Avançar para o conteúdo principal

Bitcoins e criptomoedas: um caminho sem retorno

 O comportamento da bitcoin na última semana mostra que este é um mercado muito volátil, aconselhável para quem tem nervos de aço e é capaz de suportar acentuadas flutuações de preço.


                                                      Sebastião Lancastre, CEO da Easypay 


Em 2018 fui convidado para participar numa conferência organizada pela Universidade Nova de Lisboa onde falei sobre a tecnologia blockchain e as bitcoins. Na ocasião, afirmei que quem tinha libras de ouro deveria começar a considerar trocá-las por bitcoins. A risada foi geral. Afinal, quem se atreveria a trocar um investimento seguro como o ouro, por um ativo digital, como as criptomoedas? Mas, na verdade, quem na altura tivesse trocado uma libra de ouro (com um valor aproximado de 200 euros) e investido na bitcoin, hoje teria um retorno de cerca de 10 mil euros – isto apesar da desvalorização acentuada da criptomoeda na última semana.


As impressionantes valorizações protagonizadas pela bitcoins e outras criptomoedas, especialmente desde 2020, associadas ao cenário atual de baixas taxas de juro que tornam pouco atrativos os produtos financeiros tradicionais, têm conduzido a um aumento da procura dos investidores por estes ativos digitais.


A rentabilidade pode ser gerada de diversas formas, como a simples realização de mais-valias pelas operações de compra e venda de bitcoins. Mas um investidor pode também emprestar bitcoins e com essa operação gerar uma rentabilidade de 15% (ou mais) por ano. Já nos países com elevadas taxas de inflação há investidores que utilizam as bitcoins como uma estratégia de hedging, para se protegerem da desvalorização das moedas locais. O leque de oportunidades que as criptomoedas podem gerar é, assim, muito vasto.


Os acontecimentos recentes – nomeadamente o recuo da Tesla em aceitar as bitcoins como forma de pagamento e a decisão da China em proibir os bancos e as empresas de pagamentos de disponibilizarem serviços relacionados com as criptomoedas – levaram a uma depreciação da bitcoin e trouxeram para o espaço público um clima de incerteza sobre o futuro das moedas digitais.


Os receios de que este mercado seja utilizado por pessoas menos honestas para fazerem esconder o seu dinheiro; as preocupações sobre a criação de uma bolha especulativa em torno das moedas digitais e a apreensão sobre os elevados níveis de energia necessários para produzir as bitcoins, são alguns dos argumentos utilizados pelos mais cépticos. Mas as moedas digitais vieram para ficar e vão exercer uma profunda transformação no mundo financeiro. Não tenhamos dúvidas: este é um caminho sem retorno.


São muitas as empresas em todo o mundo que já aderiram às criptomoedas. Ainda há poucos meses, a Visa anunciou que vai permitir o uso de moedas digitais para efetuar transações na sua rede de pagamentos, através da blockchain Ethereum. O mesmo passo que foi também dado pela PayPal. E não é difícil perceber porquê.


O estudo Mastercard New Payments Index, realizado em 18 países e publicado no início de maio, dá conta de que 40% dos consumidores inquiridos prevêem utilizar criptomoedas já no próximo ano. Uma tendência que reflete o apetite crescente dos consumidores por novas tecnologias de pagamento. E mesmo os bancos centrais e os governos também estão de olhos postos no mercado das moedas criptográficas. A própria China já está a realizar testes para o lançamento da sua própria moeda digital.


Este crescente interesse de investidores, empresas e entidades financeiras em relação às  criptomoedas está a dar origem um mundo novo: o mundo do decentralized finance (ou DeFi), onde particulares e empresas podem realizar operações diretamente entre si, com recurso a smart contracts (que utilizam stable coins) de blockchains, e sem a intervenção de intermediários financeiros. Através destes contratos posso, por exemplo, vender a dívida da minha empresa a qualquer cidadão ou entidade do mundo, com liquidez, sem ser através dos canais tradicionais, como a banca comercial ou os bancos de investimento. Esta mudança de paradigma pode gerar oportunidades muito interessantes sobretudo para os países periféricos, como é o caso de Portugal.


É certo que este mercado não está isento de riscos. O comportamento da bitcoin na última semana mostra que este é um mercado muito volátil, aconselhável para quem tem nervos de aço e é capaz de suportar acentuadas flutuações de preço. Mas estou convicto de que quanto maior for o conhecimento e a compreensão dos mecanismos de funcionamento das bitcoins, maior será a nossa capacidade para tirar partido das gigantescas e transformadoras oportunidades que estão a ser geradas no mercado das moedas digitais.


Por Sebastião Lancastre, CEO da Easypay em:

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/bitcoins-e-criptomoedas-um-caminho-sem-retorno-743866

Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Open Cosmos capta 300 milhões e “vai acelerar investimento em Portugal”

 Empresa britânica tem 50 milhões para investir em Portugal, onde pretende duplicar a equipa de 50 para 100 pessoas. Com este novo financiamento, esse plano vai "acelerar". A britânica Open Cosmos fechou uma ronda de 300 milhões de euros para acelerar a ligação a partir do Espaço. Portugal é “uma das quatro localizações core” da empresa, mercado onde tem previsto um investimento de 50 milhões. “Este financiamento vai apenas acelerar este investimento”, diz fonte oficial ao ECO/eRadar. “Portugal é uma das quatro localizações core da Open Cosmos. Tal como anunciámos anteriormente, a equipa em Portugal é constituída por 50 pessoas, e planeamos dobrar a equipa e investir 50 milhões no país”, adianta a mesma fonte. Com quatro fábricas no Reino Unido, Grécia, Espanha e Portugal, com 400 trabalhadores, e capacidade para fabricar um satélite por dia, a empresa tem vindo a lançar uma nova geração de satélites para a OpenConstellation, procurando reduzir o tempo de entrega de produtos ...

Energia nas rochas: será o subsolo a bateria de que precisamos para a transição energética?

Direitos de autor AP Photo/Ross D. Franklin Um estudo de investigadores portugueses analisou diferentes possibilidades de armazenamento de energia com ar comprimido em rochas porosas em profundidade. No melhor cenário, um reservatório poderia armazenar energia suficiente para o consumo de uma pequena cidade. Armazenar energia no subsolo: parece ficção científica mas é uma prática que não é propriamente nova no contexto da investigação geológica. Conhecida desde a década de 70 do século passado com as primeiras experiências em cavernas de sal na Alemanha, o processo representa um mundo de possibilidades no campo da energia renovável e da necessidade de armazenamento que este acarreta. "Um dos problemas que existe com a transição energética é a existência de uma maior disponibilidade de energia de fontes renováveis, que não é possível ser armazenada", explica à Euronews Ricardo Pereira, investigador do GeoBioTec da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisb...