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Apagam as luzes, desligam os localizadores e levantam barricadas: assim atravessam os petroleiros o Estreito de Ormuz



 O perigo é suficientemente elevado para que algumas companhias estejam a pagar prémios extraordinários às tripulações dispostas a fazer a travessia. Pelo menos um armador terá oferecido um bónus equivalente a seis meses de salário


Apagam as luzes, desligam os localizadores e levantam barricadas: assim atravessam os petroleiros o Estreito de Ormuz


O Estreito de Ormuz continua a ser uma zona de guerra, ameaçada por drones, mísseis e minas, mas milhões de barris de petróleo voltaram a atravessá-lo todos os dias. Por detrás dessa recuperação está uma operação que transforma a passagem de petroleiros e navios de gás numa missão com procedimentos quase militares.


Capitães entrevistados pela ‘Bloomberg’, num relato reproduzido pelo ‘El Economista’, descrevem viagens feitas de noite, com luzes apagadas, comunicações reduzidas, sistemas de localização desligados e sacos de areia colocados junto às pontes de comando para tentar proteger as tripulações de eventuais explosões.


O perigo é suficientemente elevado para que algumas companhias estejam a pagar prémios extraordinários às tripulações dispostas a fazer a travessia. Pelo menos um armador terá oferecido um bónus equivalente a seis meses de salário.


Uma probabilidade em 20 de ser atingido


Um capitão de petroleiro, na casa dos 40 anos e cuja identidade não foi revelada, contou que passou três meses a navegar sobretudo através de Ormuz.


Na sua última missão recebeu várias vezes o salário habitual. Executivos da indústria marítima estimam que a probabilidade de um navio ser atingido durante uma travessia seja de aproximadamente uma em 20, mesmo com a proteção dos EUA.


O próprio capitão viu uma explosão atingir uma embarcação que seguia à sua frente. Teve de desviar o petroleiro, com cerca de 300 metros de comprimento, e alertou a Marinha dos EUA.


Noutra viagem, foi o seu próprio navio que sofreu um ataque. O projétil não provocou feridos nem danos.


“Pode acontecer a qualquer momento”, resumiu.


Luzes apagadas e contacto com militares a cada 30 minutos


Os EUA estão a coordenar com as companhias marítimas rotas destinadas a evitar as minas e outras ameaças no estreito.


Segundo o Comando Central dos EUA, milhares de embarcações receberam proteção coordenada nos últimos meses. Na prática, a Marinha fornece aos capitães rotas e pontos de passagem e os navios comunicam com os militares a cada 30 minutos para informar sobre o progresso da viagem e eventuais mísseis avistados.


Durante parte da travessia, as embarcações navegam praticamente às escuras. O capitão recorda ter recorrido aos conhecimentos de navegação tradicional para se orientar pela costa e pelos faróis, chegando a passar pouco mais de um quilómetro ao largo de Omã.


“Tenho sorte porque ainda me lembro da navegação tradicional, à moda antiga”, explicou. “É um grande desafio.”


Sacos de areia para enfrentar drones e mísseis


Nos navios de gás, as precauções podem ir ainda mais longe. Antes da entrada no estreito, o AIS, sistema que transmite a posição da embarcação, pode ser desligado para dificultar a sua localização.


Depois começam preparativos mais associados a um cenário de guerra: são colocadas barricadas de sacos de areia nos conveses para tentar reduzir os efeitos de um eventual impacto de um drone ou míssil. Pelo menos oito navios de gás conseguiram atravessar Ormuz nas últimas duas semanas com garantias de segurança dos EUA.


Nos petroleiros, sacos de areia e tambores cheios de água são colocados junto à ponte de comando, a bomba de incêndio de emergência permanece ligada e as mangueiras ficam preparadas junto às zonas onde se encontra a tripulação.


O risco é real. A Organização Marítima Internacional estima que 24 marinheiros morreram em ataques na região desde o início da guerra.


Petróleo volta a fluir, mas Ormuz não regressou à normalidade


É esta operação logística e militar que ajuda a explicar um aparente paradoxo: apesar do perigo, o fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz está a aproximar-se dos níveis anteriores ao conflito.


JP Morgan e Goldman Sachs estimam uma recuperação significativa das exportações de crude do Médio Oriente, com o JP Morgan a apontar para cerca de 17,5 milhões de barris por dia.


Isso não significa que Ormuz tenha voltado à normalidade. Significa que companhias, marinheiros e forças militares criaram uma espécie de sistema logístico de guerra capaz de manter em movimento uma das principais artérias energéticas do planeta.


No final, porém, há uma decisão que nenhum sistema militar pode tomar pelo comandante: atravessar ou não.


A decisão cabe ao capitão de cada navio. O homem ouvido pela Bloomberg contou que os filhos esperavam ansiosamente pelo seu regresso às Filipinas e admitiu que a família estava “bastante assustada”.


Apesar disso, está disposto a regressar. “Estou muito orgulhoso. Gosto realmente do meu trabalho.”


Francisco Laranjeira

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