Avançar para o conteúdo principal

Odemira. Só nesta semana 1600 toneladas de alimentos foram para o lixo

 As empresas dizem estar dispostas a pagar os testes aos trabalhadores, mas não obtiveram resposta das autoridades de saúde.

© Artur Machado / Global Imagens


Só nesta semana 1600 toneladas de alimentos vindas das produções agrícolas em Odemira foram para o lixo devido à situação de cerca sanitária. Neste momento, as empresas já registam 6 milhões de prejuízos com esse desperdício alimentar, mas Gonçalo Santos Andrade, vice-presidente da Confederação de Agricultores de Portugal (CAP), teme que os custos a médio e longo prazo sejam ainda superiores. "Vamos ser substituídos por fornecedores de outras geografias". As empresas dizem estar dispostas a pagar os testes aos trabalhadores, mas não obtiveram resposta das autoridades de saúde. A CAP admite que venham a pedir ao Estado que sejam ressarcidas dos prejuízos.


"Estes prejuízos imediatos vão ser depois muito superiores no médio e longo prazo. Os clientes que ficaram privados nos seus contratos com as empresas de 1600 toneladas, além de nos irem penalizar a nível comercial, porque incumprimos com a entrega, vamos ser substituídos por fornecedores de outras geografias", diz Gonçalo Santos Andrade, quando questionado pelo Dinheiro Vivo sobre o impacto da cerca sanitária.


"Ao não termos acesso às quintas, ao nível de cerca de 40% dos trabalhadores que estão no território, podemos estar com estes prejuízos imediatos, mas com prejuízos mais avultados que não consigo dar neste momento da substituição desses clientes da importação de outros produtos", diz. "E mesmo a nível nacional estamos a ser substituídos por outras regiões que, maioritariamente, não são nacionais. São produtos que vêm de outros países".


Portugal exportou 1,683 mil milhões de euros de frutas, legumes, plantas ornamentais e flores o ano passado, uma subida de 4,4% face ao ano anterior em valor, em contraciclo com a generalidade dos setores da economia nacional, apesar da ligeira queda em volume, de acordo com os dados do INE. Espanha, França, Países Baixos, Reino Unido e Alemanha foram os cinco principais mercados destino. A região representa cerca de 15% das exportações, lembra Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, entidade que representa o setor.


Empresas dispostas a pagar testes sem resposta


Neste momento, duas freguesias do concelho de Odemira estão sujeitas a uma cerca sanitária, o que tem impedir o acesso às áreas de produção. "Todos percebem que ninguém quer passar trabalhadores de dentro para fora (da cerca) sem um teste com 48h ou 72h. Fizemos oportunamente esse pedido. Até agora não temos nenhuma resposta positiva, mas é algo que convém que tenha um desbloqueio imediato, porque não estamos apenas a falar do desperdício alimentar que estamos a ter neste momento, mas do que vamos ter nas próximas semanas, por estarmos a incumprir com os nossos clientes", afirma Gonçalo Santos Andrade.


"As empresas já se disponibilizaram em várias reuniões a pagar os testes", responde o vice-presidente da CAP quando questionado pelo Dinheiro Vivo que as empresas estavam dispostas a custear os testes. "Agora convém que o Estado monte a operação de contabilizar, fiscalizar e dar apoio a essa operação. Não são as empresas que têm de montar centros de testagem", ressalva.


"As empresas já se disponibilizaram a pagar os testes. É um caso que mostra a diferença abismal entre o mundo urbano e o rural não conheço caso em que os testes não sejam suportados pelo Estado", atira.


"As empresas de trabalho temporário precisam de maior fiscalização"


Com os prejuízos já nos 6 milhões - e ainda sem um fim á vista no que toca ao acesso as áreas de produção - a CAP admite que as empresas vejam a pedir ao Estado o ressarcimento pelos prejuízos. "As empresas ficaram com os produtos em casa a apodrecer. Esta é uma medida extraordinariamente grave. O Estado tem de assumir essa responsabilidade. Muito provavelmente haverá empresas que querem ser ressarcidas, e muito bem, dos milhões de prejuízos que tiveram, quando não estão na origem do problema", diz Eduardo Oliveira e Sousa, presidente da CAP, quando questionado pelo Dinheiro Vivo.


A CAP já tinha acusado o Estado de "sacudir a água do capote" no que toca à situação de sobrelotação vivida pelos trabalhadores agrícolas no concelho, lembrando ainda que desde 2019 não foi autorizada nenhuma nova licença de habitação temporária nas quintas.


"Estamos totalmente descansados. Associados cumprem todas as regras de contratação", garante Gonçalo Santos Andrade. "As empresas de trabalho temporário precisam de maior fiscalização".


Por Ana Marcela em:

https://www.dinheirovivo.pt/empresas/odemira-so-nesta-semana-1600-toneladas-de-alimentos-foram-o-lixo-13687215.html

Comentários

Notícias mais vistas:

Bruxelas considera que é possível acabar com mudança da hora e vai apresentar estudo

 A Comissão Europeia considera que alcançar um consenso para acabar com a mudança da hora "ainda é possível" e vai apresentar um estudo nesse sentido este ano, com os Estados-membros a manifestarem-se disponíveis para analisá-lo assim que for entregue. Na madrugada do dia 29 deste mês, a hora volta a mudar em toda a União Europeia (UE), para dar início ao horário de verão, o que acontece atualmente devido a uma diretiva europeia que prevê que, todos os anos, os relógios sejam, respetivamente, adiantados e atrasados uma hora no último domingo de março e no último domingo de outubro. Em setembro de 2018, a Comissão Europeia propôs o fim do acerto sazonal, mas o processo tem estado bloqueado desde então, por falta de acordo entre os Estados-membros sobre a matéria. Numa resposta por escrito à agência Lusa, a porta-voz da Comissão Europeia Anna-Kaisa Itkonnen referiu que o executivo decidiu propor o fim da mudança horária em 2018 após ter recebido "pedidos de cidadãos e dos ...

Armazenamento holográfico

 Esta técnica de armazenamento de alta capacidade pode ser uma das respostas para a crescente produção de dados a nível mundial Quando pensa em hologramas provavelmente associa o conceito a uma forma futurista de comunicação e que irá permitir uma maior proximidade entre pessoas através da internet. Mas o conceito de holograma (que na prática é uma técnica de registo de padrões de interferência de luz) permite que seja explorado noutros segmentos, como o do armazenamento de dados de alta capacidade. A ideia de criar unidades de armazenamento holográficas não é nova – o conceito surgiu na década de 1960 –, mas está a ganhar nova vida graças aos avanços tecnológicos feitos em áreas como os sensores de imagem, lasers e algoritmos de Inteligência Artificial. Como se guardam dados num holograma? Primeiro, a informação que queremos preservar é codificada numa imagem 2D. Depois, é emitido um raio laser que é passado por um divisor, que cria um feixe de referência (no seu estado original) ...

Os professores

 As últimas semanas têm sido agitadas nas escolas do ensino público, fruto das diversas greves desencadeadas por uma percentagem bastante elevada da classe de docentes. Várias têm sido as causas da contestação, nomeadamente o congelamento do tempo de serviço, o sistema de quotas para progressão na carreira e a baixa remuneração, mas há uma que é particularmente grave e sintomática da descredibilização do ensino pelo qual o Estado é o primeiro responsável, e que tem a ver com a gradual falta de autoridade dos professores. A minha geração cresceu a ter no professor uma referência, respeitando-o e temendo-o, consciente de que os nossos deslizes, tanto ao nível do estudo como do comportamento, teriam consequências bem gravosas na nossa progressão nos anos escolares. Hoje, os alunos, numa maioria demasiado considerável, não evidenciam qualquer tipo de respeito e deferência pelo seu professor e não acatam a sua autoridade, enfrentando-o sem nenhum receio. Esta realidade é uma das princip...