Avançar para o conteúdo principal

Pensões de velhice sofrem dura penalização e valem apenas 38% do salário daqui a 48 anos


Envelhecimento populacional conjugado com um crescimento lento do PIB em torno de 1% tem um efeito devastador no sistema de pensões © Tony Dias/Global Imagens


 Quem se reformar em 2070 com um ordenado médio mensal de 2571 euros só terá direito a uma prestação de 1005 euros. Projeções da SEDES constam do livro "Ambição: Duplicar o PIB em 20 Anos", lançado hoje no Porto.


Salomé Pinto

O valor da reforma média vai degradar-se profundamente nos próximos 48 anos, tantos quanto já temos de democracia, se o sistema de pagamento de pensões não sofrer uma profunda reforma. Em 2070, a pensão média poderá valer apenas 38% do salário médio. A conclusão consta do livro "Ambição: Duplicar o PIB em 20 Anos" da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES) a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso. A obra, coordenada pelo presidente da associação, Álvaro Beleza, e pelo presidente do conselho consultivo da mesma instituição, Abel Mateus, é lançada hoje, no Porto.


Daqui a 48 anos, um trabalhador com um ordenado médio mensal de 2571 euros, a 14 meses, receberá apenas uma prestação de 1005 euros, o que representa apenas 38% do vencimento que auferia. A concretizarem-se estas projeções do grupo de trabalho coordenado por Maria João Louro, trata-se de uma perda substancial do poder de compra destes pensionistas, em 2070. Neste momento, e à luz das contas de 2019, a disparidade é menor. Por exemplo, se ganhar 1285 euros mensais, a 14 meses, e se pedir a aposentação poderá contar com uma pensão de 950 euros, o que representa 72% do salário.


De 2019 a 2070, os peritos sublinham que, apesar da duplicação do salário médio de 18 mil euros anuais para 36 mil, a pensão média só aumenta 11% em termos reais de 13,3 mil para 14,76 mil euros. Estima-se ainda um aumento da idade da reforma dos 66 para os 69 anos de idade, em 2070.


As projeções têm em conta um crescimento lento do Produto Interno Bruto (PIB) e um forte agravamento da taxa de dependência, que mede o rácio entre as pessoas com mais de 65 anos sobre a população entre os 15 e os 64 anos. "De tal forma que Portugal, em 2050, terá a taxa de dependência mais elevada, a par com a Espanha, entre os países da União Europeia (UE)", explica a obra.


"A evolução demográfica combinada com um crescimento lento do PIB potencial, em torno de 1% ao ano, claramente abaixo da média da UE, tem implicações devastadoras sobre a falta de progresso na economia portuguesa e, em particular, sobre o sistema de pensões de reforma", alertam os especialistas.

A principal consequência, em Portugal, será a forte redução da taxa de reposição das pensões em relação aos últimos salários. Em Portugal, esse rácio vai baixar dos 74%, em 2019, para 41%, em 2070. A queda de 33% só é ultrapassada pela Espanha (36%) e pela Letónia (35%).


Os portugueses têm hoje um nível de vida equivalente ao de há 20 anos: em 2000, o PIB per capita, a preços de 2015, era de 21 284 euros e, no ano passado, estava ainda em 21 850 euros por habitante.

A obra cita ainda o cenário realizado pela Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Património (APFIPP). Tendo em conta variáveis relativamente positivas - como uma taxa média anual do PIB de 1,7%, uma taxa média de desemprego de 8%, um aumento anual da produtividade do trabalho de 1,4% e uma taxa de inflação anual de 2% -, a APFIPP estima, ainda assim, que "o défice das pensões de reforma do regime contributivo agravar-se-á nos próximos anos, provocando até 2046 um défice orçamental superior a 5% do PIB". "Se a estes valores acrescentarmos o das pensões sociais, que representam um défice de 1,6% do PIB, significa que o saldo primário do Orçamento do Estado necessário, só para equilibrar o défice das pensões da Segurança Social, não poderá ser inferior a 8% do PIB, entre 2021 e 2036". A APFIPP avisa que este "parece um objetivo muito difícil de almejar".


Neste momento, a realidade parece muito mais otimista, tendo em conta a execução orçamental de julho, bem como as projeções do governo, do Banco de Portugal e da Comissão Europeia: um crescimento do PIB de 6,3%, receita fiscal a crescer 5 mil milhões de euros face ao ano passado e excedente orçamental de 432 milhões de euros. Contudo, é preciso ter uma visão de longo prazo, ter em equação o fim da política expansionista do Banco Central Europeu com a subida das taxas de juro para combater a inflação, os efeitos da guerra na Ucrânia na crise energética e no aumento dos preços da eletricidade e do gás natural, assim como a bazuca de 16,6 mil milhões de euros que Portugal recebeu da UE e que não se irá repetir nos próximos anos.


Por isso, são necessárias reformas já para preparar o futuro. "Vários estudos concluem que não existe sustentabilidade financeira do sistema de pensões de velhice com o sistema atual: um deles estima uma dívida implícita de 148% do PIB nos próximos 40 anos atribuível à Caixa Geral de Aposentações e uma dívida implícita de 73 a 104% do PIB do regime contributivo da Segurança Social", escreve o economista Abel Mateus. Para assegurar a boa saúde financeira do sistema público de pensões, a SEDES propõe: "O plafonamento das pensões, isto é, definir um teto a partir do qual o vencimento está livre de contribuições para a Segurança Social; incentivos a sistemas de poupança e capitalização; continuação da indexação da idade de reforma à esperança de vida; flexibilização da decisão de reforma e do trabalho pós-reforma".


Um dos principais objetivos da obra da SEDES é apresentar propostas para duplicar o PIB a cada 20 anos, tendo em conta que, desde 2000, a economia portuguesa estagnou. Significa que os portugueses têm hoje um nível de vida equivalente ao de há 20 anos: em 2000, o PIB per capita, em paridade de poder de compra e a preços de 2015, era 21 284 euros e, no ano passado, estava ainda em 21 850 euros por habitante.


A reforma do sistema de pensões é um dos motores do crescimento económico. Mas não só. O "choque fiscal", através da redução dos impostos, conjugado com a diminuição da despesa pública é outra das armas ao serviço do Estado para colocar a máquina outra vez a acelerar.


Pensões de velhice sofrem dura penalização e valem apenas 38% do salário daqui a 48 anos (dinheirovivo.pt)


Comentários

Notícias mais vistas:

"Denúncia caluniosa" transformou sete semanas de sonho na vida de um empresário em vários anos de pesadelo

 João abriu uma empresa em Portugal no final de 2019 ligada à compra e venda de bitcoins. Cumpriu todas as regras, mas viu as contas bancárias bloqueadas. Suspeitas de burla e branqueamento deram origem a um processo que só foi arquivado em 2024. O Ministério Público admitiu no despacho final que houve “denúncia caluniosa” e que a empresa tinha procedimentos de segurança além dos exigidos por lei. O que é certo é que a empresa fechou por culpa de uma justiça lenta. A pessoa “é condenada antes de qualquer conclusão”, lamentou à CNN Portugal o empresário Nasceu no Brasil, mas reside na Alemanha há mais de uma década. João (nome fictício) sempre se sentiu atraído pelo mundo do trading e pelas novas tecnologias. Decidiu abrir uma empresa de compra e venda de criptomoedas em Portugal, mas o sonho transformou-se num pesadelo. A empresa apenas funcionou sete semanas, mas esteve quatro anos perdido entre a Polícia Judiciária (PJ) e o Ministério Público (MP). Os montantes elevados de alguma...

Tekever vai ter drones a detetar incêndios no Canadá (mas não em Portugal)

 Um contrato com a Phoenix Heli-Flight vai permitir à Tekever ter drones seus a detetar incêndios florestais no Canadá. Em Portugal não tem sistemas envolvidos nessa vigilância. O drone da Tekever que vai ser utilizado no Canadá para vigiar florestas. A Tekever foi contratada pela Phoenix Heli-Flight para colocar drones seus a vigiar áreas no Canadá para deteção de incêndios. A empresa portuguesa, que já atingiu o estatuto de unicórnio, anunciou o contrato, mas “por razões de confidencialidade” não revela o número de sistemas envolvidos no contrato nem os detalhes, nomeadamente o seu valor. Ao abrigo deste contrato, “a Phoenix Heli-Flight irá utilizar o AR3”, que a empresa diz ser “altamente adaptável com sensores especializados, para apoiar a deteção, monitorização e o combate a incêndios florestais”, acrescentando que “o objetivo é disponibilizar informação operacional crítica em tempo real às equipas responsáveis pela resposta à emergência, contribuindo para uma deteção mais pre...

Calçada portuguesa mata mais em Lisboa: Carlos Moedas muda de passeios "progressivamente"

 Tese de doutoramento no ISCTE mostra que quedas no passeio estão na origem de muitas mortes por pneumonia Ricardo Antunes, sociólogo e doutorado em Sociologia, investigou as causas remotas de 1935 óbitos hospitalares: 944 em Lisboa e 991 em Beja. “Surpreendentemente, percebi que na capital há mais mortes por pneumonia”, relata à CNN Portugal. Essa constatação deixou-o surpreendido. “Como é que a região mais rica do país, com os hospitais mais diferenciados, os melhores técnicos e a melhor tecnologia de saúde, ainda tem tantos casos fatais de uma infeção respiratória como a pneumonia?”, questionou-se o sociólogo. Ao reconstruir a história clínica dos falecidos, encontrou um padrão. “As informações nos registos de saúde mostram, claramente, que um número significativo dessas vítimas tinha, na sua história recente, um episódio de queda na via pública”, relata o enfermeiro, que se doutorou em Sociologia no ISCTE, Instituto Universitário de Lisboa. Um dos capítulos da sua tese, sobre d...