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O dia em que a história podia ter chegado ao fim




 Russos tomaram central de Zaporizhzhia, na cidade ucraniana de Enerhodar. Disparo de tanque provocou incêndio perto de uma das unidades e fez soar os alarmes. Ofensiva numa instalação nuclear não tem precedentes. Ocidente condenou ato ‘irresponsável’; Embaixador russo fala de ‘histeria’. Maior central europeia tem seis reatores. Danos num seriam semelhantes a Fukushima ou Chernobil, diz responsável de segurança nuclear de Kiev.


Russos tomaram central de Zaporizhzhia, na cidade ucraniana de Enerhodar. Disparo de tanque provocou incêndio perto de uma das unidades e fez soar os alarmes. Ofensiva numa instalação nuclear não tem precedentes. Ocidente condenou ato ‘irresponsável’; Embaixador russo fala de ‘histeria’. Maior central europeia tem seis reatores. Danos num seriam semelhantes a Fukushima ou Chernobil, diz responsável de segurança nuclear de Kiev.


Ao nono dia da ofensiva russa na Ucrânia, caiu a central nuclear de Zaporizhzhia na cidade de Enerhodar, depois de um cerco de dias à cidade defendida por brigadas de civis nas ruas.


A Ucrânia informou a Agência Internacional de Energia Atómica de que um projétil atingiu um edifício junto de uma das seis unidades daquela que é a maior central nuclear do país e da Europa, causando um incêndio que fez temer o pior – danos no reator, que derretendo, pode libertar combustível radioativo. E tornou real o perigo de uma guerra num país nuclear atingir, mesmo que inadvertidamente, intalações críticas. «É a primeira vez que um Estado ataca uma central nuclear com combustível e a funcionar», disse Barbara Woodward, diplomata do Reino Unido nas Nações Unidas, numa condenação que se estendeu por todo o Ocidente já depois de a Agência Atómica Internacional dizer que não houve fuga de material radioativo e que no local permanece o staff ucraniano, manifestando no entanto preocupação com a volatilidade da situação e por não ter havido uma avaliação completa do perímetro da central para avaliar a segurança.


Dos seis reatores de Zaporizhzhia, a informação que chegou à Agência Atómica Internacional é de que um está parado para manutenção, dois fizeram uma paragem controlada, um está a funcionar a 60% da capacidade e outros dois estariam ontem de manhã em reserva a funcionar com baixa energia. Para significa condicionar o abastecimento de energia a milhares de ucranianos num país com temperaturas mínima negativa. Mas danos em apenas um reator podem causar um acidente de proporções semelhantes a Chernobil ou Fukushima.


O alerta foi feito esta semana ao i por Dmytro Gumeniuk, responsável pelo departamento de análise de segurança do SSTC NRS, centro estatal ucraniano para a segurança nuclear e radioativa.


Ao telefone de Vyshneve, nos subúrbios da capital ucraniana, o engenheiro nuclear de 46 anos, que tinha 10 anos quando o país viveu o acidente de Chernobil, dizia que o que estão a viver é inimaginável no século XXI e uma ameaça muito para lá do território ucraniano: «Um ataque contra um país com infraestruturas nucleares é muito perigoso não apenas para Ucrânia mas para a Europa e para todo o mundo».


Quando conversámos na segunda-feira, Zaporizhzhia era já a preocupação e durante a semana Dmytro mostrou a esperança de que o exército ucraniano conseguiria evitar uma ocupação. «Um conjunto de combustível de um reator contém cerca de meia tonelada de dióxido de urânio. Num reator por exemplo há 163 conjuntos de combustíveis e só num reator pode haver 6 toneladas de combustível radioativo. Temos 15 reatores na Ucrânia, estando a maior parte do combustível nos núcleos. Danos na armadura destes núcleos pode libertar muitos produtos radioativos na ambiente», explicava, numa altura em que a informação que chegava de Enerhodar era de planos para tomar a central.  «Há seis unidades nesta central, são toneladas de combustível radioativo. Danos numa unidade seriam semelhantes ao acidente de Chernobil ou Fukushima. Danos nas seis unidades seria sinónimo de morte para a Europa».


«Não sei o que vão fazer mas acho que ninguém do lado russo percebe o perigo que está ali», continuava Dmytro. «Atingindo ou não atingindo a central, trata-se de porem armamento pesado, tanques russos e máquinas de guerra, perto de Enerhodar onde há seis reatores nucleares.»


E foi o que aconteceu  na madrugada desta sexta-feira, quando um projétil terá causado fogo perto da central. «Com a graça de Deus, por pouco o mundo evitou uma catástrofe mundial na última noite», disse ontem ao final do dia a embaixadora norte-americana nas Nações Unidas, Linda Thomas-Greenfield, repetindo a acusação de um ato irresponsável e perigoso: «Ameaçou a segurança de civis na Rússia, Ucrânia e Europa».

 

A noite que podia ter sido o ‘fim da história’


Um desastre na central de  Zaporizhzhia seria seis vezes pior do que Chernobil, disse o presidente ucraniano Zelensky, falando de uma noite que poderia ter sido o «fim da história para a Ucrânia e Europa» e acusando os operadores de tanques russos de «saberem para onde estavam a disparar».


Já num discurso televisivo esta sexta-feira à noite, citado pelo Kyev Independent, repetiu que se a Ucrânia não sobreviver, a Europa toda não sobreviverá.


Segunda central em risco


Considerando que se assiste a uma nova escalada no conflito. pela mesma hora Linda Thomas-Greenfield falava de um ‘perigo iminente’ que persiste, alertando para a aproximação das tropas russas da segunda maior central nuclear ucraniana. Pelo número de reatores, a referência seria a central de Rivne, no norte do país.


E com a ameaça de atingimento de centrais a concretizar-se – e a de um conflito nuclear como pano de fundo – as palavras de repúdio não se pouparam, numa altura em que a reação russa aos receios do Ocidente em torno de Zaporizhzhia foi tratar-se de uma «histeria artificial», disse Vassily Nebenzia, embaixador russo nas Nações Unidas, acusando a Ucrânia de estar a mentir sobre como se deu a tomada da central e reclamando que a área estava sob controlo russo desde dia 28, garantindo que foram chamados peritos para o local, à semelhança de Chernobil.


Uma situação que nem em Chernobil, tomada no início do conflito, convencia os peritos ucranianos. «Ocuparam a zona de exclusão de Chernobil e o armazenamento de combustível e o que vemos é que depois de chegarem os níveis de radiação na região aumentaram sem ter havido nenhum dano no casco. Depois disto, a informação que temos é de que simularam um combate aéreo em cima do armazenamento de combustível. O que querem não sei. Não posso fazer projeções. Posso fazer projeções sobre pessoas normais, sobre pessoas loucas não sou especialista em problemas psiquiátricos. Sou especialista em nuclear», disse ao i Dmytro Gumeniuk.


França quer acordo nuclear entre Ucrânia e Rússia


Ontem, ao final do dia, o Presidente francês Emmanuel Macron juntou-se à condenação do ataque, anunciando que França iria propor nas horas seguintes medidas concretas para garantir a segurança das cinco centrais nucleares ucranianas e exigindo que Rússia e Ucrânia cheguem a um acordo quanto a isso e que Moscovo autorize o acesso livre, regular e sem qualquer entrave ao pessoal técnico.


O dia em que a história podia ter chegado ao fim (sapo.pt)


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