O Auto ao Minuto foi recentemente visitar o CEiiA. O centro de engenharia sediado em Matosinhos encontra-se atualmente a desenvolver o mini-carro elétrico português BEN, mas a sua ligação ao setor automóvel é mais antiga.

A alguns metros da rotunda da anémona e do Parque da Cidade do Porto, encontramos um moderno edifício com um ar tecnológico na Estrada da Circunvalação em Matosinhos. É a sede do CEiiA, o centro de engenharia que está a desenvolver o mini-carro elétrico português BEN.
Recentemente, o Auto ao Minuto teve a oportunidade de conhecer o espaço, vendo de perto o trabalho de uma vasta equipa que vai bem mais além do setor automóvel - como constatámos durante uma visita guiada pela CTO Helena Silva.
Ficámos a saber que o Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto, fundado há duas décadas, deu os primeiros passos a trabalhar com a Pininfarina em 2006, tendo estado já envolvido também com a Ferrari e com a McLaren. Na altura, tinha a sede na Maia, mudando-se entretanto para um edifício próprio em Matosinhos além de ter um polo em Évora.
No setor automóvel e na mobilidade sustentável, também esteve envolvido noutros projetos como a plataforma Mobi.e (com o desenvolvimento do primeiro carregador de veículos elétricos com a Efacec), num projeto de valorização de emissões com a Uber, partilha de bicicletas ou no sistema integrado de mobilidade sustentável MobiCascais em Cascais. Mas também está presente na indústria aeroespacial e na aeronáutica com projetos diferentes.
Entrevista com Helena Silva
Helena Silva deu-nos uma detalhada entrevista, que vamos trazer em três partes. Nesta primeira, a responsável apresenta o CEiiA e a sua história até à ideia por trás do BEN.
O que que é o CEiiA?
O CEiiA é um centro de engenharia e desenvolvimento de produto, que desenvolve e "produtiza" produtos e serviços para indústrias de elevada intensidade tecnológica - desde a mobilidade, aeronáutica e espaço. E quando nós dizemos "produtiza", vamos desde o conceito - uma ideia nova - até ao seu protótipo. E estamos muito preocupados com a questão da entrada no mercado. Portanto, tudo o que tem a ver com processos de homologação - o que implica protótipos funcionais - e, depois, a preparação para a sua industrialização em larga escala.
Para as pessoas terem uma, uma ideia, qual é que é a dimensão do CEiiA em termos de recursos humanos, em termos de unidades de negócio - porque sei que não é só setor automóvel, é muito mais.
Sim. O CEIIA neste momento tem mais de 500... eu diria mais perto de 600 pessoas, nos seus quadros e cerca de trezentas nas suas empresas - ou seja, nos seus spin-offs. Estamos a falar de empresas, na área da mobilidade, como a Be.Neutral ou a BEN4US, na área da aeronáutica, como a Eliot e a AI Aircraft, e na área do espaço, como a GeoSat e a N3O.
Estamos a falar de empresas que surgem na sequência dos processos de valorização dos produtos e serviços que nós estamos aqui a desenvolver no CEiiA. E, hoje, muitas delas estão a operar no mercado, como por exemplo o caso da GeoSat, que opera no mercado, e a N3O, que já se está a preparar para industrializar os satélites. E, por exemplo, a Ben4Us, que neste momento está muito centrada em levar o nosso BEN para o mercado e para o operar, também, em parcerias.
E uma forte componente do CEiiA é reter e criar valor em Portugal.
Sim. O CEiiA foi criado há mais de 25 anos para desenvolver produtos e serviços que dessem origem a novas empresas com um centro de decisão no país. E isso é muito importante para poder reter talento pelas condições de maior valor que podemos oferecer e, também, reter valor no país do ponto de vista económico. Nós posicionamos aqui muito numa parceria mais a montante com as universidades, muito preocupados com a questão dos domínios científicos e a forma como podemos usar o novo conhecimento na integração de produtos que depois podem ser industrializados com a nossa indústria nacional.
Da Pininfarina até ao BEN
BEN junto da rotunda da Anémona em Matosinhos© CEiiA
Temos agora no setor automóvel o BEN como expoente máximo, mas o envolvimento do CEiiA no setor e na indústria automóvel é de há muitos anos. Parcerias com Pininfarina, também estiveram na origem da rede de carregamento elétricos. Pode fazer assim uma fita do tempo muito resumida?
O CEiiA foi criado com o desafio de desenvolver uma estratégia de desenvolvimento da indústria automóvel em Portugal. Uma, uma indústria com muita importância para o nosso país e para qualquer outro país, devido à qualificação de recursos humanos que é necessária, ao impacto que tem na economia ou o efeito de arrastamento das cadeias de valor.
E, portanto, o desafio era desenvolver uma estratégia para que Portugal pudesse evoluir nesse setor. Mas Portugal nunca teve um construtor de origem, e, portanto, existiam muitas competências que era necessário criar. E, por isso, nós iniciámos este nosso percurso aprendendo com quem sabe, num "training on job" na Pininfarina - no desenvolvimento concreto de um veículo que eles estavam a desenvolver na altura, que é o NJOY. Permitiu-nos criar capacidade em todo o processo de desenvolvimento automóvel - desde o estilo ao projeto, ao cálculo de estruturas, até à prototipagem. E isso criou a capacidade de uma equipa que, depois, evoluiu a partir daí já em Portugal e permitiu também criar um currículo internacional. E, aí, tivemos bastante acesso a projetos com a Ferrari, depois mais tarde a McLaren e também a possibilidade de podermos evoluir para outros setores, como é o caso da aeronáutica.
Nós sempre tivemos excelentes, alunos - ou excelentes engenheiros aeronáuticos e aeroespaciais a sair das nossas universidades, muito focados em fazer a sua carreira para fora do país. E, quando nós começámos a ter projetos interessantes como o desenvolvimento do veículo Buddy, como os projetos com a Leonardo Helicopters, com o KC-390 e muito recentemente, com tudo o que tem a ver com a área do espaço, dos satélites, dos lançadores, do LUS-222 que estamos a desenvolver a partir de Évora e também do nosso BEN, penso que hoje estamos no sentido contrário. Que é ir recuperar muitos dos nossos colegas que foram há muitos anos para fora e que hoje já regressam com alguma experiência e que hoje o país já pode oferecer algumas condições para isso acontecer.
Transformar a mobilidade nas cidades
Como é que surge a ideia de avançarem para o BEN?
O BEN surge muito de nós integrarmos aquilo que é a mobilidade com a sustentabilidade, essas duas dimensões. Quando começámos a desenvolver projetos como o Buddy, começámos a materializar essa ideia - também muito inspirada naquele projetos iniciais que nós tivemos com a Pininfarina, como o caso do Metrocubo, que era um veículo citadino pequeno, já com motorizações zero, muito ajustado ao ambiente urbano e que podia ser configurado para diferentes aplicações.
E esta nossa ideia começou a ter materialidade pelo Buddy, depois pela questão de tudo o que nós fizemos na, na mobilidade elétrica e mais importante do que isso foi quando nós começámos a desenvolver o conceito de valorização das emissões evitadas com o Uber, com o projeto Uber Green - que permitiu pela primeira vez materializar aquilo que é isto de dar valor às emissões. Ou seja, a sustentabilidade pode ser mesmo um ativo e não um custo.
Estes, estes conceitos todos permitiram-nos nós começarmos a materializar a ideia do BEN. O BEN quer dizer "be neutral" ("ser neutro"). E o nosso objetivo aqui é transformar mesmo a forma como nós nos movemos nas cidades, que é isso que nós queremos. E, e como é que nós fazemos isso? Fazemos isso a partir de projetarmos um veículo que tem uma forte componente digital, a partir de uma plataforma digital, que permite o uso intensivo em rede de utilizadores do veículo que é o BEN. Com design neutro, super funcional, que me permite ir do ponto A para o ponto B e cujo objetivo é eu maximizar o número de horas desse veículo e esse veículo estar também integrado com outras redes de outros veículos e de bicicletas, com outros BENs e com outros tipos de veículos para poder-se ajustar ao perfil de deslocação de uma determinada comunidade.
E isso é muito importante porquê? Porque sustentabilidade não é só ter um veículo elétrico, é eu usá-lo. Porque, hoje em dia 95 por cento do tempo o nosso carro tá parado.
Chega-se ao emprego de manhã e está parado o dia inteiro...
Está parado o dia inteiro. O que nós queremos aqui é um veículo pensado para um uso intensivo, maximizar o número de horas, tirar carros das cidades... Porquê? Porque eu vou usar aquilo que eu preciso e, e eu estou aqui a desmaterializar a posse. Ou seja, eu estou aqui muito mais focada na função uso em detrimento da posse.
E por isso é que a questão do "be neutral" não é só um conceito, é também a materialização quer no design do veículo e na sua capacidade de se adaptar às diferentes aplicações, mas também a sua evolução pode ser muito baseada na questão mais digital.
E sendo um carro modular e adaptável, tanto pode ser, por exemplo, para um uso privado, pessoal. como por exemplo, para uma comunidade alargada fazer, por exemplo, car sharing...
Sim. Pode ter os usos todos que forem necessários no contexto da cidade. Foi muito pensado a partir de um novo conceito de mobilidade que integra aquilo que é a partilha da posse com a partilha do uso - por isso é que é a questão da desmaterialização da propriedade. Nós, para o desenharmos, tivemos de imaginar um serviço que ainda não existia e que vinha resolver alguns desafios que nós hoje temos.
Por exemplo, o sharing tradicional tem muitos desafios ainda, porque os veículos que são usados no sharing - os carros normais - têm um grande custo em termos do ativo e, portanto, vendê-lo ao minuto e ter de o deixar em pontos específicos das cidades e muitas vezes não nos locais onde eu preciso de estar ou onde eu preciso de ficar. O facto de ser um ativo muito caro também em termos de operação. E, portanto, nós tínhamos aqui este desafio que era um veículo que fosse acessível para as pessoas e para a função de operação. Portanto, isto era responder a essa questão. E isso acontece diminuindo muito os custos da parte física e pondo muita funcionalidade no digital.
E este novo conceito de mobilidade que nós pensámos era, é: se eu não tiver um veículo que eu olhe para ele como um ativo de luxo, eu provavelmente vou ter algum desapego para poder usá-lo com a comunidade da minha confiança e saber exatamente sempre que quando eu precisar dele, ele está lá. Ou, se não estiver ele, está alguém da rede dele que me permite chegar ao sítio onde eu estou. Portanto, há aqui uma série de conceitos que estão por trás do BEN, a partir de um novo conceito de mobilidade que nós imaginámos para responder a alguns desafios dos serviços que estão hoje implementados.
Entrevista: O centro de engenharia que desenvolve o mini-carro nacional - Notícias ao Minuto
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