Avançar para o conteúdo principal

Prémio Champalimaud distingue investigação que devolveu visão a cegos



 Apesar dos avanços, "continuam a ser escassos os tratamentos capazes de restabelecer uma visão funcional após a perda", situação que investigadores premiados "ajudaram a mudar", indica fundação.


Botond Roska e José-Alain Sahel "estão entre os mais criativos e produtivos investigadores mundiais no desenvolvimento de tecnologias destinadas à recuperação da visão"


O trabalho inovador que permitiu que deficientes visuais ou cegos devido a doenças da retina recuperassem a visão valeu aos investigadores Botond Roska e José-Alain Sahel o Prémio António Champalimaud 2026, anunciou esta terça-feira a fundação que o atribui.


Em comunicado, a Fundação Champalimaud adianta que Botond Roska e José-Alain Sahel “estão entre os mais criativos e produtivos investigadores mundiais no desenvolvimento de tecnologias destinadas à recuperação da visão” e considera o seu trabalho “um exemplo notável de investigação translacional, ao ligar descobertas da biologia fundamental à prática clínica para desenvolver novas terapêuticas contra a perda de visão”.


Cerca de 43 milhões de pessoas em todo o mundo são cegas e 295 milhões vivem com deficiência visual, muitas delas devido a doenças da retina e de degenerescência macular.


Mas, “apesar dos avanços científicos, continuam a ser escassos os tratamentos capazes de restabelecer uma visão funcional após a perda provocada por distrofias hereditárias da retina ou pela degenerescência macular da idade”, situação que “Roska e Sahel ajudaram a mudar” ao longo de mais de duas décadas de trabalho, indica a Fundação Champalimaud.


Os dois médicos desenvolveram terapias que utilizam a técnica optogenética e que permitem tornar sensíveis à luz algumas células fotorrecetoras na retina de pessoas cegas, reativando-as, ou seja, restaurando a sua funcionalidade.


Os neurónios tornados sensíveis à luz vão substituir os fotorrecetores perdidos devido a danos e doenças genéticas, possibilitando a recuperação parcial da visão.


“Em modelos animais de degenerescências hereditárias da retina, a ativação de células ganglionares e bipolares da retina ou de cones fotorrecetores [responsáveis pela perceção das cores] “dormentes” permitiu restabelecer algum grau de função visual”, refere o comunicado.


“Mais tarde, estas abordagens foram testadas em ensaios clínicos em humanos, demonstrando ser possível recuperar parcialmente a visão em doentes”, acrescenta.


Botond Roska, médico e investigador biomédico húngaro da Universidade de Basileia, na Suíça, é também diretor fundador do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica, na mesma cidade. Neurobiólogo da retina, o cientista “identificou novas e complexas interligações neuronais essenciais à organização da visão na retina humana e animal”.


Mais concretamente, “desenvolveu técnicas de mapeamento dos circuitos retinianos através de vírus transsinápticos e recorreu a métodos genéticos para introduzir canais iónicos sensíveis à luz nas células bipolares ON da retina”.


José-Alain Sahel, oftalmologista e investigador francês da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos da América, e diretor fundador do Institut de la Vision, em Paris, França, realizou estudos pioneiros sobre a perda de visão causada pela neuropatia ótica hereditária de Leber (Leber Hereditary Optic Neuropathy – LHON), tendo demonstrado em ensaios clínicos que a expressão do gene mitocondrial ND4 pode prevenir a cegueira em doentes com esta doença.


O cientista “identificou também uma proteína fundamental da retina que promove a sobrevivência dos fotorrecetores do tipo cone, responsáveis pela visão diurna”.


A dupla, galardoada em 2024 com o Prémio Wolf de Medicina, recebe este ano o Prémio António Champalimaud de Visão, no valor de um milhão de euros, que “reconhece contribuições notáveis tanto para o alívio do sofrimento relacionado com a visão como para a investigação científica de ponta na área da visão e oftalmologia”.


Criado em 2006, o Prémio Champalimaud é atribuído anualmente, homenageando, nos anos pares, “descobertas científicas inovadoras na compreensão e/ou preservação da visão” e distinguindo, nos ímpares, “organizações inovadoras e iniciativas colaborativas que tiveram um impacto transformador na prevenção da cegueira e da deficiência visual, particularmente em regiões de rendimento baixo e médio”.


Prémio Champalimaud distingue investigação que devolve visão – Observador


Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Quimioterapia com "efeitos secundários mínimos". A descoberta na luta contra o cancro que tem a mão de duas portuguesas

 Diana Fernandes e Fernanda Andrade integram a equipa de investigadores que desenvolveu um hidrogel injetável que pode estar perto de revolucionar a quimioterapia como hoje a conhecemos. Quiseram "humanizar" o tratamento e tornar "mínimos" os seus efeitos secundários. Os tumores sólidos são os alvos do tratamento, como cancro do ovário, cérebro, mama ou pâncreas É macio, injetável, biodegradável e feito com compostos naturais. São as principais características do novo hidrogel desenvolvido por investigadores do Instituto de Investigação Vall d’Hebron (VHIR) que pode simbolizar um verdadeiro ponto de viragem na luta contra o cancro. Composta por celulose e quisotano, esta formulação local funciona como um “sistema de depósito” que vai libertando o fármaco da quimioterapia “pouco a pouco, durante um longo período de tempo”, com precisão junto da zona do tumor. É o que explica à CNN Portugal a principal investigadora do projeto, Diana Fernandes, 39 anos, doutorada em T...

CRA: a lei europeia de cibersegurança que vai afetar milhares de produtos

 A União Europeia está a mudar a forma como a cibersegurança é encarada. Com o Cyber Resilience Act (CRA), a segurança deixa de ser apenas uma preocupação das organizações e passa também a ser uma obrigação diretamente associada aos produtos digitais colocados no mercado europeu. Cyber Resilience Act (CRA): a lei europeia de cibersegurança que vai afetar milhares de produtos A nova legislação estabelece requisitos obrigatórios de cibersegurança para produtos com elementos digitais, abrangendo desde software e sistemas operativos a dispositivos IoT, equipamentos conectados e determinados componentes de infraestrutura. O objetivo é simples: os produtos digitais devem ser concebidos, desenvolvidos e mantidos tendo a segurança em conta desde o início e durante todo o seu ciclo de vida. O que é o Cyber Resilience Act? O CRA é uma regulamentação europeia que estabelece requisitos de cibersegurança para produtos com elementos digitais comercializados na União Europeia. A grande mudança es...