Avançar para o conteúdo principal

Será o adeus ao GPS? Raios cósmicos usados para navegação subterrânea ou subaquática


O GPS é uma poderosa tecnologia de navegação, mas não funciona tão bem no interior de edifícios, no subsolo ou debaixo de água. Agora, engenheiros japoneses desenvolveram e testaram uma tecnologia alternativa que utiliza raios cósmicos para localizar movimentos por baixo de um edifício com uma precisão de alguns metros.

Ilustração dos raios cósmicos que serão usados para evoluir o conceito GPS

MuWNS: Um dia já não usaremos o GPS para navegar

GPS utiliza uma rede com dezenas de satélites em órbitas precisas à volta da Terra, e os recetores em dispositivos como os telemóveis estão constantemente à escuta dos sinais destes satélites. Os equipamentos podem calcular a distância a que se encontram de qualquer satélite GPS detetado e, quando captam sinais de pelo menos quatro deles, o aparelho pode determinar a sua posição relativa no solo com uma precisão de poucos metros.

Embora seja bastante preciso para o uso quotidiano, os sinais de GPS fazem ricochete nas rochas, na água e em superfícies como paredes, o que significa que o sistema perde precisão no subsolo, debaixo de água, no interior de edifícios ou mesmo apenas em áreas densamente construídas.

Como tal, os investigadores da Universidade de Tóquio desenvolveram uma nova tecnologia a que chamam sistema de navegação sem fios muométrico (em inglês muometric wireless navigation system ou MuWNS), que foi concebido para ser mais preciso nessas situações.

A chave do MuWNS é o facto de os "sinais" que está a seguir poderem atravessar materiais sólidos. Estes sinais são partículas conhecidas como muões, que são produzidas quando os raios cósmicos entram na atmosfera da Terra e interagem com partículas já presentes, criando uma cascata de partículas secundárias. E esta chuva é constante - estima-se que cada metro quadrado da superfície terrestre seja bombardeado com cerca de 10.000 muões por minuto.

muão é uma partícula elementar semelhante ao eletrão, com carga elétrica -1 e um spin de 1⁄2, mas com uma massa muito maior (105,7 MeV/c2). É classificado como um leptão, assim como o eletrão (massa de 0,511 MeV/c2), o tau (massa de 1777,8 MeV/c2), e os três neutrinos. Como é o caso com outros leptões, não se acredita que o muão tenha qualquer sub-estrutura; ou seja, não apresenta quaisquer partículas mais simples.

 

Sinal cósmico que atravessa superfícies sólidas até 100 metros

A equipa testou o MuWNS nas profundezas de um edifício de vários andares, onde o GPS normal teria dificuldade em manter a sua precisão. Um cientista com um detetor de muões portátil foi enviado para a cave de um edifício e a posição desse detetor foi seguida através de quatro estações de referência no sexto andar do edifício.

Imagem de dispositivo que poderá acabar com o tradicional GPS

Uma equipa do MIT projetou o CosmicWatch, um detetor de muões acessível e de bolso

Estas estações de referência funcionavam como satélites GPS - ao seguir os caminhos dos muões captados por cada estação e pelo detetor, a posição do cientista podia ser traçada com um elevado grau de precisão. Segundo a equipa, ainda há muito espaço para melhorias.

A precisão atual do MuWNS situa-se entre 2 m e 25 m, com um alcance de até 100 m, dependendo da profundidade e da velocidade da pessoa que caminha. Isto é tão bom, se não melhor, do que o posicionamento GPS de ponto único acima do solo em áreas urbanas. Mas ainda está longe de ser um nível prático. As pessoas precisam de uma precisão de um metro, e a chave para isso é a sincronização do tempo.

Explicou o Professor Hiroyuki Tanaka, autor principal do estudo.

Os investigadores afirmam que este problema pode ser corrigido com relógios atómicos que se encaixam em dispositivos portáteis, que estão em desenvolvimento, mas que são atualmente demasiado caros para uma utilização generalizada.

Os outros componentes utilizados já podem ser miniaturizados. A experiência também só seguiu o percurso do investigador após o facto, mas trabalhos futuros investigarão a possibilidade de o fazer em tempo real.

Nos últimos anos, os detetores de muões também ajudaram os cientistas a penetrar no interior de estruturas sólidas, como a Grande Pirâmide de Gizé, e a testar um sistema preciso de sincronização de relógios que funciona no subsolo e debaixo de água.

Esta última experiência mostra que, um dia, esta tecnologia poderá ajudar a aumentar o GPS em áreas onde atualmente não funciona bem. 


Será o adeus ao GPS? Raios cósmicos usados para navegação subterrânea ou subaquática (sapo.pt)


Comentários

Notícias mais vistas:

Construção da maior central solar em Portugal encravada há mais de dois anos na justiça, apesar de aprovada

Santa Luzia in northeastern Brazil.  EPA/SEBASTIAO MOREIRA  Desde 2024 que a autorização ambiental dada à central solar Fernando Pessoa foi suspensa por decisão do juiz e após impugnação do Ministério Público. Agência do Ambiente recorreu, mas não há decisão. A maior central solar aprovada para Portugal, com mais de mil megawatts (MW) de potência, está parada há mais de dois anos, na sequência de processos judiciais colocados contra a aprovação emitida pelas autoridades ambientais. A atribulada história do projeto, que foi batizado com o nome do poeta Fernando Pessoa, mostra que o licenciamento ambiental — por intervenção da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ou do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza de Florestas) — nem sempre é o maior obstáculo à execução dos projetos de energias renováveis. A central solar fotovoltaica Fernando Pessoa está prevista para o concelho de Santiago do Cacém e obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada em jane...

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Governo assina contrato para DSTelecom levar fibra ótica a todo o país

Miguel Pinto Luz evidenciou que este projeto vai 'tornar viável viver e trabalhar fora das áreas metropolitanas'. - Luís Manuel Neves / Medialivre O Governo já assinou o contrato que vai permitir que a DSTelecom equipe Portugal com rede de fibra ótica, eliminando a atual fragmentação - as chamadas áreas brancas - que se tem sentido no acesso a internet, especialmente àquela de alta velocidade. O contrato foi assinado com as cinco Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional e a operadora que ganhou o concurso internacional em 2025. A DSTelecom vai ficar responsável pela instalação, gestão, exploração e manutenção das redes de comunicações eletrónicas de capacidade muito elevada, tendo o objetivo de dar cobertura a todo o território nacional. De acordo com o Executivo, esta instalação e consequente implementação visar levar internet mais rápida a edifícios residenciais e não residenciais, nomeadamente à indústria, comércio e atividades agrícolas. Em comunicado, o ministro...