Avançar para o conteúdo principal

As contas da TAP: não se deixe iludir


 O esforço que nos está a ser pedido, como contribuintes, para a TAP, representa 80% do IRC pago por todas as empresas portuguesas durante 2020 e implicará um acréscimo de 1,5% à nossa dívida pública.


Raro será o português que não lamentará o fecho da TAP. Mas temos de ser realistas: a TAP encontra-se numa situação económica e financeira deplorável, a qual se arrasta há anos e anos!


A consulta dos Relatórios e Contas do grupo TAP, disponíveis no site do grupo, mostra claramente que, pelo menos desde 2011 (a informação disponível não permite uma análise mais longa), o grupo reporta uma situação de falência técnica, com capitais próprios negativos e com dívidas elevadíssimas. Também a nível de resultados o grupo tem apresentado anualmente valores muito significativos de prejuízos. No período em análise, houve um único ano em que o grupo TAP reportou lucro, e de reduzido valor face à dimensão da empresa. Efetivamente, se somarmos os prejuízos obtidos ao longo destes nove anos (2011-2019), o valor total dos prejuízos é de 571 milhões de euros, face a um único ano de lucro, em 2017, de 23 milhões. Nem quero imaginar quais serão os dados de 2020!


Esta situação crítica não resulta, portanto, da atual pandemia, vem de longe. Os prejuízos brutais que se têm verificado ao longo de anos nas empresas detidas no Brasil (TAP – Manutenção e Engenharia e Aeropar Participações) nunca foram devidamente explicados. Entre 2011 e 2019, o grupo perdeu, nestas empresas, 477 milhões de euros apesar de todas as promessas de que o investimento iria ser rentável. Importa esclarecer, também, as razões para estas perdas tão significativas.


Também a apresentação frequente de medidas como EBIT, EBITDA e EBITAR, isto é, resultados antes de juros, impostos, depreciações e rendas, para justificar a viabilidade económica do grupo é enganadora pois ignora um conjunto vasto de despesas como as rendas das aeronaves em regime de leasing, o desgaste da frota própria, os juros dos empréstimos e os impostos. É como ouvir um particular dizer que se não tiver de suportar as despesas da renda da casa, dos juros dos empréstimos e dos impostos, tem o seu orçamento familiar equilibrado!


A situação da TAP seria insustentável se estivéssemos a falar de acionistas privados, com recursos limitados. Mas, neste caso, há um Estado, nós todos, que suportamos os prejuízos e a ineficiência da empresa. Perante os recursos escassos da nossa economia, há que alocá-los a empresas que sejam viáveis e capazes de gerar resultados. Qual o custo de oportunidade de manter a TAP? Ao apoiarmos a TAP e deixarmos cair empresas realmente viáveis, que não serão subsidiadas porque os recursos não chegam para todas, quantas empresas obrigaremos a fechar? E qual o impacto desta decisão no emprego e nas exportações?


Será que temos noção do esforço que teremos de fazer para manter o grupo a funcionar? Quatro mil milhões de euros, representam quatro meses da coleta de IRS de um ano. Se juntarmos a este valor os 8 mil milhões necessários para o BES, teremos um valor próximo da coleta de IRS de 2020! Um ano de IRS de todos os portugueses para sustentar estas duas companhias. Comparando com o IRC, o esforço que nos está a ser pedido, como contribuintes, para a TAP, representa 80% do IRC pago por todas as empresas portuguesas, durante 2020, e implicará um acréscimo de 1,5% à nossa dívida pública.


Precisamos, urgentemente, de conhecer qual o Plano de Reestruturação, qual o plano a longo prazo que o Governo tem para a TAP, no qual deverão estar equacionados cenários alternativos dentro de um contexto de incerteza. Será que a TAP tem viabilidade em algum destes cenários? Será que não faz sentido separar a TAP em duas partes: uma de serviço público, garantindo os voos nacionais, pelos quais poderia ser devidamente remunerada (incluindo através de uma subsidiação pelo Estado) e outra para as rotas sujeitas à concorrência no mercado internacional? Mas será que a TAP consegue posicionar-se de forma competitiva num mercado altamente concorrencial em que nem nos “bons tempos” conseguiu ser viável? Será que os quatro mil milhões vão chegar? Até que valor estará o Estado português disposto a pagar para salvar a TAP: cinco mil milhões, 10 mil milhões?


Os contribuintes portugueses têm o direito de saber a resposta a estas questões bem como de conhecer os planos e não podem ser tratados com silêncio e arrogância, sendo certo que o esforço financeiro será deles! Merecem um Estado transparente, sério e sem medo de debates e sugestões! Um Estado que defenda a economia com respeito pelo contribuinte português!


https://observador.pt/opiniao/as-contas-da-tap-nao-se-deixe-iludir/

Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Foi lançado o AMALIA, o primeiro LLM português

 O Técnico Innovation Center recebeu, no dia 1 de julho, a apresentação oficial do AMALIA, o primeiro Modelo de Linguagem de Grande Escala português. No projeto, os professores do DEI André Martins e Alberto Abad coordenaram duas equipas de investigação responsáveis pelo desenvolvimento do modelo. A equipa coordenada por André Martins foi responsável pela coordenação e desenvolvimento do modelo central do AMALIA, que permite gerar respostas textuais precisas e contextualizadas. A equipa coordenada por Alberto Abad foi responsável pela integração multimodal da linguagem falada, permitindo ao modelo não só interpretar texto, mas também receber e processar instruções faladas. Desenvolvido por um consórcio nacional de instituições académicas e de investigação, o AMALIA foi concebido para compreender e gerar conteúdos em português europeu. O modelo representa um marco no reforço da investigação e da autonomia tecnológica em Inteligência Artificial em Portugal. Foi lançado o AMALIA, o pr...

Dez países europeus criam “escudo” antimíssil — e dão à Ucrânia um papel decisivo na defesa do continente

 Coligação Antimísseis Balísticos é apresentada pelos países fundadores como uma iniciativa “puramente defensiva”, destinada a responder ao aumento das ameaças e a reforçar a capacidade europeia para detetar, intercetar e neutralizar ataques Dez países europeus, entre os quais Espanha, França, Alemanha e Reino Unido, anunciaram a criação de uma coligação destinada a desenvolver uma arquitetura integrada de defesa contra mísseis balísticos, aproveitando a experiência adquirida pela Ucrânia desde o início da invasão russa. Segundo o ’20 Minutos’, a Coligação Antimísseis Balísticos é apresentada pelos países fundadores como uma iniciativa “puramente defensiva”, destinada a responder ao aumento das ameaças e a reforçar a capacidade europeia para detetar, intercetar e neutralizar ataques. A aliança reúne Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Países Baixos, Noruega, Espanha, Suécia, Ucrânia e Reino Unido. A futura estrutura deverá complementar os sistemas já utilizados pelos vários países...