Avançar para o conteúdo principal

No prédio mais estreito da cidade cada centímetro de espaço conta

A fachada deste prédio tem 17 metros, mas a parede lateral só tem 1,65. Está identificado como o prédio mais estreito de Lisboa, mas tem grande arrumação e muita vida. Virgínia Moura vive lá há 55 anos e agora vai-se cruzando com os habitantes temporários que alugam os outros três micro apartamentos de alojamento local.

Quem só o olha de frente talvez nem se dê conta, mas, visto de lado, este prédio na Rua de São João da Mata, entre os bairros da Lapa e de Santos, em Lisboa, é espantosamente estreito. Atualmente, depois de outros terem sido demolidos, este, com o número de porta 92, está identificado pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses como o prédio mais estreito da capital. Imaginar o interior, a organização das divisões e a disposição de mobiliário é um exercício com resultado inglório, a não ser que se use de muita criatividade, algo que, afinal de contas, foi conseguido pelos atuais proprietários, donos de uma marca de alojamento local.

Inês da Silva, diretora de operações da Saudade Apartments, ainda tem no telemóvel as plantas do prédio e dos apartamentos, essenciais na reabilitação dos três micro lofts que a marca ali disponibiliza desde julho do ano passado. Segundo essas plantas, a fachada deste prédio, pintado de azul, como o céu, mede 17 metros e a parede lateral direita não vai além do 1,65 metros, menos que a altura de um adulto médio. À esquerda, a parede é mais larga, visto que a fachada tardoz vai ganhando espaço ao terreno das traseiras, pertencente ao Instituto Hidrográfico.

Virgínia Moura, 79 anos, já aqui vive há 55 anos, mas não faz ideia das medidas do seu apartamento, no primeiro piso direito, e muito menos das medidas do edifício. Numa época em que "não havia dinheiro" nem casas, encontrar aquela "foi um achado". "Se agora está difícil, naquela altura também estava muito difícil. Já era cara", conta, tentando lembrar-se de quanto pagava de renda, mas já baralhada com os escudos e os euros. "Agora vou mais aos euros", desculpa-se. Mas, se a memória não lhe falha, o senhorio começou por lhe pedir mil escudos (cinco euros na moeda atual) e acabou por lhe cobrar 700 escudos.

Enquanto foi ela, o marido e a filha viveram bem naquele apartamento de duas assoalhadas, o maior do prédio - que só não mostra porque ainda não tem a cama feita -, mas quando teve o segundo filho o espaço tornou-se pequeno e chegou a sugerir ao marido comprar casa. "Tu podes ir, mas eu fico aqui", respondeu-lhe ele. "Partiu-me as pernas. Aqui fiquei. Está a história feita", ri-se. Sorte deles, azar da vizinha do rés-do-chão, que partiu uma perna e deixou a casa para ir viver com o filho. Virgínia e o marido alugaram então mais este apartamento. Faziam a vida toda no primeiro andar e, à noite, o casal descia ao rés-do-chão para dormir.

O marido morreu há 21 anos, os filhos já se mudaram - para um prédio praticamente em frente a este - e Virgínia ali continua, no maior apartamento do prédio mais estreito de Lisboa, ao qual tirou as portas para ganhar espaço.

Os apartamentos S, M e L

Nos outros três apartamentos do prédio só há a porta da casa de banho. O resto é espaço aberto, tipo loft, desenhado de forma a ganhar espaço onde ele não existia. "Pensámos em várias soluções para tornar o espaço o mais funcional possível, tivemos de ser criativos para rentabilizar cada centímetro dos apartamentos e poder ter um espaço de arrumação onde as pessoas pudessem colocar as suas malas, as suas roupas... Apesar de o espaço ser muito limitado, temos uma micro cozinha, temos uma micro zona de estar, uma micro zona de dormir", orgulha-se Inês da Silva, que colaborou com a arquiteta Marta Lourenço na decoração, estilo industrial.

O loft mais pequeno, o S, como nas medidas de roupa, tem menos de 15 metros quadrados. O M e o L, têm respetivamente, 17 e 18 metros quadrados. "Se as pessoas procuram um apartamento mais normal acabam por gostar mais do M porque não tem a cama na plataforma; quem prefere ter mais espaço prefere o microloft L; quem gosta de desafios e de espaços muito pequeninos e mais desafiadores é o S", comenta Inês. O fundo deste apartamento, que é a parede do chuveiro, mede uns escassos 1,09 metros. "Acaba por ser um chuveiro muito generoso".

Marca apostada no produto nacional, a Saudade Apartments desconhecia na época ter comprado o prédio mais estreito de Lisboa. "Sempre achámos um prédio bastante emblemático, por ser tão estreito e a característica que ele tem de estar nesta rua descendente, e a localização onde está. Mas de facto não tínhamos conhecimento e foi uma surpresa. A nível de marketing para nós foi muito positivo", admite Inês. As fotos antigas do edifício colocadas nas escadas são a prova de como têm valorizado esta marca distintiva.

No Bairro Alto, na Rua da Atalaia, fica aquele que está identificado como o segundo prédio mais estreito de Lisboa. Tem duas portas, correspondes aos números 195 e 197, mas mede pouco mais de dois metros na fachada principal.


Por Sofia Fonseca em:

https://www.dn.pt/sociedade/no-predio-mais-estreito-da-cidade-cada-centimetro-de-espaco-conta-13722331.html

Comentários

Notícias mais vistas:

Armazenamento holográfico

 Esta técnica de armazenamento de alta capacidade pode ser uma das respostas para a crescente produção de dados a nível mundial Quando pensa em hologramas provavelmente associa o conceito a uma forma futurista de comunicação e que irá permitir uma maior proximidade entre pessoas através da internet. Mas o conceito de holograma (que na prática é uma técnica de registo de padrões de interferência de luz) permite que seja explorado noutros segmentos, como o do armazenamento de dados de alta capacidade. A ideia de criar unidades de armazenamento holográficas não é nova – o conceito surgiu na década de 1960 –, mas está a ganhar nova vida graças aos avanços tecnológicos feitos em áreas como os sensores de imagem, lasers e algoritmos de Inteligência Artificial. Como se guardam dados num holograma? Primeiro, a informação que queremos preservar é codificada numa imagem 2D. Depois, é emitido um raio laser que é passado por um divisor, que cria um feixe de referência (no seu estado original) ...

TAP: quo vadis?

 É um erro estratégico abismal decidir subvencionar uma vez mais a TAP e afirmar que essa é a única solução para garantir a conectividade e o emprego na aviação, hotelaria e turismo no país. É mentira! Nos últimos 20 anos assistiu-se à falência de inúmeras companhias aéreas. 11 de Setembro, SARS, preço do petróleo, crise financeira, guerras e concorrência das companhias de baixo custo, entre tantos outros fatores externos, serviram de pano de fundo para algo que faz parte das vicissitudes de qualquer empresa: má gestão e falta de liquidez para enfrentar a mudança. Concentremo-nos em três casos europeus recentes de companhias ditas “de bandeira” que fecharam as portas e no que, de facto, aconteceu. Poucos meses após a falência da Swissair, em 2001, constatou-se um fenómeno curioso: um número elevado de salões de beleza (manicure, pedicure, cabeleireiros) abriram igualmente falência. A razão é simples, mas só mais tarde seria compreendida: muitos desses salões sustentavam-se das assi...

Defender a escola pública

 1. Escrevo sobre o conflito que envolve os professores preocupada, em primeiro lugar, com o efeito que este está a ter na degradação da escola pública, na imagem e na confiança dos pais no sistema educativo, nos danos que estão a ser causados a milhares de alunos cujas famílias não têm condições para lhes proporcionar explicações ou frequência de colégios privados. Parece-me importante que, nas negociações entre Governo e sindicatos, esta dimensão do problema seja equacionada. Escrevo, em segundo lugar, porque espero poder dar um contributo para a compreensão e boa resolução do conflito, apesar de todo o ruído e falta de capacidade para ouvir. 2. Nos anos pré-pandemia, eram muitos os sinais das dificuldades das escolas em prestar um serviço de qualidade. A existência de milhares de alunos sem professor, em várias disciplinas e em vários pontos do país, gerou um clamor sobre a falta de docentes e a fraca atratividade da carreira. Porém, o problema da falta de professores nas escola...