74 dias de silêncio: Sánchez só agora admite que navios de guerra marroquinos entraram em águas espanholas durante crise em Ceuta
A confirmação surgiu durante uma conversa informal com jornalistas, à margem da receção do Dia Nacional de Espanha
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, reconheceu esta segunda-feira, 74 dias depois dos acontecimentos, que navios de guerra marroquinos entraram sem autorização em águas territoriais espanholas junto a Ceuta, no final de julho. Os incidentes, que coincidiram com uma chegada em massa de migrantes, obrigaram Espanha a mobilizar meios da Marinha e terão provocado momentos de tensão que quase terminaram numa colisão entre embarcações militares.
A confirmação surgiu durante uma conversa informal com jornalistas, à margem da receção do Dia Nacional de Espanha, segundo o jornal ‘El Español’. Até agora, o chefe do Governo não tinha reconhecido publicamente a dimensão dos incidentes navais.
“Somos vizinhos geográficos; foram dias muito intensos e muito difíceis, obviamente. A comunicação foi muito tranquila, e isso não voltou a acontecer, nem nada que se pareça”, afirmou Sánchez.
O primeiro-ministro garantiu que existiu comunicação de alto nível entre as forças armadas de Espanha e Marrocos, mas não esclareceu as razões das incursões nem a eventual ligação à crise migratória.
Espanha enviou fragatas após incursões marroquinas
De acordo com informações inicialmente divulgadas pelo ‘El País’ e recuperadas pelo ‘El Español’, pelo menos uma fragata e várias embarcações de patrulha da Marinha Real Marroquina entraram repetidamente em águas espanholas nos dias 30 e 31 de julho, prolongando-se os incidentes pelos primeiros dias de agosto.
Fontes conhecedoras da situação descreveram as movimentações como uma “violação intencional” do espaço marítimo espanhol, e não como uma passagem acidental.
A tensão entre os navios dos dois países terá sido suficientemente elevada para quase provocar uma colisão.
Em resposta, Madrid reforçou a presença militar na região. O navio de ação marítima Rayo chegou a Ceuta a 3 de agosto, seguindo-se a fragata Santa María, posteriormente substituída pela Navarra, depois de ter sofrido danos.
Segundo os relatos publicados, as incursões cessaram após o reforço naval espanhol e os contactos entre os responsáveis militares dos dois países.
74 dias de silêncio: Sánchez só agora admite que navios de guerra marroquinos entraram em águas espanholas durante crise em Ceuta
O que aconteceu durante os 74 dias de silêncio?
A confirmação de Sánchez surge mais de dois meses depois dos primeiros incidentes, levantando questões sobre a ausência de esclarecimentos públicos acerca de uma situação que envolveu navios militares estrangeiros em águas sob soberania espanhola.
A coincidência temporal com a chegada de migrantes a Ceuta alimentou suspeitas de uma eventual coordenação entre as movimentações navais e a crise migratória.
No entanto, as fontes citadas pela imprensa espanhola não confirmaram qualquer ligação direta entre os dois acontecimentos, e Sánchez também não apresentou esclarecimentos nesse sentido.
O presidente da Câmara de Madrid, José Luis Martínez-Almeida, acusou as autoridades marroquinas de cumplicidade, questionando como poderiam ocorrer movimentações militares e migratórias daquela dimensão sem o conhecimento de Rabat.
“Alguém duvida que não tenha havido cumplicidade por parte de Marrocos e das autoridades marroquinas?”, questionou.
O autarca considerou ainda que a presença dos navios de guerra representa uma situação especialmente grave e lançou suspeitas sobre a relação entre Marrocos e o chefe do Governo espanhol.
Apesar das acusações políticas, não foram apresentadas provas de coordenação entre as incursões militares e a chegada de migrantes.
Sánchez insiste que os incidentes foram ultrapassados através do diálogo com Marrocos e garante que não voltaram a ocorrer situações semelhantes.

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