valores reais e os valores oficiais de emissões de CO₂, superior a 260% para os veículos matriculados em 2021, aumentando rapidamente para cerca de 400% no caso dos veículos que entraram pela primeira vez em circulação em 2023”, afirma Jan Dornoff, autor do estudo desta organização não-governamental ambientalista, em declarações ao PÚBLICO.


Demasiado optimismo

A discrepância é particularmente expressiva quando comparada com a dos automóveis equipados exclusivamente com motores de combustão. Nestes casos, as emissões reais são, em média, apenas cerca de 20% superiores às homologadas.


A explicação encontra-se sobretudo na utilização que os condutores fazem destes veículos. Embora as baterias permitam percorrer mais quilómetros, a percentagem de quilómetros efectivamente realizada em modo eléctrico tem vindo a diminuir. O estudo conclui que a utilização do modo eléctrico caiu de 26% nos veículos matriculados em 2021 para apenas 17% nos registados em 2023.


Este resultado contrasta fortemente com os pressupostos utilizados para calcular as emissões de CO2. Segundo Jan Dornoff, as previsões incorporadas na metodologia europeia de homologação revelaram-se “demasiado optimistas” quanto à frequência com que os condutores utilizam a componente eléctrica dos seus veículos.


A diferença resulta das regras europeias em vigor, que recorrem a um parâmetro conhecido como Utility Factor para estimar a percentagem de quilómetros percorridos em modo eléctrico. Quanto maior a autonomia eléctrica declarada, maior é a fracção de utilização eléctrica assumida pelo modelo regulamentar e menores são as emissões oficiais atribuídas ao veículo.


Na prática, porém, essa relação não se verifica. Em 2023, a metodologia europeia assumia implicitamente uma utilização eléctrica superior a 80%, valor muito distante daquele que foi efectivamente observado nas estradas europeias.


“Esta fórmula utiliza a chamada curva do factor de utilidade, que foi ajustada uma vez em 2025, estando previsto um segundo ajustamento para o final de 2026, o chamado ajustamento de 2027, com o objectivo de tornar as emissões oficiais de CO2 destes veículos mais representativas das emissões verificadas em condições reais de utilização”, explica o investigador.


Mais autonomia, maior discrepância

Uma das conclusões mais relevantes do estudo é precisamente que o aumento da autonomia eléctrica não garante reduções equivalentes das emissões reais. A análise nota que não foram encontradas provas de que os modelos com maior alcance eléctrico apresentem resultados mais próximos dos valores oficiais. Pelo contrário, à medida que cresce a autonomia declarada, tende também a aumentar a discrepância entre os números laboratoriais e a realidade.


Em resumo, a aposta dos fabricantes em baterias maiores não se traduziu numa utilização mais frequente do modo eléctrico por parte dos condutores. O resultado é um agravamento da diferença entre emissões reais e homologadas, precisamente num momento em que os híbridos plug-in continuam a ser apresentados como uma solução intermédia para a transição energética.


Revisão das regras

Perante estes resultados, o ICCT apoia a revisão das regras de cálculo das emissões dos híbridos plug-in prevista pela Comissão Europeia. A primeira correcção entrou em vigor em 2025 e uma segunda fase deverá produzir efeitos em 2027. Segundo a organização, estas alterações reduzirão significativamente a discrepância actualmente observada, embora não a eliminem por completo.


O estudo estima que, se as regras previstas para 2027 já estivessem em vigor para os veículos analisados, a diferença entre emissões reais e homologadas teria baixado para valores entre 10% e 29%, aproximando-se dos níveis registados nos automóveis equipados exclusivamente com motores de combustão.


“Não estamos a fazer recomendações, mas, com base nas nossas conclusões, seria importante e justificado aplicar o ajustamento de 2027. No entanto, este ajustamento, por si só, não aproximará a diferença de CO2 dos híbridos plug-in da verificada nos veículos com motor de combustão. Consequentemente, os híbridos mantêm uma vantagem injusta na avaliação do cumprimento das metas de CO2 dos fabricantes”, defende Jan Dornoff.


O investigador acrescenta que seria desejável rever regularmente a chamada curva do factor de utilidade, propondo uma metodologia baseada em dados oficiais de consumo de combustível e energia recolhidos directamente pelos veículos durante a sua utilização.


Veículos menos atractivos?

A discussão assume especial relevância num mercado que continua a atribuir vantagens regulamentares e fiscais aos híbridos plug-in (os apoios em Portugal destinam-se apenas à compra de veículos eléctricos, e não plug-oin)


De acordo com o ICCT, estes modelos representaram cerca de 10% das matrículas de automóveis novos na Europa entre Janeiro e Julho de 2026, acima dos 9% registados no mesmo período do ano anterior. Já os veículos 100% eléctricos alcançaram uma quota de mercado de 22%. Segundo números divulgados pela Associação Automóvel de Portugal, 26,8% das novas matrículas registadas este ano em Portugal até Agosto eram de veículos exclusivamente eléctricos, e 14,9% de híbridos plug-in.


A entrada em vigor das novas regras em 2027 poderá acelerar a evolução do mercado, reduzindo a atractividade dos híbridos plug-in enquanto instrumento para o cumprimento das metas ambientais dos fabricantes.


O relatório não apresenta dados específicos para Portugal. Ainda assim, as suas conclusões poderão entrar no debate sobre o papel destes veículos no mercado nacional, onde continuam a beneficiar de incentivos fiscais relevantes, sobretudo no segmento empresarial e das frotas.


Se as emissões reais permanecerem muito acima dos valores considerados para efeitos regulamentares, ganhará força a discussão sobre a adequação desses benefícios e sobre a forma como o desempenho ambiental dos híbridos plug-in deve ser avaliado.


“Não realizámos uma análise específica para Portugal nem para qualquer outro país, uma vez que a solução mais importante para o problema da discrepância dos veículos híbridos plug-in, o ajustamento do factor de utilidade, só pode ser aplicada ao nível da União Europeia”, conclui Jan Dornoff.


A questão central levantada pelo estudo é simples: se os híbridos plug-in forem utilizados maioritariamente como automóveis convencionais, os benefícios ambientais que lhes são atribuídos pelo actual enquadramento regulamentar poderão estar a ser significativamente sobrestimados. Isso poderá obrigar Bruxelas a rever não apenas a forma como mede as emissões destes veículos, mas também o papel que lhes reserva na transição para uma mobilidade de baixas emissões.


Híbridos plug-in falham promessa climática: emissões são 4,6 vezes acima do esperado | Poluição | PÚBLICO


Comentário do Wilson:

Blá, blá, blá... Quem ler este artigo, cheio de jargão técnico, até pensa que a culpa é dos veículos e que os fabricantes são mentirosos.

O artigo não esclarece a verdadeira razão desta discrepância: há pessoas que simplesmente nunca carregam a bateria, fazendo uma utilização errada do veículo.

Este estudo, ao ver que o João comeu um frango inteiro e o Pedro não comeu nada, conclui que o João e o Pedro comeram meio frango cada um.

E agora querem penalizar a tecnologia por causa de algumas pessoas que a usam mal, em vez de tentarem perceber porque é que essas pessoas a usam mal.


Comentários

Notícias mais vistas:

Cheques Psicologia e Nutrição para jovens dos 12 aos 35 anos

 Na nova edição para 2026 dos cheques Psicologia e Nutrição, os cheques deixam de estar limitados ao ensino superior e chegam agora a jovens entre os 12 e os 35 anos. Além do alargamento da medida a jovens dos 12 aos 35 anos, as principais alterações são: Eliminação do limite máximo de cheques por jovem A continuidade do acompanhamento passa a depender da avaliação clínica dos profissionais de saúde, de acordo com as necessidades de cada jovem Aumento do valor pago aos profissionais de saúde por consulta/cheque de 35 para 40 euros Integração da medida no Programa Cuida-te, com gestão feita pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) Mais informação sobre como pedir os cheques Psicologia e Nutrição em: Cheques Psicologia e Nutrição para jovens dos 12 aos 35 anos - gov.pt

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Empresa turca fecha contrato para fornecimento de 100.000 drones kamikaze

Foto: Anadolu  A empresa turca Pasifik Technology fechou um contrato para fornecer 100.000 drones kamikaze MERKUT FPV e quatro tipos adicionais de sistemas não tripulados para um país não revelado. De acordo com o site Defence Blog, o contrato, que representa um dos maiores acordos de exportação de drones únicos anunciados publicamente por uma empresa de defesa turca, abrange cinco plataformas não tripuladas distintas nos domínios aéreo e terrestre. A peça central do acordo são 100.000 unidades do sistema de drones kamikaze MERKUT FPV, complementados por 10 helicópteros não tripulados ALPIN, 25 mini helicópteros não tripulados DUMRUL desenvolvidos pela Titra Technology, 500 drones kamikaze táticos DELİ e 500 unidades autônomas de suporte e vigilância terrestre KORGAN. Trata-se de um pacote de 101.035 sistemas não tripulados para um país comprador não revelado. O valor do contrato também não foi divulgado no anúncio da empresa. O drone kamikaze MERKUT FPV oferece de 20 a 30 minutos ...