Bruxelas quer travar contrato de gasoduto na Bósnia atribuído sem concurso a empresa de aliados próximos de Trump. União Europeia avisa, em carta, que o negócio põe em risco a adesão do país ao bloco.
A União Europeia (UE) enfrenta a possibilidade de um confronto direto com Washington após intervir na concessão de um gasoduto na Bósnia e Herzegovina a uma empresa ligada a aliados próximos de Donald Trump, avançou o jornal The Guardian. É a primeira vez que Bruxelas desafia um projeto comercial gerido por figuras do círculo presidencial, alertando que o negócio coloca em risco as aspirações da Bósnia a integrar o bloco europeu.
O projeto do gasoduto “Interconexão Sul”, que atravessa o país, foi entregue à AAAFS Infrastructure and Energy, uma empresa com sede no estado norte-americano do Wyoming, constituída no ano passado e sem histórico no setor. Na direção da empresa, figuram nomes centrais da equipa de Trump: Jesse Binnall, um dos advogados do Presidente, e Joe Flynn, irmão do ex-conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn. Segundo fontes locais citadas pelo jornal, a rápida atribuição do contrato ocorreu após meses de pressão das autoridades norte-americanas.
A controvérsia intensificou-se em março, quando legisladores bósnios aprovaram uma lei que permite a concessão do contrato à AAAFS sem qualquer concurso. O movimento anti-corrupção Transparência Internacional classificou a medida como um “precedente perigoso”, dada a ausência de concorrência num investimento previsto de 1,5 mil milhões de dólares (1,2 mil milhões de euros) em infraestruturas.
Perante este cenário, o representante da UE em Sarajevo, Luigi Soreca, enviou um aviso privado aos líderes bósnios a 13 de abril. Numa carta obtida pelo site de investigação bósnio istraga e vista pelo The Guardian, o diplomata “exortou todas as autoridades competentes da Bósnia e Herzegovina a, ao elaborarem e adotarem atos legislativos no setor energético, considerarem com a devida atenção as obrigações decorrentes do Acordo de Estabilização e Associação e do processo de integração europeia”.
Para alcançar o “objetivo” final e “manter o ritmo do processo de adesão”, Soreca sublinhou ser “crucial que os projetos de lei sejam cuidadosamente coordenados internamente no país, bem como com os serviços relevantes da Comissão Europeia“. Isto implica, continua o diplomata, a “partilha dos projetos de lei para avaliação numa fase inicial, garantindo a conformidade com as normas da UE”.
“Dessa forma, a Bósnia e Herzegovina poderá continuar a avançar no seu caminho rumo à Europa e evitar a perda de oportunidades para maior integração, bem como oportunidades financeiras”, lê-se ainda no documento.
Ao ser confrontado com a intervenção europeia, Jesse Binnall reiterou o compromisso da AAFS com a população da Bósnia, afirmando ao jornal que o projeto não perderá de vista o que “realmente importa” neste projeto: “garantir a segurança energética e fomentar o desenvolvimento económico para o povo da Bósnia e Herzegovina”. O advogado, que classifica o projeto como uma “prioridade para o Governo Trump”, assegurou que a empresa pretende trabalhar em proximidade com as entidades competentes para tornar o gasoduto “uma realidade”.
UE arrisca conflito com os EUA por gasoduto na Bósnia – Observador

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