Avançar para o conteúdo principal

Salário base de 2.700 euros custa à empresa 3.368 euros mas trabalhador leva para casa apenas 1.700 euros?


© Agência Lusa


 O QUE ESTÁ EM CAUSA?

O "post" não é de agora mas já foi partilhado mais de 13 mil vezes no Facebook. O autor é Pedro Tânger, um conhecido empresário que decidiu explicar o porquê de ser "tão difícil pagar 2.700 euros" aos trabalhadores. Entre contribuições, taxas e impostos, sobra desse salário bruto um total de 1.700 euros para o funcionário no final de cada mês, sendo que a empresa tem que pagar cerca de 3.400 euros. Será mesmo assim?


"Ainda sobre os 2.700 euros de ordenado base. Parece absurdo, não é? Eu sou empresário e uma das minhas principais preocupações é pagar bem à minha equipa. É uma questão de princípio. É claro que os cínicos vão logo achar que é mentira e que o objetivo das empresas é lucrar à custa de tudo e de todos", começa por destacar o autor do post remetido ao Polígrafo para análise, onde é feito um esclarecimento em relação ao salário que é pago ao trabalhador.



"Então porque é que é tão difícil pagar 2.700 euros? Fui ao site para simular o custo para a empresa deste salário base. Para um salário base de 2.700 euros, a empresa gasta 3.368,25 euros e o colaborador leva para casa 1.700 euros, (…) isto para 12 meses, faltam os subsídios de Férias e de Natal. O Estado fica com 1.668,25 euros". Estas contas, feitas pelo simulador do PMESalarios, uma ferramenta informática de gestão de salários a pensar nas pequenas e médias empresas e pelo autor do post, deixaram algumas dúvidas nos leitores. O Polígrafo esclarece.


Importa começar por perceber quanto é que uma empresa tem que pagar por um salário bruto de 2.700 euros, olhando para as contribuições e taxas que a ela dizem respeito. Para as empresas, a Taxa Social Única (TSU), medida contributiva para a Segurança Social que se cifra nos 11% para os trabalhadores, é de 23,75%. O que é que isto significa? Que se considerarmos um salário bruto de 2.700 euros, o empregador terá que pagar 641 euros mensais (excluindo os 13.º e 14.º meses) de TSU.


É ainda necessário ter em conta o Fundo de Compensação, que é de resto de adesão obrigatória para todas as entidades empregadoras que celebrem contratos de trabalho ao abrigo do código do trabalho a partir do dia 1 de outubro de 2013, e que resulta em 1% do vencimento base e diuturnidades a que os trabalhadores tenham direito. Assim, no caso dos 2.700 euros brutos, a entidade empregadora terá que pagar 27 euros mensais, mais uma vez excluindo os dois meses de subsídios de Natal e Férias, que neste caso não se aplicam e que são um direito do trabalhador.


Feitas as contas, aos 2.700 euros de salário base devem ser somados os 641 euros mensais de TSU, bem como os 27 euros, em média, de Fundo de Compensação. Assim sendo, estamos perante um total de 3.368 euros que cabe à empresa pagar pelo trabalhador, em que quase 25% dos quais segue para o Estado.


Quanto às obrigações do trabalhador, é necessário ter em conta as contribuições de 11% para a Segurança Social (transversais a todos os salários) e ainda o Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Singulares (IRS), que depende quer do montante salarial quer do estado civil ou do número de filhos do trabalhador.


No encontro com o principal adversário, Rui Rio, do PSD, o primeiro-ministro quis assegurar que tudo aquilo que estava previsto no Orçamento do Estado para 2022 vai ser executado por um novo Governo do PS, dependendo isso da maioria absoluta que tem pedido aos portugueses. Repetindo aquilo que tem feito nos últimos debates, Costa recordou os maiores feitos da sua governação, mas será que o aumento do salário médio em 25% é um deles?


Perante um salário bruto de 2.700 euros mensais, um trabalhador não casado e sem filhos, segundo as tabelas de retenção na fonte para o ano de 2021, teria que pagar 26% do salário ao Estado. Ou seja, 702 euros. Importa, no entanto, referir mais uma vez que esta percentagem varia conforme a situação do trabalhador e os 26% mencionados são mesmo a taxa mais alta que pode ser paga sobre o salário em causa. Um aumento no número de filhos, um casamento ou ainda uma situação de deficiência podem alterar significativamente os valores.


Ainda assim, e continuando a nossa abordagem, aos 702 euros pagos pelo trabalhador em sede de IRS é ainda necessário somar os 11% de contribuições para a Segurança Social, que nem sequer chegam à mão o trabalhador e ficam retidas na fonte. Contas feitas, são cerca de 297 euros, ou seja, 999 euros no total que o trabalhador entrega ao Estado.


Sobram-nos agora 1.701 euros de salário líquido na carteira do trabalhador e cerca de 1.660 euros arrecadados pelo Estado e pagos pela empresa e pelo funcionário.


Em suma, e embora não tenha em conta factores como o lucro da empresa com o trabalhador ou ainda os serviços assegurados pelo Estado como forma de apoio às empresas (algumas das quais beneficiam de isenção da TSU), a publicação e as contas demonstradas estão factualmente corretas e representam o peso dos impostos (e contribuições) num salário de 2.700 euros em Portugal.


_______________________________


Nota Editorial:


A publicação em causa apresenta algumas incongruências, nomeadamente no que respeita à descrição dos valores e ao quadro da simulação efetuada pelo autor (no qual constam, por exemplo, os 13.º e 14.º meses). No entanto, os valores analisados (aqueles que surgem destacados na publicação) estão corretos e correspondem às obrigações da empresa perante o Estado. A principal alegação analisada pelo Polígrafo - "para um salário base de 2.700 euros, a empresa gasta 3.368,25 euros e o colaborador leva para casa 1.700 euros" - é assim classificada como verdadeira.


_______________________________


Avaliação do Polígrafo:

VERDADEIRO


https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/salario-base-de-2-700-euros-custa-a-empresa-3-368-euros-mas-trabalhador-leva-para-casa-apenas-1-700-euros

Comentários

Notícias mais vistas:

Cheques Psicologia e Nutrição para jovens dos 12 aos 35 anos

 Na nova edição para 2026 dos cheques Psicologia e Nutrição, os cheques deixam de estar limitados ao ensino superior e chegam agora a jovens entre os 12 e os 35 anos. Além do alargamento da medida a jovens dos 12 aos 35 anos, as principais alterações são: Eliminação do limite máximo de cheques por jovem A continuidade do acompanhamento passa a depender da avaliação clínica dos profissionais de saúde, de acordo com as necessidades de cada jovem Aumento do valor pago aos profissionais de saúde por consulta/cheque de 35 para 40 euros Integração da medida no Programa Cuida-te, com gestão feita pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) Mais informação sobre como pedir os cheques Psicologia e Nutrição em: Cheques Psicologia e Nutrição para jovens dos 12 aos 35 anos - gov.pt

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Empresa turca fecha contrato para fornecimento de 100.000 drones kamikaze

Foto: Anadolu  A empresa turca Pasifik Technology fechou um contrato para fornecer 100.000 drones kamikaze MERKUT FPV e quatro tipos adicionais de sistemas não tripulados para um país não revelado. De acordo com o site Defence Blog, o contrato, que representa um dos maiores acordos de exportação de drones únicos anunciados publicamente por uma empresa de defesa turca, abrange cinco plataformas não tripuladas distintas nos domínios aéreo e terrestre. A peça central do acordo são 100.000 unidades do sistema de drones kamikaze MERKUT FPV, complementados por 10 helicópteros não tripulados ALPIN, 25 mini helicópteros não tripulados DUMRUL desenvolvidos pela Titra Technology, 500 drones kamikaze táticos DELİ e 500 unidades autônomas de suporte e vigilância terrestre KORGAN. Trata-se de um pacote de 101.035 sistemas não tripulados para um país comprador não revelado. O valor do contrato também não foi divulgado no anúncio da empresa. O drone kamikaze MERKUT FPV oferece de 20 a 30 minutos ...