Avançar para o conteúdo principal

Dormir numa bagageira


José Soeiro


 O aparato da tecnologia avançada organiza as mais indignas regressões sociais. Radical é uma bagageira ser o quarto de um trabalhador


De visita a Lisboa, John chamou um Uber mal chegou ao aeroporto. O carro veio buscá-lo, conta-nos a última edição do Expresso, mas o motorista resistiu a pôr as malas do turista na bagageira. Insistência de um lado e renitência do outro, houve uma altercação, até que a PSP interveio e exigiu que o motorista abrisse a bagageira do carro. Dentro dela, estava um homem - um outro motorista, que faz daquela bagageira o seu quarto, recanto possível para repousar o corpo. Segundo o jornal, não é caso único. A situação é comum entre os migrantes do Indostão a trabalhar para a Uber.


Eis a condição extrema dos trabalhadores da gig economy num país europeu do século XXI. Lisboa, paraíso dos nómadas digitais, capital da Web Summit, viveiro de “unicórnios”, sede do centro tecnológico europeu da Uber, “modelo de ouro” das plataformas: cidade sem teto para quem trabalha. Por mais algorítmica que seja a atividade das aplicações digitais, por mais desmaterializados na “cloud” que sejam os seus mecanismos de controlo, as multinacionais de TVDE não sobrevivem sem o trabalho vivo de mais de 60 mil motoristas no nosso país. Os lucros extraídos a cada viagem formam-se à custa do esmagamento do que é pago aos “parceiros” que executam o trabalho que as plataformas vendem aos consumidores: transportar passageiros.


Somada à crise da habitação - transformada também num ativo financeiro disputado em mercados internacionais de investimento e especulação - esta exploração brutal tem um preço pesado: reenviar-nos ao pior do século XIX. Com horários de 10, 12 ou 14 horas, com os custos do carro e do combustível a seu cargo, com a percentagem sugada pelas multinacionais e pelos intermediários a cada corrida, a remuneração dos migrantes que conduzem os carros não chega sequer para sustentar as mais elementares condições de existência. Como ter uma cama.


O outro lado desta “nova economia”, parte intrínseca do seu “modelo de negócio”, é este esclavagismo digital. A ausência de habitação e os migrantes empilhados em quartos ou a dormir por turnos em bagageiras fechadas, num carro que não pode parar de rodar, são o reverso da monocultura do turismo e da desregulação laboral da economia uberizada. São a sua forma de vida.


Impor contratos de trabalho, tabelar tarifas de viagens, estabelecer contingentes de carros disponíveis, fixar tetos máximos para as rendas, impedir a venda de casas a quem não pretende viver no país nem habitá-las - tudo medidas radicais, indignam-se alguns… Mas reflitamos bem sobre a barbárie perante os nossos olhos. Não há contradição mais radical do que o aparato da tecnologia avançada ser o instrumento que organiza as mais indignas regressões sociais. Radical é uma bagageira ser o quarto de um trabalhador.


Dormir numa bagageira - Expresso

Comentário do Wilson:

Os parceiros da UBER e BOLT tem as suas margens espremidas porque ao contrário dos Taxis que não pagam quase nenhum imposto, os parceiros/donos do carro UBER pagam todos os impostos e mais algum, assim a maior parte do dinheiro que pagamos por uma viagem de UBER vai para o Estado sob a forma de impostos enquanto que os Táxis gozam de privilégios que acabam por fomentar Máfias devido à protecção que a limitação de licenças camarárias concede.

Nos transportes públicos existem filhos e enteados e os TVDEs (UBER e BOLT) são os desgraçados enteados extorquidos pelo Estado que se vergou à Vontade dos Taxistas que não queriam concorrência.

Assim, a única forma de conseguir sobreviver como TVDE é o motorista trabalhar 12 horas por dia e o carro trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana dividido por apenas 2 motoristas.

os parceiros e motoristas TVDE tem que ter formação específica e seguros específicos como os Táxis mas não recebem nenhum dos privilégios que os Táxis recebem.

Não foi isso que que foi idealizado por estas plataformas. o objectivo original era que qualquer pessoa pudesse usar o seu carro nos tempos livres para ganhar mais algum dinheiro complementar ao seu emprego ou enquanto procura emprego, mas os impostos e investimentos que o Estado obriga estes operadores a fazer (formação, seguro, carro novo (não pode ter mais de 7 anos enquanto que nos Táxis não há limite de idade) etc). faz com que só se possa olhar para esta actividade como actividade profissional, a tempo inteiro, para tentar compensar o investimento, nem que para isso se tenha que dormir na bagageira do carro.

A culpa não é das plataformas, a culpa é do Estado que não trata os TVDE como transportes públicos carregando-os de impostos, taxas e taxinhas que os outros transportes como os Táxis, estão isentos (desde os impostos sobre o combustível até os impostos sobre o automóvel os TVDE tem que pagar como qualquer particular com a agravante de terem que pagar a referida formação, seguro especial e obrigação de terem que ter sempre carros novos).



Comentários

  1. Respostas
    1. É verdade, mas não ouço nenhum político a defender os TVDEs no sentido de aproximar o seu sistema fiscal aos dos Táxis, igualmente preocupante são os Táxis não terem querido aderir a nenhuma destas plataformas que lhes permitiria aumentar a segurança e praticar preços transparentes.

      Eliminar

Enviar um comentário

Notícias mais vistas:

"Decadência é tão grande que chega a ser difícil esconder". Agora Putin tem mesmo de jogar mas "todas as opções são más"

 De baixas catastróficas na frente de combate a um descontentamento popular impossível de abafar, a máquina de guerra da Rússia está a mostrar sinais de que não está nas melhores condições. Especialistas e até os mais fervorosos propagandistas do regime admitem que o presidente russo está sem opções Os sinais de insatisfação começam a multiplicar-se em Moscovo. Quando uma influencer com 13 milhões de seguidores fez um vídeo a falar da frustração popular, os alarmes começaram a soar no Kremlin. E o pior é que esta jovem não está sozinha. Para dezenas de milhões de russos a guerra deixou de ser um evento televisivo e passou a ser uma realidade diária. Os apagões de internet impostos pelo regime estão mesmo a acontecer, a inflação tornou-se impossível de mascarar e os ataques de drones ucranianos de longo alcance desfizeram o mito da supremacia militar russa. Algo está a mudar na Rússia de Putin e os especialistas alertam que esta espiral de desgaste pode colocar em causa a própria so...

NVIDIA vai lançar o seu primeiro processador, e vai ser… Grave!

  A Nvidia vai lançar o seu primeiro processador para PC e a promessa é esmagar tudo na Computex! – O mercado dos computadores portáteis e de secretária prepara-se para sofrer um abalo sísmico já na próxima segunda-feira. Ou seja, depois de anos a fio a dominar por completo o mundo das placas gráficas e dos servidores de Inteligência Artificial, e de agora também ser a peça mais crítica no mundo da IA, a NVIDIA aliou-se à Microsoft e à Arm para anunciar aquilo que chamam de uma “nova era do PC”. Ainda nada está confirmado, mas através de publicações enigmáticas nas redes sociais que apontam diretamente para as coordenadas da feira Computex 2026, em Taiwan, é óbvio que vamos ver um anúncio em grande. Agora resta perceber se é algo para rivalizar com a AMD e Intel em tudo e mais alguma coisa, ou se vai se ruma “coisa” mais ao estilo da Apple e Qualcomm. O monstro N1X com gráficos Blackwell ao nível de uma RTX 5070? Portanto, esta jogada da Nvidia não é propriamente uma surpresa total...

Rússia emite mandado de captura contra ex-ministro da Defesa britânico

 Moscovo, 13 mai 2026 (Lusa) - O Ministério do Interior da Rússia emitiu hoje um mandado de captura contra o ex-ministro da Defesa do Reino Unido Ben Wallace por um processo penal não especificado. A agência espanhola EFE relatou que Wallace apareceu hoje na base de dados do Ministério do Interior, que não especificou o motivo para a emissão da ordem, embora a imprensa russa indique que se deve muito provavelmente à sua posição em relação à guerra na Ucrânia. ”É procurado ao abrigo de um artigo do Código Penal”, indicou o ministério, referiu a agência russa TASS, acrescentando, citando fontes de segurança, que o motivo pode ser um caso de terrorismo. De acordo com a imprensa russa, o antigo ministro da Defesa britânico, que exerceu o cargo entre 2019 e 2023, apelou no ano passado ao lançamento de ataques contra a península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014. O Kremlin (presidência russa), que hoje voltou a pedir à Ucrânia que retire as suas tropas de todos os territórios ucran...