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Salto na inflação em Portugal já é dos maiores da zona euro



 Taxa de inflação portuguesa dispara para 7,4% em abril e já está em linha com a da zona euro. Crise nos preços dos combustíveis e alimentos já contamina os outros bens e serviços, indica o INE.


O salto registado entre a inflação homóloga harmonizada de abril de 2021 e igual mês deste ano foi o sétimo mais elevado da zona euro, indicam cálculos do Dinheiro Vivo com base na informação já disponível para os 19 países da moeda única, ontem divulgada pelo Eurostat.


Ontem também, o mesmo gabinete das estatísticas europeias mostrou que Portugal é o país que mais cresce (no primeiro trimestre face a igual período de 2019) num conjunto de 11 nações já apuradas, o que faz com que Portugal acentue o ritmo de convergência com a zona euro.


No entanto, este processo acontece ao mesmo tempo que a inflação também ela está a convergir com a média europeia, o que, ao contrário do crescimento económico, é altamente indesejável, sobretudo quando muitos países já registam explosões nos preços de dois dígitos.


Em abril do ano passado, antes desta crise bélica (que já dura há mais de dois meses, a invasão da Ucrânia pela Rússia ocorreu a 24 de fevereiro) e das matérias-primas, muitas delas alimentares, ter rebentado, a inflação portuguesa caiu 0,1%, em termos homólogos.


Nessa altura, começo da primavera de 2021, o país tentava reerguer-se do longo e mortífero inverno pandémico e o esmagamento de preços era evidente em vários setores da economia. Na zona euro, a inflação estava nuns meros 1,6%, bastante abaixo até do limite de 2% do Banco Central Europeu (BCE).


Mas, depois do verão do ano passado, alguma coisa de fundamental mudou. O trânsito de matérias-primas começou a ficar congestionado, os custos de transportes começaram a aumentar, começaram a faltar produtos ou a serem cobrados preços muito mais altos do que era considerado normal. Tem sido assim no caso dos fertilizantes agrícolas e das rações animais há meses, ainda a guerra da Rússia contra a Ucrânia não tinha começado.


Como referido, acabou o verão e a taxa de inflação da zona euro começou a ganhar velocidade, tendo chegado a 7,4% em março e 7,5% em abril.


Em Portugal, os preços reagiram mais devagar (vários economistas dizem que o país não é tão dependente da energia da Rússia e dos fornecimentos alimentares da Ucrânia como o são muitos países bálticos e do leste europeu), mas em abril deu-se o salto determinante: a taxa de inflação portuguesa avançou 1,9 pontos percentuais, para 7,4%. É dos maiores aumentos intramensais de que há registo e o valor 7,4% é dos maiores de sempre também.


Este salto repentino da taxa de inflação em abril, em Portugal, foi o sétimo mais pronunciado da zona euro quando se compara com a realidade de há um ano (abril de 2021). Os países mais afetados pela explosão nos preços são, como já referido, os três estados bálticos e a Grécia, todos com agravamentos da inflação na ordem dos dois dígitos.


Em abril, a maior taxa de inflação da zona euro era a da Estónia, com uns impressionantes 19%, seguida de perto pela Lituânia, com um salto de quase 17% nos preços no consumidor em abril último.


Estes números referem-se todos à variação do Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC), a medida que permite comparar entre os vários países europeus.


O Instituto Nacional de Estatística (INE) calcula a taxa de inflação dita normal e essa também disparou. O INE explicou que "tendo por base a informação já apurada, a taxa de variação homóloga do Índice de Preços no Consumidor (IPC) terá aumentado para 7,2% em abril (5,3% em março)". O valor de abril é "o mais elevado desde março de 1993", revela o INE.


Além disso, percebe-se que é agora, em abril, que Portugal começa a sentir, finalmente, o embate mais completo da crise energética e de matérias básicas.


"O indicador de inflação subjacente (índice total excluindo produtos alimentares não transformados e energéticos) terá registado uma variação de 5% (3,8% no mês anterior), registo mais elevado desde setembro de 1995", diz o INE. Isto significa que a inflação nos combustíveis e na alimentação já está a contaminar o resto da economia e os custos de outros bens e serviços ao nível do consumidor final, das famílias.


Segundo o instituto, "estima-se que a taxa de variação homóloga do índice relativo aos produtos energéticos se situe em 26,7% (19,8% no mês precedente), valor mais alto desde maio de 1985", ao passo que "o índice referente aos produtos alimentares não transformados terá apresentado uma variação de 9,5% (5,8% em março)".


Economia também inflaciona, mas até quando


Ao mesmo tempo que a inflação emerge, também o valor da economia sai inflacionado, para mais quando se compara com o ano passado, altura de crise grave por causa da pandemia.


De acordo com o INE, "o Produto Interno Bruto (PIB), em termos reais, registou uma variação homóloga de 11,9% no primeiro trimestre de 2022 (5,9% no trimestre anterior)", um ritmo muito elevado (o segundo mais alto das séries do INE, que remontam a 1995), mas porque "reflete em parte um efeito de base dado que, em janeiro e fevereiro de 2021, estiveram em vigor várias medidas de combate à pandemia que condicionaram a atividade económica".


Seja como for, com este salto no primeiro trimestre, Portugal conseguiu (não se sabe se de forma permanente) apagar a destruição de valor (PIB) do tempo da pandemia.


Muitos economistas, como é o caso do Conselho das Finanças Públicas, estão a avisar que o processo inflacionista em curso pode derrubar o crescimento mais à frente e contaminar as contas públicas, obrigando a mais despesa e a novos cortes nas receitas.


O BCE também já alertou que a inflação pode ser muito maior do que está agora. A prazo, os países podem ser arrastados para uma nova crise, estagnações ou mesmo recessões, depende da escalada na guerra e da recuperação dos danos entretanto infligidos nas várias economias através dos preços da energia e das sanções.


Luís Reis Ribeiro

Salto na inflação em Portugal já é dos maiores da zona euro (dinheirovivo.pt)


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