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Cantor Fernando Daniel investe dois milhões de euros em Ovar para inaugurar estúdios com escola de cariz social


Foto: Estela Silva - Lusa


 O cantor Fernando Daniel inaugurou hoje em Ovar o complexo Nagana, que, tendo custado dois milhões de euros, inclui estúdios de música e uma academia que disponibilizará bolsas de apoio a talentos sem recursos financeiros para prosseguir estudos na área.


O novo equipamento cultural do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto está instalado no edifício da antiga discoteca Pildrinha, junto à Praia do Furadouro, e abrange uma área com cerca de 1.000 metros quadrados, pelos quais se distribuem três salas de aulas, duas régies, uma sala de ensaios, outra com 100 metros quadrados para captação, uma `vocal booth`, um estúdio de vídeo, um ciclorama e uma `tone library` -- assim como um bar interno, um lounge empresarial e, sob marcação, um museu sobre o percurso do cantor e ainda uma loja com artigos associados à sua marca.


Em declarações à Lusa, o cantor explica que o projeto começou a ser concebido durante a pandemia de covid, quando percebeu que lhe seria vantajoso dispor de estúdios próprios, e realça que o conceito sempre previu uma escola com diferentes escalões de propinas, como forma de responsabilidade social destinada a garantir a outros as condições de que ele próprio não beneficiou.


"Quando eu era miúdo, os meus pais não tinham muitas possibilidades e não havia sequer a hipótese de eu aprender música numa escola, portanto aprendi no computador das minhas irmãs, um daqueles que ainda era de torre e lia disquetes. Vi coisas no Youtube, quando aquilo era ainda muito arcaico; vi tutoriais e cantei em karaoke; vi como se tocava guitarra, piano, etc.; e fui aprendendo", recorda.


A perseverança também foi essencial, só que Fernando Daniel confessa: "Deu para aprender aquilo com que consegui construir a minha carreira, mas sinto uma lacuna na minha própria aprendizagem, porque há coisas em que os meus músicos são muito mais sábios e tenho esse handicap quando eles falam de coisas muito específicas. Isso faz-me pensar que a música é uma disciplina como qualquer outra e não deve ser por falta de meios dos pais que os filhos, a terem talento, devem deixar de aprender".


Ao fim de alguns anos a procurar uma colaboração com autarquias da zona "sem respostas concretas", o cantor decidiu avançar sozinho com o projeto que também visa "descentralizar oportunidades". O edifício da antiga discoteca do Furadouro revelou-se o local adequado e o artista iniciou então a requalificação a expensas próprias, mas, logo após os primeiros problemas no arranjo do telhado, percebeu que o investimento seria mais elevado do que previra. Recorreu assim a 15 empresas que atenuaram os custos da obra ao aceitarem ser suas parceiras, mediante a oferta de materiais desde revestimentos cerâmicos e tintas até mobiliário e decoração.


Serão essas e outras empresas a comparticipar também outras bolsas de estudo além das 10 asseguradas pessoalmente por Fernando Daniel, que assumirá ainda o encargo com os professores dos beneficiários desses apoios e com os instrumentos a ceder-lhes a título de empréstimo. A escola Nagana também funcionará, contudo, em regime normal, com propina inteira, de acordo com uma lotação que será definida a partir da próxima semana, depois de abertas as inscrições para o próximo ano letivo.


Na seleção dos alunos bolseiros -- crianças, jovens ou adultos -- influirá a análise da capacidade financeira do respetivo agregado familiar, o perfil psicológico de cada candidato e, sempre como "fator de desempate" em caso de limitação de vagas, o seu talento inato.


"Eu quero ser o mais justo possível porque me lembro de andar na escola e haver miúdos com escalão igual ao meu, mas, enquanto eu tinha que me levantar muito cedo e ia a pé, alguns deles chegavam de Porsche e tinham na mesma os livros de graça", conta o músico, garantindo: "Quero evitar esse tipo de coisas aqui".


Qualquer que seja a condição em que o estudante aceda à escola, certo é que o cantor propõe-se apoiá-lo no seu percurso não só académico, mas também profissional -- o que justifica, por exemplo, a componente museológica do complexo, que apresenta itens como o primeiro contrato assinado com a produtora do concurso televisivo "The Voice", em todo o seu detalhe jurídico.


Quanto ao nome desse novo equipamento cultural, Fernando Daniel diz que, apesar da grafia enquanto palavra única, a sua origem parte de duas palavras simples: "Um dia deu-me `na gana` ter o meu próprio espaço e foi assim. `Gana` significa querer, vontade, raça, e isso também caracteriza a forma como este estúdio nasceu".


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