Avançar para o conteúdo principal

Carros eléctricos vão montar travões menos bons?


Os travões de disco vieram revolucionar a segurança automóvel, incrementando a eficácia da travagem. Agora, eléctricos como o Volkswagen ID.3 recuperam os travões de tambor atrás. Será um retrocesso?

A Volkswagen defende que os travões de tambor são melhores para os automóveis eléctricos, uma vez que os usam menos frequentemente

Os travões de disco são uma realidade desde 1955, quando surgiram no Citroën DS, o primeiro modelo produzido em série a confiar num sistema de travagem com discos, em substituição dos até aí habituais tambores. Desde então, todos os construtores optaram por esta nova solução, inicialmente apenas no eixo da frente e depois nas quatro rodas.

Os sistemas de travagem por disco são mais eficientes, a vários níveis. Para começar são mais leves, especialmente com os novos materiais em que estão disponíveis, dos bi-metal, com os centros em alumínio e as superfícies de fricção em aço, àqueles em carbocerâmica, passando pelos produzidos em fibra de carbono, estes mais aconselháveis para competição por necessitarem de temperaturas muito elevadas para maximizar a eficiência. E o peso não suspenso (essencialmente formado por pneu, jante, travões e cubos de roda) é determinante para o bom comportamento da suspensão.

O Volkswagen ID.3 monta travões de disco à frente mas de tambores atrás. Veja nas fotos seguintes aquela que é a melhor solução, defendida pela marca alemã 3 fotos
Como se isto não bastasse, os discos são mais progressivos, funcionam melhor com chuva e, sobretudo, usufruem de melhor ventilação do que os tambores. E daí que suportem mais facilmente esforços mais violentos, resultantes por exemplo de uma travagem de emergência a velocidade mais elevada, condução desportiva ou uma utilização continuada durante uma descida mais íngreme. Nestas condições, os tambores perdem eficácia, por rapidamente excederem a temperatura ideal de funcionamento, com o incremento de temperatura a propagar-se à jante, que por sua vez vai aumentar a temperatura e a pressão do pneu, alterando o comportamento.

Com tantas vantagens a favor dos travões de disco, por que razão estarão alguns automóveis eléctricos a recorrer a tambores nas rodas traseiras? A resposta passará pelos com os menores custos deste sistema, mas há um outro motivo que é ainda mais curioso. Nos veículos eléctricos, os travões são muitos menos utilizados do que nos automóveis com motor de combustão, uma vez que mesmo que se pressione o pedal, é a travagem eléctrica (regenerativa) proporcionada pelo motor eléctrico a reduzir a velocidade do veículo. Só quando se carrega mais forte no pedal do travão é que os travões mecânicos entram em funcionamento, transformando energia cinética em calor. Esta utilização mais reduzida leva a que os discos enferrujem (por falta de uso) mais do que o habitual, com a Volkswagen a utilizar este problema para justificar a sua decisão em relação ao ID.3.

Resta esperar para ver se a marca alemã vai usar tambores atrás em todas as versões do ID.3, ou exclusivamente naquela com menor capacidade de bateria (45 kWh), sendo que todas elas estão equipadas com um motor eléctrico de 204 cv montado sobre o eixo traseiro, o que deixa antever um nível de acelerações interessante.

O Nissan Leaf, por exemplo, usa discos nas quatro rodas, à semelhança do BMW i3 e do Mini Electric, com o novo Renault Zoe a ter substituído os tambores traseiros utilizados na primeira geração do utilitário por discos nesta segunda geração do modelo. Vamos aguardar pelas conclusões que a Volkswagen vai retirar da sua experiência na comercialização do ID.3, bem como qual vai ser a opinião dos seus clientes.

https://observador.pt/2020/02/25/carros-electricos-vao-montar-travoes-menos-bons/

Comentários

Notícias mais vistas:

Depois dos elétricos Europa quer tarifas para híbridos plug-in feitos na China

BYD Seal U DM-i, frente © BYD  Para travar a expansão dos chineses em solo europeu Bruxelas prepara-se para recorrer a um mecanismo que conhece bem: as tarifas. Depois de ter aplicado tarifas adicionais aos veículos elétricos fabricados na China em 2024, a União Europeia (UE) prepara mais uma medida protecionista. Desta vez, o alvo são os híbridos plug-in produzidos no país asiático, de acordo com o reportado pelo jornal Handelsblatt. Com os automóveis elétricos produzidos na China sujeitos a tarifas adicionais que podem chegar aos 35,3%, sobre os 10% regulares, as marcas chinesas redirecionaram parte da sua oferta para os híbridos plug-in que estão a salvo destas penalizações. Os números refletem essa aposta: a quota de mercado na Europa dos híbridos plug-in produzidos na China saltou de 18% para 30% face a abril de 2025, com as vendas a crescerem 236% no mesmo período. O exemplo mais evidente é o BYD Seal U DM-i, que foi o híbrido plug-in mais vendido na Europa no ano passado e m...

Quanto custa a licença para operar em pontos de carregamento elétrico?

 O setor da mobilidade elétrica em Portugal acaba de entrar numa nova era. O Governo divulgou recentemente as regras financeiras e administrativas para quem quer operar no mercado, facilitando o acesso a novas empresas e prometendo uma rede mais robusta para os utilizadores. Neste artigo explicamos tudo o que muda, quanto custa entrar no setor e como estas alterações afetam o bolso de quem conduz um carro elétrico. Novo regime da mobilidade elétrica: o que muda para as empresas? A grande novidade do regime jurídico que entrou em vigor a 31 de março é a maior autonomia dada aos operadores de pontos de carregamento (OPC). A partir de agora, as empresas têm liberdade para definir os seus modelos de negócio, podendo inclusive utilizar energia de autoconsumo (como painéis solares) e não estando obrigatoriamente ligadas à rede Mobi.E. Quanto custa a licença para operar pontos de carregamento? Para as entidades que pretendam exercer esta atividade, os custos foram fixados da seguinte form...

Se não se proibiram os cavalos, porquê proibir a combustão?

 Com as alterações climáticas a serem um sério problema atual, o setor automóvel é um dos mais visados com medidas de proteção ambiental. Martin Sander, da Volkswagen, defende que proibir a combustão não deve ser o caminho, comparando com a transição de cavalos para automóveis. Se não se proibiram os cavalos, porquê proibir a combustão? A partir de 2035, 90 por cento dos novos automóveis vendidos na União Europeia deverão ter de ser elétricos, numa medida que visa a transição para a mobilidade sustentável a larga escala - quando o ritmo de adoção ainda está mais lento do que o esperado.   Mas o diretor de marketing e vendas da Volkswagen, Martin Sander, é da opinião que o caminho não deve ser o de impor e de proibir. Considera que há ações que se podem fazer para convencer que é uma opção competitiva, mostrando que o valor dos carros elétricos e disponibilizando uma infraestrutura adequada - que ainda falta hoje em dia. A analogia com a transição da propulsão animal para a pro...