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CP bloqueada leva a demissão do seu presidente


Presidente do conselho de administração da CP, Nuno Freitas. © José Carmo/Global Imagens


 Falta de autonomia deixa transportadora com dívida histórica e dependente de autorização das Finanças para as mais ínfimas despesas. Problemas alastram-se na gestora da ferrovia.


Com Nuno Freitas no comando, a CP estava a encarrilar. O gestor foi escolhido em julho de 2019 para dar nova vida à transportadora: recuperaram-se perto de 70 unidades, foi reaberta a oficina de Guifões e ainda houve a fusão com a EMEF. Mas o engenheiro fartou-se do fardo de uma empresa pública sem autonomia e onde a vontade de Pedro Nuno Santos parece insuficiente para convencer João Leão. Nuno Freitas demitiu-se e destapou os bloqueios da CP.


"É muito difícil pedirmos a um grande gestor, homem sério, de grande capacidade de trabalho e de realização, que fique muito tempo numa empresa que não consegue ter um plano de atividades e orçamento aprovado, que tem uma dívida histórica acumulada gigantesca e que não pode ser saneada, portanto retirando capacidade e autonomia de gestão à empresa, que demora meses para ter uma autorização para comprar, por exemplo, umas rodas", lamentou ontem Pedro Nuno Santos.


A reestruturação da dívida histórica é o maior bloqueio. O contrato de serviço público da empresa com o Estado, em vigor desde junho do ano passado, previa a renegociação do passivo de 2,1 mil milhões de euros. A autorização das Finanças tarda, mas é fundamental: o Estado é credor de mais de 75% da dívida. Em julho, o ministro assumiu a reestruturação da dívida histórica como "a próxima luta" na relação com as Finanças.


O impasse impede a empresa de comprar material circulante para a nova linha Lisboa-Porto, onde não pode receber ajuda do Estado nem dos fundos europeus. São necessários sete anos entre o anúncio da compra e a chegada do material aos carris. A nova ligação ferroviária entre as duas cidades deverá ficar concluída em 2030.


A organização também está a tentar encomendar 22 novos comboios para o serviço regional. A autorização para a compra foi aprovada em setembro de 2018. Passados três anos, ainda não foi sequer feita a encomenda aos suíços da Stadler, porque o Tribunal de Contas tem aguardado documentos da tutela para dar o visto prévio ao contrato. A CP está obrigada a prolongar o aluguer de comboios a Espanha devido à demora.


No próprio dia a dia também há problemas. Desde junho têm faltado comboios todos os dias, porque não há maquinistas nem autorização para reforçar os quadros. "A CP continua sob alçada do Estado e não tem ferramentas de gestão autónoma. Depende da tutela financeira para as admissões", lamenta o líder do sindicato da classe, António Domingues.


Desde maio, quem anda de comboio também já se apercebeu das greves frequentes dos trabalhadores da CP e da IP, que gere as linhas ferroviárias. A contestação aos baixos salários levou mesmo à tomada de posição do ministro. "Compreendo perfeitamente os trabalhadores. Acho que eles têm razão, e eu estou também na luta para conseguir o reconhecimento daquela gente, que está a fazer um trabalho fantástico pelo país e precisa de ser reconhecida."


A próxima greve da CP e da IP é dia 8 de outubro. Para o coordenador da federação de sindicatos dos transportes, José Manuel Oliveira, "se não o deixam ser ministro, mais vale demitir-se". Nesse dia, o ainda vice-presidente, Pedro Moreira, já estará na liderança da CP.


Diogo Ferreira Nunes

https://www.dinheirovivo.pt/empresas/cp-bloqueada-leva-a-demissao-do-seu-presidente--14170547.html

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