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Durante a Gripe Espanhola, houve uma Liga Anti-Máscara. E tudo piorou


No início, a população aderiu em massa ao seu uso, mas com a pneumónica a não dar sinais de ceder, o cansaço da população e a pressão da economia ditaram o fim da proteção.

A pandemia de covid-19 já foi comparada à da Gripe Espanhola, que afetou o mundo no final da Primeira Guerra Mundial e matou mais de 100 milhões de pessoas. Na altura, o uso da máscara foi também considerado obrigatório, mas houve quem se rebelasse contra a medida e até se organizasse para a contestar. Aconteceu em São Francisco.

Quando a doença surgiu, no outono de 1918, na reta final do conflito militar, a utilização da máscara foi considerada um ato patriótico. Como conta o San Francisco Chronicle, antes da máscara ser considerada obrigatória, a 24 de outubro, 4 em cada 5 habitantes já a usavam nas ruas.

O jornal recupera o que relatava nesse tempo e as palavras de John A. Britton, presidente da Cruz Vermelha da cidade, espelham a forma como a pandemia rapidamente mudou a opinião das pessoas à medida que infetava e matava mais população - chegou a ser difícil encontrar caixões para comprar e as famílias guardavam-nos debaixo da cama dos doentes que agonizavam.

"Há uma semana, ri-me da ideia da máscara", confessava Britton. "Eu queria ser independente. Não percebi que o custo dessa independência era a vida de outras pessoas", afirmava.

Depois, para travar estes ímpetos "independentistas", as autoridades começaram a levar a tribunal os que se recusavam a usar máscaras e eram centenas.

Há 100 anos, também se usava a máscara no queixo

Não tinha começado mal. Em 1918, como agora, as máscaras foram recebidas com uma espécie de salvação. A imprensa da época estimava que 80% da população de São Francisco estivesse a cumprir as ordens das primeiras semanas.

Tal como em 2020, nem todos sabiam como usar a máscara: traziam-na no queixo, para puderem fumar cachimbo, ou usavam máscaras que tapavam apenas o nariz, deixando a boca descoberta tornando-a uma porta de entrada direta para o vírus.

Houve conflitos, prisões e até tiros disparados contra quem se recusava a usar o acessório de proteção.

Durante a Gripe Espanhola, houve uma Liga Anti-Máscara. E tudo piorou

No final de outubro, São Francisco tinha 20 mil pessoas infetadas com a pneumónica, como também ficou conhecida a doença, e mais de mil mortos. Mas o número de novos casos estava a diminuir e as autoridades decidiram que era hora de começar a levantar as restrições.

A partir de 16 de novembro, menos de um mês depois do início das medidas de emergência, restaurantes, hotéis, cinemas, teatros e os locais onde se realizavam competições desportivas, começaram a reabrir.

O uso de máscaras ainda era obrigatório, mas muitas pessoas passaram a ignorar a ordem das autoridades.

Ao meio-dia de 21 de novembro, dez dias após o fim da Primeira Guerra Mundial, foi anunciando o fim da obrigatoriedade. Houve festa nas ruas, com milhares de máscaras a cobrirem o chão da cidade.

No entanto, o número de casos disparou logo de seguida e a recomendação de usar máscara voltou duas semanas depois. Desta vez, o seu uso seria voluntário.

Estima-se que apenas 10% voltaram a aderir à medida, por isso, com o número de mortes a aumentar, as autoridades decidiram voltar a implementar, a 17 de janeiro de 1919, o uso da máscara como obrigatório.

Cansaço e economia contra o fim da obrigação

A medida, desta vez, não foi bem aceite, sobretudo pelos comerciantes, que temiam começar a vender menos a cidadãos que também se mostravam cada vez mais fartos de usar a máscara.

Começava-se também a duvidar da sua eficácia. A Associação Americana de Saúde Pública publicou um artigo numa revista científica no qual afirmava que a eficácia das máscaras ainda era contraditória. Foi neste contexto que surgiu a Liga Anti-Máscaras.

Era formada por empresários, comerciantes e até alguns médicos e um membro do governo. O objetivo era acabar com a obrigatoriedade do uso da máscara que iria "contra a vontade da maioria da população".

Foi realizado um encontro onde estiveram presentes milhares de pessoas - sem máscara, e apesar de, no início, o autarca da cidade não ter cedido à pressão da Liga, uma semana depois deste encontro a lei que obrigava a usar máscara foi revogada.

Vários historiadores afirmam que a devastação provocada pela gripe espanhola em São Francisco espelha o perigo que o levantamento prematuro das restrições pode causar em plena pandemia.

A cidade registou um total de 45 mil infetados e mais de 3 mil mortos, uma das mais altas taxas por capita nos EUA. .No país inteiro, a gripe espanhola matou 675 mil pessoas.

https://www.dn.pt/mundo/durante-a-gripe-espanhola-houve-uma-liga-anti-mascara-e-tudo-piorou-12187799.html

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