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Wall Street começa a chamar a atenção para os "ecos" da pior crise do século

 

Para alguns investidores proeminentes, os paralelos com a crise dos subprimes parecem óbvios. Mas não há um consenso claro em Wall Street

Nova Iorque - Durante meses, investidores e analistas têm acompanhado de perto o obscuro setor financeiro conhecido como crédito privado, onde os sinais de alerta têm alimentado receios de uma repetição da crise financeira de 2008.

Ainda não é claro se estes alertas representam apenas alguns erros isolados ou uma fragilidade sistémica mais grave no setor de 1,8 mil milhões de dólares. Mas, se esta última hipótese for sequer remotamente possível, vale a pena perceber o que raio se está a passar.

Uma breve introdução ao "crédito privado"

De uma forma muito simples, o termo refere-se aos investidores que emprestam dinheiro diretamente a empresas privadas, sem passar pelos bancos. Os mutuários — geralmente pequenas empresas que os bancos considerariam demasiado arriscadas ou complexas para um empréstimo tradicional — pagam uma taxa de juro mais elevada em troca de um acesso rápido a capital e de condições de financiamento flexíveis.

Eis como geralmente funciona: as grandes gestoras de ativos (como a Blackstone, mais conhecida por comprar empresas na totalidade) reúnem fundos de grandes investidores, como fundos de pensões ou companhias de seguros, que procuram retornos mais elevados do que aqueles encontrados, por exemplo, no mercado obrigacionista. Estes fundos de crédito privado emprestam dinheiro diretamente a empresas que, de outra forma, teriam dificuldades em obter empréstimos.

Não é uma prática nova, mas tornou-se um negócio muito maior após a crise financeira de 2008, quando os governos endureceram as restrições de empréstimo aos bancos.

A questão é que os problemas de crédito privado podem rapidamente tornar-se problemas públicos.

"Há um conjunto opaco de empréstimos, em muitos casos, que suportam um conjunto opaco de empresas", afirma Steve Sosnick, diretor de estratégia da Interactive Brokers. "Podemos imaginar um cenário desagradável, mas relativamente benigno, como também podemos imaginar um cenário em que muitos erros são encobertos."

Embora a recente turbulência no crédito privado pareça isolada, Sosnick diz que a natureza interligada dos mercados financeiros faria com que um colapso de grandes proporções se tornasse um problema de todos, caso os mercados de crédito colapsassem e os bancos fossem forçados a contabilizar perdas.

"Isto não significa que estejamos condenados a um desastre no crédito privado que se desenrolará da mesma forma que o desastre dos subprimes", ressalva. Ao mesmo tempo, “há ecos” deste acerto de contas anterior.

Blue Owl, Blackstone e muito mais

Nas últimas semanas, os investidores em crédito privado têm exigido o reembolso dos seus investimentos, numa altura de crescentes preocupações de que os credores tenham sobrevalorizado os empréstimos ligados a empresas de alto risco — muitas delas empresas de software cujos negócios podem ser impactados pela inteligência artificial. Alguns analistas preveem que a IA provoque uma onda de incumprimentos entre as empresas de software e de serviços empresariais de média dimensão, que se tornaram especialmente atrativas para os credores privados durante a pandemia.

Grande parte da ansiedade em Wall Street centrou-se na gestora de ativos Blue Owl, que no mês passado foi atingida por uma onda de pedidos de resgate, o que a obrigou a suspender os resgates e a liquidar ativos para pagar aos seus investidores.

Embora a Blue Owl tenha tentado tranquilizar Wall Street, afirmando que a decisão não era um sinal de fraqueza, as ações da empresa sofreram uma forte queda, de 15% nas últimas duas semanas. As apostas de que as ações da Blue Owl vão cair ainda mais também aumentaram, com as chamadas posições curtas contra a empresa a atingirem um máximo histórico esta semana, de acordo com dados da empresa de análise S3 Partners.

A ansiedade voltou a aumentar esta semana depois de a Blackstone, gigante do private equity, ter sido obrigada a apressar-se a satisfazer os pedidos de resgate de 3,8 mil milhões de dólares do seu principal fundo de crédito privado. Segundo a Bloomberg, pelo menos 25 executivos de topo da empresa contribuíram com cerca de 150 milhões de dólares dos seus próprios bolsos para cobrir o desembolso.

As ações de outras gestoras de ativos alternativos, incluindo a KKR, a Ares Management e a Carlyle, também sofreram quedas.

“Este é o primeiro teste real do mercado”, afirma John Bringardner, editor-executivo da Debtwire. “As pessoas emprestavam com muita facilidade no período pós-covid, quando os mercados estavam inundados. O que estamos a ver é uma correção deste cenário.”

Os fantasmas de 2008

Para alguns investidores proeminentes, os paralelos com a crise dos subprimes parecem óbvios. Jamie Dimon, presidente do JPMorgan Chase, diz que algumas empresas estão a "fazer asneiras" e manifesta preocupação com as "baratas" no crédito privado. Mohamed El-Erian questionou na rede social X, no mês passado, se os problemas na Blue Owl seriam um sinal de alerta, um momento que remete para 2007.

Mas não há um consenso claro em Wall Street, e alguns gestores de fundos e analistas bancários consideram as preocupações exageradas.

"Precisamos de dar um passo atrás e colocar as coisas em perspetiva, isto não é assim tão grave", relativiza Bruce Flatt, CEO da Brookfield Corp., em declarações à Bloomberg esta semana. "Definitivamente, não é como em 2008, não tem nada que ver com 2008".

Ainda assim, a privacidade inerente ao crédito privado deixa muitas vezes um vácuo de informação que os observadores preenchem com cenários pessimistas. O crédito privado não é tão grande como o mercado imobiliário pré-2008, mas Bringardner acrescenta que existem "ecos" desse período na "exuberância irracional" em torno dos empréstimos nos últimos cinco anos, bem como na complexidade das estruturas financeiras que foram construídas em torno do setor.

“Ainda não vejo nenhum acontecimento fundamental que vá deitar abaixo toda a economia da mesma forma que vimos em 2008. Mas há muita coisa a acontecer”, sublinha Bringardner, apontando para a nova guerra no Médio Oriente que ameaça interromper o fornecimento de petróleo em todo o mundo. “Há simplesmente demasiada coisa a acontecer agora para que alguém tenha confiança nesta economia num futuro próximo.”

Neste momento, segundo Sosnick, os investidores inteligentes estarão em alerta máximo, de olho no crédito privado, sem entrar em pânico.

Há um ditado baseado numa frase de Ernest Hemingway que se aplica aqui, aponta o diretor de estratégia da Interactive Brokers. “Como é que faliu? ‘Devagar no início, depois tudo de uma vez.’ E é assim que estas crises se desenrolam”.


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