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Já há fábricas a parar por falta de matérias-primas e de produtos para embalagem



 São ainda os efeitos da disrupção das cadeiras de abastecimento provocada pela pandemia, agravados pela guerra na Ucrânia e a crise energética, que estão a criar graves dificuldades às empresas, com os custos a disparar e os tempos de entrega dos produtos a triplicar.


Ilídia Pinto


A falta de semicondutores foi o primeiro sinal e condicionou duramente a capacidade produtiva de indústrias como a automóvel, obrigando a paragens de toda a cadeia. Mas, com o estender da pandemia, que continua a obrigar a confinamentos em vários países asiáticos, a desregulação das cadeias logísticas e, agora, o efeito guerra na Ucrânia, a falta de matérias-primas e outros bens já se estende a diversos setores, obrigando mesmo as fábricas a parar.


A escassez de vidro pode pôr em causa as exportações de vinho, e até a disponibilidade de espumante no mercado no final do ano, garante a ViniPortugal, mas há toda uma série de outras indústrias com problemas. Luís Onofre, presidente da associação do calçado, diz que "falta tudo, pessoas para trabalhar, quadros técnicos, materiais como o plástico ou o aço" e que "vamos pagar caro a falta de acesso da Europa às matérias-primas". Nos têxteis, a situação "está caótica", com os corantes e outros químicos a "preços altíssimos", a fatura energética a custar 5 ou 6 vezes mais do que há um ano e a falta de fio a obrigar a algumas paragens estratégicas. Na metalurgia e metalomecânica, a maior preocupação prende-se com a obtenção de aço, alumínio e outros metais como o titânio, estanho e cobre, enquanto no agroalimentar são sobretudo os materiais de embalagem que mais preocupam. Mas Pedro Pimentel, da Centromarca, mostra-se convicto de que não irão faltar produtos no mercado.


Metal: constrangimentos na cadeia automóvel

A metalurgia e metalomecânica, campeã nacional das exportações, continua a bater recordes nos mercados internacionais: em março conseguiu "o melhor registo da história", com 1983 milhões de euros, e acumula, no primeiro trimestre, um crescimento homólogo de 6,5% para 5434 milhões. Para a associação AIMMAP, a explicação está na "maior capacidade de adaptação" das empresas portuguesas, que estão a "gerir melhor a crise" do que os concorrentes. Mas há dificuldades, designadamente na obtenção de aço, alumínio e metais para ligas, como o titânio, estanho e cobre.


"O preço aumentou e é mais difícil comprar uma série de matérias-primas mas, na generalidade, o setor está bem estruturado e tem gerido, bem como o stock de matérias-primas, garante Rafael Campos Pereira. Mais pressionados estão os subsetores dos produtos de consumo no mercado nacional, "com os consumidores a começarem a retrair-se" e os fornecedores do cluster automóvel alemão, que se abastece quase em exclusivo de cablagens na Ucrânia e a sua falta está a "limitar muito" a produção das marcas alemãs, com o consequente efeito no resto da cadeia.


Têxtil: "Situação começa a ser incomportável"

Com os preços dos produtos químicos e dos fios "sempre a subir" e os "problemas gravíssimos" de transporte a complicar uma situação que já de si não era fácil, por via do aumento da fatura energética, hoje 5 ou 6 vezes maior do que há um ano, o setor têxtil teme pelo seu futuro. Jorge Pereira, administrador da Lipaco, empresa de linhas para confeção, de Esposende, reconhece que há "problemas gravíssimos" e empresas que começam a desistir.


"É incomportável manter uma produção que tenha acabamentos de tinturaria e cuja fatura da energia disparou para seis vezes mais. Há dias em que preferimos estar parados do que a trabalhar, mas se esta situação se mantiver muito mais tempo, as empresas não têm grande futuro. Vão aguentando enquanto tiverem liquidez para continuar a perder dinheiro, mas diria que, se nada mudar, dentro de dois ou três meses as empresas começam a não conseguir continuar. A situação não é viável", diz o responsável, que só garante preços aos clientes por 24 horas. Jorge Pereira insta o governo a "encontrar soluções rapidamente" ou todo o setor pode estar em causa. "Os acabamentos representam 7 a 10 mil trabalhadores mas, se parar, é toda a fileira têxtil que fica em causa. E aí são 130 mil", alerta.


Calçado: "Falta tudo"

A indústria do calçado arrancou o ano com,"talvez, o melhor trimestre de sempre", com as exportações a crescerem 25,7% em valor e 20,7% em quantidade, mas isso tem custos, já que "não há capacidade" de resposta por parte dos principais fornecedores, seja de plástico, aço ou outros materiais usados nos componentes, para o acréscimo da procura. "Um sapato pode levar até 100 ou 200 peças distintas, desde as colas, as telas, os materiais para as palmilhas, para os saltos... É uma infinidade de artigos que, por norma, nunca nos falharam, mas agora percebemos que estamos muito mais dependentes da China e de outros mercados asiáticos do que imaginávamos", diz Luís Onofre, que admite que há empresas paradas "aos 15 dias", com milhares de pares por fazer em carteira, porque os materiais tardam em chegar. O próprio Onofre já sofreu na pele esta situação. "Já tive de parar várias vezes, dois dias aqui, uma semana ali. Temos sérios problemas para conseguir cumprir datas com os nossos clientes", sublinha.


Agroalimentar: empresas sob "enorme pressão"

A disrupção nas cadeias de abastecimento do agroalimentar vem já do ano passado, mas foi agravada pela invasão da Ucrânia, país do qual Portugal depende para 40% do seu abastecimento de milho. Mas não só. A guerra obrigou a procurar alternativas noutras geografias para o girassol e alguns óleos alimentares, o que tem vindo a ser conseguido, apesar da "enorme pressão" sobre os custos. "Os stocks de segurança continuam a ser os adequados e em rotatividade para cerca de três meses, mas estamos a acompanhar a situação", garante o presidente da FIPA, a federação das indústrias agroalimentares.


Também nos materiais de embalagem, como o plástico, cartão, papel, etc., a "disrupção tem sido enorme" com os fornecedores a terem dificuldade no cumprimento de prazos de entrega. No entanto, Jorge Henriques assegura que não há riscos de abastecimento ao mercado. "Quanto muito haverá alterações pontuais de referências", diz. Mas é a crise energética que mais preocupa, já que setores como as extratoras de óleos alimentares, ou indústrias dependentes da pasteurização, "altamente dependentes do gás natural", estão numa situação "bastante crítica", na medida em que "não são abrangidas pelas ajudas". Jorge Henriques fala em aumentos do gás de 485% desde setembro, impactos "impossíveis de passar" ao preço final e que "colocam em sério risco" as empresas.


Já o gerente da Navires, empresa de especiarias e ervas aromáticas, admite que a situação está um bocadinho caótica. Além dos artigos que duplicaram ou triplicaram preços, como a noz-moscada, pimenta ou zimbro, há produtos em falta, como a canela. E o que é simultaneamente um problema, que é o facto de importar 60 ou 70 produtos distintos de uma vintena de países, impedindo que consiga exercer pressão sobre toda a cadeia, acaba por se revelar uma mais-valia, já que a falta de um determinado produto não obriga a parar a fábrica, basta apenas direcioná-la para o embalamento de outro produto qualquer. O que não resolve a questão de base. "Está tudo completamente descontrolado. Nos últimos tempos é difícil que se consiga entregar uma nota de encomenda completa. Vai ser algo em falta", diz José António Mendes.


Os aumentos dos preços são "quase diários" e a revisão das tabelas é uma tarefa sem fim. "Estou a comunicar preços que já estão desatualizados porque todos os dias me caem em cima avisos de fornecedores... é o ajuste de 7,5% nas paletes, é o de 15% nos frascos em PET, é o de 20% na cartonagem. Já para não falar nos transportes. Um contentor da China a Leixões custava 2500 dólares, hoje fica por 12 500. Além de que não sabemos nunca quanto tempo vai demorar. Mas são seguramente três ou quatro meses, em vez de um e meio como era habitual. Isto dá cabo de qualquer planeamento que se tente fazer", sublinha.


Pedro Pimentel, diretor-geral da Centromarca, acredita que, apesar das dificuldades de abastecimento de alumínio, cartão ou vidro, não faltarão produtos alimentares no mercado. "As coisas já começam a estar mais calmas, julgo que passou o choque inicial. No limite, o consumidor, em vez de ter conservas em lata, terá conservas em vidro, ou algo assim. Já vi a situação um bocadinho mais assustadora do que agora", frisa.


Vinho: espumante em risco no Natal

No setor do vinho, faltam garrafas, faltam rótulos, faltam caixas. Uma situação ditada pela conjuntura atual, agravada pelo facto de os grandes produtores se terem precavido, antecipando compras. O presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão, admite inclusivamente que, no Natal, haja falta de espumante no mercado, já que estes vinhos já deveriam ter sido engarrafados - têm um estágio mínimo em garrafa de 9 meses - e muitos continuam na adega, por falta de garrafas. José Pedro Soares, presidente da CVR Bairrada, uma das regiões com maior peso nos espumantes, admite que "muitos produtores dificilmente conseguirão colocar os seus vinhos no mercado no final do ano", mas acredita que não vai faltar espumante. "Vai é haver menos e mais caro", diz.


Vidro: fábricas a trabalhar à capacidade total

A Associação dos Industriais de Vidro de Embalagem (AIVE) reconhece a existência de falta de garrafas no mercado, mas assegura que tal se deve a um "boom gigante" da procura, por parte de clientes como a indústria do vinho ou das cervejas, e não por limitações de produção dos seus associados. "Não há quaisquer constrangimentos a nível produtivo e as fábricas de vidro de embalagem em Portugal estão a funcionar na sua capacidade total", garante Beatriz Freitas, secretária-geral da AIVE.


Segundo esta responsável, a nível ibérico não houve redução da produção, durante o período da pandemia, embora seja natural que tenha havido "alguns ajustes" ao nível da tipologia de embalagens, para dar resposta à procura do mercado, num período que o próprio comportamento dos consumidores se alterou. Agora, e perante este "boom repentino" na procura, a AIVE reconhece que não é fácil para uma indústria como esta reagir com rapidez. "Um forno de fusão a produzir vidro para embalar não é coisa que de repente se ponha uma linha ao lado para produzir mais. Estamos a falar de processos fabris com dinâmicas complicadas e pesadas", explica.


Tal como não é fácil reduzir a produção para fazer face aos aumentos do custo do gás natural, uma situação "altamente preocupante e incomportável", diz. Um forno produz 24 sobre 24 horas, 365 dias por ano, e tem que manter sempre determinada temperatura estável. Mesmo que não esteja a produzir vidro para embalagem, tem de estar sempre "a cuspir" vidro, que depois será destruído e novamente integrado no processo produtivo. Parar um forno é destruí-lo.


A AIVE, que representa três empresas, com seis fábricas em Portugal (além de várias outras na Europa), que produzem 16 milhões de embalagens por dia e são responsáveis por 3500 empregos, diretos e indiretos, tem uma audiência pedida ao ministro da Economia para debater a crise energética.


A linha de apoio que o Estado abriu está "completamente desajustada" e não dá qualquer resposta às necessidades destas empresas, já que está limitada a um apoio máximo de 400 mil euros por fábrica quando os custos do setor, em Portugal, rondam - aos preços do gás natural em março - 500 milhões de euros, tendo aumentado para dez vezes mais no espaço de dois anos.


Para a AIVE a solução está na linha específica criada pela Comissão Europeia para os grandes consumidores de energia e que podem receber apoios de até 25 milhões de euros por fábrica, valor que poderá ser majorado até aos 50 milhões. "O Governo português não abriu esta linha, mas esta sim poderia ser uma ajuda para o nosso setor", diz Beatriz Freitas. Se nada for feito, as empresas não terão outra alternativa senão "começar a equacionar o fecho de algumas linhas de produção e, no limite, de fornos".


Cerveja: planeamento rigoroso para nada faltar

No mundo das cervejas não há falta de vidro ou de rótulos, só os constrangimentos ligados aos transportes e a pressão sobre os preços. A dimensão parece fazer toda a diferença. No caso da Central de Cervejas, as compras são feitas de forma centralizada pela casa-mãe, a Heineken. "Obviamente, aqui o volume e o peso fazem toda a diferença e a compra de grandes quantidades ajuda", diz Nuno Pinto de Magalhães, chairman da cervejeira.


Rui Lopes Ferreira, CEO do Super Bock Group, admite que a tensão existe, obrigando a um "planeamento cuidadoso e rigoroso". Ou seja, "se antes era possível pedir garrafas a qualquer momento, agora é mais difícil", frisa.


Já há fábricas a parar por falta de matérias-primas e de produtos para embalagem (dinheirovivo.pt)


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