Espanha teme conflito armado com Marrocos: 58% dos espanhóis admitem guerra por Ceuta e Melilha nos próximos dez anos
A crise migratória que levou mais de 70 mil pessoas a Ceuta agravou as tensões entre Madrid e Rabat, numa altura em que o rei Felipe VI visita os dois territórios espanhóis no norte de África.
Espanha teme conflito armado com Marrocos: 58% dos espanhóis admitem guerra por Ceuta e Melilha nos próximos dez anos
A possibilidade de um conflito armado entre Espanha e Marrocos deixou de ser um cenário distante para uma parte significativa da população espanhola. Segundo uma sondagem divulgada esta terça-feira pelo POLITICO, 58% dos inquiridos consideram provável que as tensões em torno de Ceuta e Melilha possam desencadear uma guerra entre os dois países durante a próxima década.
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O estudo, realizado em setembro pela empresa independente PF Global, mostra também que 75% dos espanhóis encaram Marrocos como uma ameaça efetiva à integridade territorial do país. Os resultados surgem na sequência da crise migratória que, no final de julho, levou mais de 70 mil migrantes a entrar em Ceuta e provocou uma das maiores crises recentes nas relações entre Madrid e Rabat.
A chegada em massa de migrantes ao enclave espanhol desencadeou críticas à atuação do Governo socialista de Pedro Sánchez, tanto pela gestão da fronteira como pela oposição de Espanha a novas medidas europeias mais restritivas em matéria de imigração.
Ao mesmo tempo, intensificaram-se as suspeitas sobre um eventual envolvimento das autoridades marroquinas na crise, uma hipótese que o primeiro-ministro espanhol tem rejeitado repetidamente.
Três em cada quatro espanhóis veem Marrocos como ameaça territorial
A sondagem do POLITICO, realizada algumas semanas antes de Pedro Sánchez convocar eleições antecipadas, revela uma perceção generalizada de insegurança relativamente ao país vizinho.
Mais de 80% dos participantes consideram que Marrocos representa um risco moderado ou significativo para Espanha, colocando-o bastante acima de outras potências estrangeiras, como a China, os Estados Unidos e a Rússia.
As preocupações estão particularmente relacionadas com Ceuta e Melilha, dois territórios espanhóis situados no norte de África que Marrocos considera ocupados.
Apesar do receio de um eventual confronto militar, a maioria dos espanhóis acredita que os dois territórios continuarão sob soberania espanhola. Cerca de dois terços dos inquiridos esperam que Ceuta e Melilha permaneçam sob controlo de Madrid daqui a 20 anos.
Os resultados evidenciam, assim, uma combinação de preocupação com a segurança territorial e confiança na manutenção da soberania espanhola sobre os dois enclaves.
Eleitores do Vox e do Partido Popular são os que mais receiam uma guerra
A perceção de ameaça varia consoante as preferências políticas dos inquiridos.
De acordo com o POLITICO, os eleitores que manifestam intenção de votar no Partido Popular, liderado por Alberto Núñez Feijóo, ou no Vox, de extrema-direita, são os que mais frequentemente identificam Marrocos como um perigo para a integridade territorial de Espanha.
Mais de três quartos dos apoiantes do Vox consideram provável um conflito armado com Marrocos nos próximos dez anos. Entre os simpatizantes do Partido Popular, essa percentagem situa-se nos 68%.
No entanto, a preocupação não se limita aos partidos da direita.
Entre os eleitores do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), liderado por Pedro Sánchez, quase dois terços também consideram Marrocos uma ameaça real.
Já quanto à possibilidade de guerra, os socialistas apresentam opiniões divididas: 47% acreditam que um confronto militar é provável, enquanto 43% consideram que não deverá acontecer.
A sondagem mostra, por isso, que o receio relativamente a Marrocos atravessa diferentes setores do eleitorado espanhol, embora seja particularmente acentuado entre os apoiantes dos partidos da oposição à direita.
Crise migratória de Ceuta alimenta acusações contra Marrocos
A entrada de mais de 70 mil migrantes em Ceuta, no final de julho, colocou a gestão das fronteiras espanholas no centro do debate político.
O líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, acusou Marrocos de ter coordenado e dirigido a crise migratória, alegando também que o Governo espanhol procurou ocultar esse envolvimento.
As suspeitas foram igualmente levantadas pelo Sumar, parceiro minoritário da coligação governamental de Pedro Sánchez.
A polémica intensificou-se depois de um relatório policial ter apontado para a alegada participação de agentes marroquinos na organização do movimento de migrantes em direção ao território espanhol.
Pedro Sánchez, contudo, rejeitou repetidamente a responsabilidade de Rabat.
Embora tenha classificado a chegada em massa de migrantes como um ataque à integridade territorial espanhola, o primeiro-ministro atribuiu a responsabilidade pela situação às redes de tráfico de pessoas, afastando as acusações de que o Governo marroquino teria organizado a operação.
As diferentes interpretações sobre a origem da crise contribuíram para agravar as tensões políticas internas e diplomáticas.
UE discute resposta a movimentos migratórios utilizados como instrumento de pressão
A crise de Ceuta também levou a União Europeia a discutir novas medidas de emergência destinadas a responder a movimentos migratórios em massa que possam ser organizados ou utilizados como forma de pressão política.
O debate europeu centra-se na possibilidade de criar mecanismos específicos para situações em que a migração seja instrumentalizada, embora a Comissão Europeia e os ministros dos Estados-membros tenham associado a necessidade de resposta ao papel das redes criminosas e dos traficantes.
A discussão surge num contexto em que Madrid enfrenta pressões para reforçar o controlo das fronteiras e esclarecer as circunstâncias que estiveram na origem da chegada de milhares de pessoas a Ceuta.
Para uma parte da população espanhola, a hipótese de Marrocos utilizar movimentos de civis para exercer pressão territorial tem antecedentes históricos.
O POLITICO recorda a chamada Marcha Verde, organizada por Marrocos em 1975, quando dezenas de milhares de civis foram mobilizados numa operação destinada a pressionar Espanha a abandonar o então Sara espanhol.
Essa memória histórica continua a influenciar a forma como alguns espanhóis interpretam as tensões atuais em torno de Ceuta e Melilha.
Visita do rei Felipe VI aumenta tensão diplomática
Os resultados da sondagem são conhecidos numa altura em que o rei Felipe VI inicia, esta terça-feira, uma visita a Ceuta e Melilha.
A deslocação está a ser acompanhada com particular atenção dos dois lados do estreito de Gibraltar, numa altura em que as relações diplomáticas entre Espanha e Marrocos permanecem fragilizadas.
Segundo o POLITICO, a visita poderá contribuir para aumentar a tensão entre Madrid e Rabat, sobretudo devido ao significado político da presença do monarca nos dois territórios.
O programa deverá incluir uma deslocação ao cemitério de Sidi Embarek, em Ceuta, onde estão sepultadas cerca de 90 pessoas que morreram durante a crise migratória.
A vice-presidente da Câmara de Ceuta, Kissy Chandiramani, afirmou ao POLITICO que Marrocos recusou o repatriamento dos corpos.
O analista Ignacio Cembrero interpretou essa recusa como uma afronta às autoridades espanholas, acrescentando um novo elemento de tensão à crise diplomática.
Chandiramani espera que a visita do rei contribua para unir uma cidade profundamente afetada pelos acontecimentos dos últimos meses.
Discurso do monarca é aguardado após declarações da ministra da Defesa
A atenção estará também concentrada no discurso que Felipe VI deverá proferir durante a noite, no hotel Parador, em Ceuta.
As palavras do monarca são aguardadas depois de a ministra espanhola da Defesa, Margarita Robles, ter reafirmado esta semana que Ceuta e Melilha são territórios inequivocamente espanhóis.
Do lado marroquino, a reação oficial tem sido relativamente discreta.
Na primeira intervenção pública desde a crise, o rei Mohammed VI reconheceu que a cooperação com Espanha enfrenta grandes desafios, mas não fez qualquer referência direta à visita de Felipe VI.
Entretanto, está prevista uma manifestação em Fnideq, localidade marroquina situada junto à fronteira com Ceuta, para 14 de outubro, depois da saída do monarca espanhol do enclave.
A deslocação de Felipe VI decorre, assim, num momento particularmente delicado para as relações entre os dois países.
Com uma maioria dos espanhóis a considerar Marrocos uma ameaça territorial e 58% a admitir a possibilidade de um conflito armado na próxima década, o Governo de Pedro Sánchez enfrenta o desafio de gerir simultaneamente as preocupações de segurança interna, a pressão política e a relação diplomática com Rabat.
Os resultados da sondagem refletem a perceção dos inquiridos sobre o risco de guerra, não constituindo uma previsão de que um confronto militar venha efetivamente a acontecer.

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