Avançar para o conteúdo principal

Governo avança com atualização de 0,9%, mas não vai atenuar compressão salarial


Alexandra Leitão, ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública. © EPA/ANTÓNIO PEDRO SANTOS


 Alexandra Leitão defendeu que ajustar remunerações imediatamente acima do salário mínimo seria uma medida estrutural, que o atual contexto político não permite.


Ao contrário dos últimos dois anos, o governo não irá em 2022 fazer ajustamentos além da base remuneratória única para atenuar o efeito de compressão nos salários das carreiras gerais da função pública devido à subida do salário mínimo, que deverá passar a 705 euros. A indicação foi dada ontem pela ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública, Alexandra Leitão, após o início de nova ronda negocial com os sindicatos da função pública ocorrida depois do chumbo da proposta de Orçamento do Estado para 2022 e perante a precipitação de eleições legislativas para 30 de janeiro, com o governo a preparar-se para governar em duodécimos no arranque do próximo ano.


"Aquilo que o governo entende este ano é que, fruto do contexto político que se vive, deveremos fazer apenas as atualizações. São atualizações em linha com a inflação para que não haja perda de poder de compra por parte dos trabalhadores da Administração Pública", indicou a ministra, reiterando o compromisso de atualização em 0,9% na generalidade dos salários públicos no próximo ano, assim como o ajustamento da base remuneratória da função pública, para que fique alinhada com o novo salário mínimo.


Frente Comum mantém greve de sexta-feira, apesar da promessa de atualização salarial geral de 0,9% em 2022.

Para além disso, ficam para já afastados ajustamentos salariais na posição remuneratória imediatamente acima do salário mínimo, que deverá ficar a uma distância de apenas quatro euros deste. "Tudo aquilo que sejam alterações de natureza excecional ou estrutural, entendemos que no atual contexto que não as devemos fazer", afirmou Alexandra Leitão.

Está em causa a quinta posição da tabela remuneratória única, cujo salário deverá ser atualizado de 703 para 709 euros e ficar, assim, a apenas quatro euros do valor de salário mínimo. Este irá ainda ser negociado na próxima semana em Concertação Social, mas o governo já fez saber por várias vezes que o plano é que este seja fixado em 705 euros no próximo ano.


Caso se confirme, será de apenas quatro euros a diferença de salário entre um assistentes operacional com dez anos de serviço face a outro acabado de entrar na carreira, ou entre os salários de entrada de assistentes técnicos e assistentes operacionais, sendo que os sindicatos saíram da reunião com o governo a manifestar a expectativa de que haverá margem orçamental, mesmo numa governação em duodécimos, para repor proporcionalidade remuneratória entre os dois níveis salariais (é isso que prevê, de resto, a Lei Geral de Trabalho em Funções Públicas). "Continuamos a acreditar que, mesmo que em duodécimos, haverá espaço orçamental para se manter a trajetória da correção das injustiças que vinham sendo corrigidas", defendeu José Abraão, secretário-geral da Fesap.


Para segunda-feira está marcada nova reunião negocial e, embora afastando para já as mudanças pretendidas, a ministra Alexandra Leitão disse também que esta não constituirá "um pró-forma". Em outubro, nas negociações anteriores à apresentação do Orçamento do Estado para próximo ano, a ministra começou por afastar uma atualização transversal de salários em 2022, acabando na reunião seguinte por confirmá-la.

O Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado, liderado por Helena Rodrigues, pretende também encontrar abertura ainda para uma subida no valor diário do subsídio de refeição, dos atuais 4,77 euros para 5,20 euros.

Já a Frente Comum, com greve convocada para sexta-feira, mantém a totalidade do seu caderno reivindicativo na mesa, e defende que a atualização de 0,9% nos salários mantida pelo governo "não apazigua" os protesto, segundo disse o coordenador, Sebastião Santana.

Além desta atualização, e do ajustamento pelo salário mínimo, a ministra deu também como certa a manutenção do propósito de assegurar a realização de dois programas de estágios na Administração Pública em 2022, visto que estes serão financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência.


De resto, caem vários compromissos negociais assumidos para o primeiro trimestre do próximo ano. Entre estes, a discussão da revisão da tabela remuneratória única, justamente, para reposição de proporcionalidade entre níveis remuneratórios, da reformulação do sistema de avaliação e de progressões da função pública, ou ainda a subida em 50 euros do salário de entrada de técnicos superiores, com valorização acrescida para doutorados.

Segundo Alexandra Leitão, será um caderno de encargos para repescar num cenário pós-eleitoral que devolva a governação ao PS.


https://www.dinheirovivo.pt/economia/nacional/governo-avanca-com-atualizacao-de-09-mas-nao-vai-atenuar-compressao-salarial-14306142.html

Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Flávio Bolsonaro terá recebido bitcoins da Atlas Quantum, pirâmide financeira que lesou portugueses

Rogério Correia (PT). Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados Vice-líder do governo Lula pede a Moraes nova investigação contra Flávio Bolsonaro  Deputado Rogério Correia quer que PF investigue suposto pagamento de bitcoins ao senador por empresa ligada à Atlas Quantum, acusada de fraude de R$ 7 bilhões O deputado Rogério Correia (PT) pediu investigação no Supremo Tribunal Federal (STF)Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados O deputado federal Rogério Correia (PT), vice-líder do governo Lula na Câmara, pediu ao ministro Alexandre de Moraes (STF) a abertura de uma nova frente de investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (PL). O pedido envolve um suposto contrato de consultoria jurídica que prevê o pagamento de 15 bitcoins ao parlamentar por uma empresa ligada à Atlas Quantum, acusada de provocar prejuízos de aproximadamente R$ 7 bilhões a investidores. A representação solicita que a Polícia Federal (PF) investigue a autenticidade do contrato e rastreie as movimentações finan...

Digi admite sair de Portugal se não tiver condições para concorrer e apela a Anacom que reconsidere prorrogação automática das licenças

O estudo da Lisbon Economics, apresentado por Abel Mateus, conclui que a proposta de renovação do espectro da Anacom congela a estrutura do mercado móvel até à década de 2040.  A Digi mostra-se surpreendida com a iminência de ver as licenças dos operadores de telecomunicações Meo, NOS e Vodafone renovadas automáticamente pela Anacom, alegando que não foi essa a expetativa que teve quando investiu em Portugal e participou no leilão da quinta geração de rede móvel. E apela para que a Anacom, a Autoridade Nacional de Comunicações, reconsidere a decisão de prorrogar automaticamente os direitos de espectro dos três maiores operadores, em nome da concorrência leal. O apelo foi feito esta sexta-feira, em Lisboa, pelo diretor executivo do grupo Digi, Valenti Popoviciu, num encontro com a imprensa portuguesa, que contou com a presença do antigo presidente da Autoridade da Concorrência (AdC), Abel Mateus, que apresentou um estudo feito pela Lisbon Economics, a pedido da Digi, e de acordo com...