Avançar para o conteúdo principal

Facebook vai classificar quem é de confiança

De notar que esta não é a única pontuação a que estamos sujeitos na nossa utilização das redes sociais, sendo apenas mais um que nos deve servir para reflexão.

Quem viu Black Mirror ou já falou sobre o assunto dificilmente se esquece do episódio épico em que cada pessoa tem sobre a sua cabeça um número indicador do seu nível social; nesse episódio, denominado “Nosedive”, reflete-se sobre a possibilidade de quantificação do estatuto social de uma pessoa e da forma como este pode variar com as várias acções do dia-a-dia. A narrativa tem uma abordagem muito realista, mas, ainda assim, parece debruçar-se sobre um futuro ainda mais ou menos distante. Ou que parecia distante, na altura em que estreou.

Desde que “Nosedive” saiu, em Outubro de 2016, são frequentes as analogias entre este episódio e o sistema de rating de cidadãos utilizado pelo regime de Xi Jinping, na China. Anunciado em 2014, o grande plano chinês visa recolher informação para o Estado, dando-lhe conta de que cidadãos são de confiança e os que não são, e só estará pronto em 2020.

Outra comparação frequente costuma ser com o Facebook mas, neste âmbito, a metáfora costumava ser mais abstracta. Agora, uma notícia do Washington Post ilumina um projecto secreto da baleia azul de Silicon Valley e mostra que a realidade do episódio de Black Mirror pode não estar assim tão distante – e pode, aliás, estar simplesmente escondida dos utilizadores. O Facebook planeia classificar – e já o começou a fazer – os utilizadores entre 0 e 1 pelo seu nível de confiabilidade.

A medida faz parte de um pacote maior que visa combater as notícias falsas e a desinformação, conforme Tessa Lyons, responsável de produto confirmou em entrevista, e levanta novamente a questão fundamental entre liberdade e segurança.

Tessa Lyons diz que o sistema de rating de utilizadores surgiu depois de provada a falência do sistema de denúncias no combate a este problema epidémico das redes sociais. Para a directora de produto, responsável por esta área (a da informação), a questão prende-se com o facto de as pessoas não denunciarem aquilo que acham falso mas aquilo de que discordam, pelo que surgiu a ideia de manter um registo da “confiabilidade” de cada utilizador.

O sistema de pontuação comportamental não é um exclusivo do Facebook, sendo prática corrente noutras redes sociais como o Twitter. Em ambos os casos, falta alguma transparência sobre os critérios de classificação e, sobretudo, sobre as consequências de uma pontuação negativa. Estes dois pontos são de extrema importância e deveriam ser alvo de uma discussão aberta e participada pelos utilizadores que as gigantes tecnológicas evitam a todo o custo.

Por um lado, não dar a conhecer os critérios de julgamento é algo desconfortável para os utilizadores, como nota, a citada pelo Washington Post, Claire Wardle, directora da First Draft, um laboratório de investigação da Harvard Kennedy School; por outro, se as tecnológicas o fizessem, correriam o risco de ver agentes mal intencionados a subverter por completo os seus algoritmos – como quando o Facebook lançou o Graph Search, por exemplo.

No caso do Twitter sabe-se, por exemplo, que o comportamento dos utilizadores influencia todos os que estão na sua rede; no do Facebook, a mesma reportagem do Washington Post dá apenas um exemplo do que é tido em conta. “Por exemplo, se uma pessoa reportar uma notícia como falsa e ela for confirmada como falsa por um fact-checker, nós vamos dar mais peso às próximas denúncias dessa pessoa”, escreve o jornal.

De notar que esta não é a única pontuação a que estamos sujeitos na nossa utilização das redes sociais, sendo apenas mais um que nos deve servir para reflexão. Se pensarmos, até a publicidade que vemos durante a nossa navegação deriva de certa maneira de um ranking de probabilidade de gostarmos ou querermos comprar/subscrever determinado produto ou serviço.

A novidade neste ponto – que também não é novidade nenhuma – é mais uma vez o reforço da preponderância dos algoritmos na difícil batalha que as redes sociais têm pela frente de conseguir manter plataformas onde reine o discurso saudável, moderado e sobretudo verdadeiro.

https://shifter.sapo.pt/2018/08/facebook-classifica-utilizadores/

Comentários

Notícias mais vistas:

Ucrânia acusa Hungria de fazer sete funcionários de banco ucraniano reféns em Budapeste

 Kiev acusa as autoridades húngaras de terem raptado sete funcionários do Oschadbank da Ucrânia, e terem apreendido uma grande quantidade de dinheiro e ouro. Uma nova escalada numa amarga disputa diplomática entre Orbán e Zelenskyy. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia acusou na quinta-feira a Hungria de fazer sete funcionários de um banco ucraniano reféns em Budapeste, num momento de elevada tensão entre os dois países. "Em Budapeste, as autoridades húngaras fizeram sete cidadãos ucranianos reféns. Os motivos permanecem desconhecidos, assim como o seu estado de saúde atual", escreveu Andriy Sybiga. Segundo o chefe da diplomacia ucraniana, os detidos são "funcionários do banco estatal Oschadbank que operavam dois veículos do banco em trânsito entre a Áustria e a Ucrânia, transportando dinheiro". "Trata-se de terrorismo e de extorsão patrocinada pelo Estado" perpetrada pela Hungria, denunciou o ministro, afirmando já ter enviado uma nota oficial ...

Office  EU é a alternativa europeia às suítes de produtividade norte‑americanas

 Plataforma europeia Office EU reúne e‑mail, documentos, calendário e videoconferência sob o RGPD, oferecendo uma alternativa às soluções dos EUA. Uma plataforma digital europeia está a posicionar-se como alternativa às grandes suítes de produtividade controladas por empresas norte-americanas. Chama-se Office  EU e reúne num só espaço todas as ferramentas básicas de escritório – desde edição de texto e folhas de cálculo até correio eletrónico, armazenamento de ficheiros e videoconferência. A sua principal diferença? É integralmente europeia, tanto na propriedade como na infraestrutura técnica, e cumpre as regras de proteção de dados da União Europeia. O OfficeEU visa oferecer a empresas, organizações e cidadãos uma solução de trabalho em nuvem sem recurso a servidores ou legislação de fora da Europa. O utilizador pode criar e partilhar documentos, gerir agendas e realizar chamadas de vídeo num ambiente regulado pelo RGPD, mantendo o controlo sobre os próprios dados. Entre as aplica...

Wall Street começa a chamar a atenção para os "ecos" da pior crise do século

  Para alguns investidores proeminentes, os paralelos com a crise dos subprimes parecem óbvios. Mas não há um consenso claro em Wall Street Nova Iorque -  Durante meses, investidores e analistas têm acompanhado de perto o obscuro setor financeiro conhecido como crédito privado, onde os sinais de alerta têm alimentado receios de uma repetição da crise financeira de 2008. Ainda não é claro se estes alertas representam apenas alguns erros isolados ou uma fragilidade sistémica mais grave no setor de 1,8 mil milhões de dólares. Mas, se esta última hipótese for sequer remotamente possível, vale a pena perceber o que raio se está a passar. Uma breve introdução ao "crédito privado" De uma forma muito simples, o termo refere-se aos investidores que emprestam dinheiro diretamente a empresas privadas, sem passar pelos bancos. Os mutuários — geralmente pequenas empresas que os bancos considerariam demasiado arriscadas ou complexas para um empréstimo tradicional — pagam uma taxa de juro m...