Avançar para o conteúdo principal

Depois do turismo, Bruxelas receia agora pela indústria automóvel portuguesa


Mangualde, 22/02/2020 - Ministro da Economia Pedro Siza Vieira , no Roteiro Automóvel, visita a PSA. © João Silva/ Global Imagens


 Comissão Europeia avalia o pós-ajustamento da troika. Diz que Portugal deve escapar a um novo confinamento pesado porque vacinou muito.


Depois do turismo, setor que continua a lutar pela recuperação completa na sequência da devastação provocada pela pandemia, Bruxelas receia agora e cada vez mais pela retoma da indústria automóvel portuguesa, refere um novo estudo com a chancela da Comissão Europeia (CE), publicado ontem no âmbito do novo ciclo de avaliações do chamado semestre europeu.


No relatório de vigilância ao pós-ajustamento económico e financeiro da troika, os economistas que seguem o País (os europeus farão este acompanhamento até que grande maioria da dívida do resgate esteja paga pois Portugal ainda deva à Comissão e à zona euro cerca de 50 mil milhões de euros), alertam que "é provável que o crescimento de Portugal seja mais moderado na segunda metade de 2021".


Os serviços da CE tomam nota de "um maior alívio de restrições no terceiro trimestre do ano, o que apoiou a recuperação no setor dos serviços", mas observam que "ao mesmo tempo, as vendas a retalho abrandaram e a produção industrial até diminuiu nos meses de verão devido aos estrangulamentos nos fornecimentos globais de componentes e matérias primas, atingindo em particular a indústria automóvel".


"No setor do turismo, embora as dormidas dos residentes tenham recuperado fortemente em julho e agosto e excedido mesmo os níveis pré-pandémicos, as visitas de turistas estrangeiros evoluíram a um ritmo muito mais fraco e permaneceram muito abaixo dos níveis da pré-pandemia", acrescenta a nova avaliação.


Mas é na indústria automóvel que a equipa de analistas da CE se detém. Se o turismo é problemático, a produção de carros e componentes pode ser mais ainda, sobretudo porque se trata de um setor (cluster) de alta intensidade tecnológica, de alto valor acrescentado, um dos setores que mais exporta e um criador de emprego de grande magnitude.


Para a CE, "o crescimento do emprego em Portugal deverá ser moderado à medida que as medidas de apoio públicas vão expirando". "O mercado de trabalho beneficiou de forma significativa com os esquemas de lay-off durante a pandemia, bem como de dois regimes adicionais para a normalização da atividade e a retoma progressiva", e isto já numa fase de "abrandamento gradual das restrições do confinamento".


"Como a maioria destes esquemas ficaram em vigor até ao final de setembro de 2021, alguns dos empregadores puderam manter o nível de emprego, mesmo após a eliminação gradual do apoio público."


Auto-crise?


"Isto aplica-se particularmente ao setor do turismo, mas também aos fabricantes de automóveis". A CE repara que ambos os setores estão sob stress, mas os industriais do automóvel, em especial, estão a "pedir ao governo que alargue as medidas de apoio na sequência da crise da escassez global de semicondutores, que pode levar a uma nova vaga de lay-offs na indústria automóvel", avisam os peritos.


"Esperamos que a recuperação económica global mantenha uma dinâmica favorável também no mercado de trabalho, embora a um ritmo bastante lento", rematam. Por isso, "a atualização de competências e as necessidades de requalificação dos trabalhadores continuarão a ser essenciais para facilitar a mobilidade da mão-de-obra entre setores."


Em todo o caso, a economia portuguesa, não sendo das mais fortes da Europa, parece estar, para já num caminho menos acidentado do que outras em termos de retoma. Tudo por causa da alta taxa de vacinação, uma das mais elevadas do mundo, aliás.


"De uma maneira geral, a situação económica de Portugal melhorou por comparação com a situação na altura da missão anterior e as perspetivas de crescimento para 2021 parecem mais favoráveis."


Embora o turismo estrangeiro e os estrangulamentos que complicam a produção de veículos automóveis persistam, "outros setores da economia têm superado as nossas expectativas".


A CE destaca o facto de "a maioria dos indicadores do mercado de trabalho terem já atingido os níveis pré-pandemia" e congratula-se com o facto de "a criação de emprego em alguns setores industriais e na construção, bem como em alguns serviços que não passam pelo contacto físico entre pessoas [podem ser feitos remotamente e em teletrabalho], terem mais do que compensado a destruição de empregos no turismo".


Assim, segundo as previsões de outono da Comissão, "o produto interno bruto (PIB) deverá aumentar 4,5% em 2021 e 5,3% em 2022. Os riscos que pendem sobre o crescimento ainda estão inclinados para o lado negativo, mas parecem mais equilibrados do que antes, graças à elevada taxa de vacinação em Portugal, que deverá reduzir o risco de imposição de novas restrições pandémicas", elogia Bruxelas.


Luís Reis Ribeiro

https://www.dinheirovivo.pt/economia/depois-do-turismo-bruxelas-receia-agora-pela-industria-automovel-portuguesa-14350082.html

Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Open Cosmos capta 300 milhões e “vai acelerar investimento em Portugal”

 Empresa britânica tem 50 milhões para investir em Portugal, onde pretende duplicar a equipa de 50 para 100 pessoas. Com este novo financiamento, esse plano vai "acelerar". A britânica Open Cosmos fechou uma ronda de 300 milhões de euros para acelerar a ligação a partir do Espaço. Portugal é “uma das quatro localizações core” da empresa, mercado onde tem previsto um investimento de 50 milhões. “Este financiamento vai apenas acelerar este investimento”, diz fonte oficial ao ECO/eRadar. “Portugal é uma das quatro localizações core da Open Cosmos. Tal como anunciámos anteriormente, a equipa em Portugal é constituída por 50 pessoas, e planeamos dobrar a equipa e investir 50 milhões no país”, adianta a mesma fonte. Com quatro fábricas no Reino Unido, Grécia, Espanha e Portugal, com 400 trabalhadores, e capacidade para fabricar um satélite por dia, a empresa tem vindo a lançar uma nova geração de satélites para a OpenConstellation, procurando reduzir o tempo de entrega de produtos ...

Energia nas rochas: será o subsolo a bateria de que precisamos para a transição energética?

Direitos de autor AP Photo/Ross D. Franklin Um estudo de investigadores portugueses analisou diferentes possibilidades de armazenamento de energia com ar comprimido em rochas porosas em profundidade. No melhor cenário, um reservatório poderia armazenar energia suficiente para o consumo de uma pequena cidade. Armazenar energia no subsolo: parece ficção científica mas é uma prática que não é propriamente nova no contexto da investigação geológica. Conhecida desde a década de 70 do século passado com as primeiras experiências em cavernas de sal na Alemanha, o processo representa um mundo de possibilidades no campo da energia renovável e da necessidade de armazenamento que este acarreta. "Um dos problemas que existe com a transição energética é a existência de uma maior disponibilidade de energia de fontes renováveis, que não é possível ser armazenada", explica à Euronews Ricardo Pereira, investigador do GeoBioTec da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisb...