Avançar para o conteúdo principal

Cientistas tentam há muito resolver mistério sobre a velocidade do aquecimento global. Novo estudo diz ter a resposta

 

Furacão Melissa (AP)

Aquecimento global acelerou 75% na última década, conclui estudo científico

O mundo está a ficar mais quente — e mais depressa? Esta é uma das grandes questões que tem intrigado e dividido cientistas durante anos. Um novo estudo diz ter encontrado a resposta, e as conclusões não são animadoras.

O aquecimento global acelerou “significativamente” na última década, o que significa que o planeta poderá ultrapassar limites cruciais de aquecimento mais cedo do que se pensava, segundo um estudo publicado na revista científica Geophysical Research Letters.

Enquanto algumas zonas do Hemisfério Norte recuperam de vagas de frio intensas, pode ser difícil lembrar quão quente o planeta tem estado nos últimos anos. No entanto, a tendência tem sido excecionalmente quente: 2024 foi o ano mais quente de que há registo, encerrando a década mais quente desde que existem medições.

Os impactos de todo este calor são claros. Grandes regiões do mundo têm sido atingidas por fenómenos meteorológicos extremos devastadores alimentados pelas alterações climáticas, incluindo ondas de calor, furacões, incêndios florestais e cheias.

Mas os sistemas da Terra são extremamente complexos e é difícil determinar se alguns anos anormalmente quentes significam que a tendência de longo prazo do aquecimento global está a acelerar.

No novo estudo, os cientistas procuraram responder a esta questão analisando cinco grandes conjuntos de dados globais de temperatura e filtrando o chamado “ruído” — variações naturais do clima que têm impacto a curto prazo.

Entre esses fatores estão o El Niño, as erupções vulcânicas e o ciclo solar, que podem influenciar temporariamente as temperaturas e mascarar tendências de longo prazo.

Entre 1970 e 2015, a Terra aqueceu cerca de 0,2 graus Celsius por década. Já entre 2015 e 2025, o aquecimento foi de 0,35 graus por década, conclui o estudo — um aumento de 75%.

Segundo os autores, trata-se de um aumento “significativo” e de uma taxa mais elevada do que a registada em qualquer outra década desde o início dos registos modernos, em 1880.

Um possível avanço científico

A luz de um helicóptero de combate a incêndios ilumina uma encosta em chamas enquanto o incêndio de Palisades se alastra perto do bairro de Mandeville Canyon e Encino, na Califórnia, em 11 de janeiro de 2025. (Patrick T. Fallon/AFP/Getty Images)
Pessoas atravessam uma rua alagada após a passagem do tufão Kajiki em Hanói, Vietname, em 26 de agosto de 2025. (Huy Han/AP)

“Acreditamos ser os primeiros a demonstrar uma aceleração estatisticamente significativa”, afirma Stefan Rahmstorf, um dos autores do estudo e responsável pela análise de sistemas terrestres no Potsdam Institute for Climate Impact Research, na Alemanha.

Outro estudo recente, coassinado por James Hansen — o cientista norte-americano que alertou publicamente para a crise climática nos anos 1980 — também concluiu que o aquecimento global está a acelerar. No entanto, não incluiu um teste estatístico de significância, explica Rahmstorf.

As projeções atuais sugerem que o limite internacionalmente acordado de 1,5 °C de aquecimento global — que se refere à média ao longo de décadas, e não a anos individuais — será ultrapassado algures na década de 2030.

Contudo, se esta taxa acelerada de aquecimento se mantiver, o planeta poderá atingir 1,5 °C antes de 2030, indica o relatório. Para além deste limite, os cientistas alertam que os impactos das alterações climáticas podem ultrapassar a capacidade de adaptação dos humanos e dos ecossistemas.

Cientistas divididos

A metodologia do estudo é “cuidadosa e meticulosa”, defende Katharine Hayhoe, cientista atmosférica da Texas Tech University, nos Estados Unidos, que não participou na investigação.

Hayhoe compara a atmosfera a uma piscina. A água seria equivalente ao dióxido de carbono presente na atmosfera e os humanos colocaram essencialmente uma mangueira dentro da piscina, aumentando todos os anos o caudal.

“Em suma, o que este estudo faz é finalmente DETETAR aquilo que os cientistas há muito PREVIAM”, escreve numa resposta escrita à CNN.

Já Claudie Beaulieu, professora assistente de ciências do oceano e da Terra na University of California, Santa Cruz, afirma que o facto de os cinco conjuntos de dados indicarem aceleração reforça a robustez do estudo.

Ainda assim, aponta limitações, incluindo a forma como os investigadores removeram a influência de fenómenos como o El Niño, as erupções vulcânicas e as variações solares.

Segundo a investigadora, será essencial continuar a monitorizar os dados para perceber se estamos perante “uma mudança real e duradoura ou apenas uma característica temporária da variabilidade natural”.

Michael Mann, professor de ciências da Terra e do ambiente na University of Pennsylvania, afirma não haver provas de que a taxa de aquecimento tenha acelerado nos últimos dez anos.

Segundo Mann, o aumento da temperatura tem vindo a intensificar-se desde a década de 1970 devido à redução da poluição por aerossóis — um tipo de poluição prejudicial para a saúde humana, mas que tem um efeito de arrefecimento no planeta ao refletir parte da energia solar.

“Há muitas vezes uma confusão entre este facto bem estabelecido e a ideia de que houve um aumento recente na taxa de aquecimento na última década”, argumenta. Os picos de calor registados nos últimos anos, acrescenta, devem-se ao fenómeno El Niño.

“O planeta está a aquecer a um ritmo aproximadamente constante — e isso já é suficientemente mau. Vai continuar a aquecer até que as emissões de carbono cheguem a zero”, acrescenta.

Neste último ponto, Mann e Rahmstorf concordam.

Apesar do consenso científico sobre as alterações climáticas e das crescentes evidências no mundo real do custo humano de viver num planeta mais quente, existe uma “reação adversa” contra a ação climática, observa Rahmstorf.

Segundo o investigador, isso é particularmente visível nos Estados Unidos, “onde o governo basicamente nega a realidade”.

Rahmstorf era um jovem cientista na década de 1990, quando as evidências das alterações climáticas começaram a tornar-se claras.

“Eu simplesmente não conseguia imaginar que os decisores políticos recebessem provas tão claras de que estamos a caminhar para um desastre muito sério para a humanidade e não agissem.”


Cientistas tentam há muito resolver mistério sobre a velocidade do aquecimento global. Novo estudo diz ter a resposta - CNN Portugal


Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Engenheiro cria guarda-chuva voador que segue o utilizador

A imagem mostra o engenheiro Josh Tse com sua invenção Engenheiro cria guarda-chuva voador que segue o dono pelas ruas com radar tecnológico e muda o conceito de chegar seco em casa Criado por John Tse, o equipamento funciona como um drone adaptado com uma cobertura para proteger a pessoa da chuva A primeira versão da invenção ainda dependia de um controle remoto/Reprodução Um engenheiro canadense criou um guarda-chuva voador capaz de acompanhar o usuário enquanto ele caminha. A invenção mistura a tecnologia dos drones com um objeto tradicional do dia a dia e chama atenção por parecer ter saído de um filme de ficção científica. Criado por John Tse, o equipamento funciona como um drone adaptado com uma cobertura para proteger a pessoa da chuva. O dispositivo permanece no ar acima da cabeça do usuário e acompanha seus movimentos sem que seja necessário segurar o guarda-chuva. Para conseguir realizar essa tarefa, o projeto utiliza hélices, motores elétricos, sensores e uma câmera instalad...

Descoberto 'Mini-Plutão' com atmosfera no Sistema Solar

  Um pequeno mundo de gelo com uma atmosfera, descoberto no Sistema Solar, pode revelar pistas sobre a evolução dos astros em regiões mais frias e distantes. Para já, os cientista chamam-lhe XV93. Anteriormente, os cientistas acreditavam que Plutão era o único corpo celeste no Cinturão de Kuiper a ter atmosfera. Contudo, uma nova investigação revelou um outro pequeno astro com uma atmosfera fina e delicada, possivelmente criada por erupções vulcânicas ou pelo impacto de um cometa. Com apenas cerca de 500 quilómetros de diâmetro, o chamado ‘Mini-Plutão’ pode ser o menor objeto do Sistema Solar rodeado por um véu atmosférico, de acordo com um estudo publicado na revista  Nature Astronomy , na segunda-feira. Um dos autores principais realçou a importância da descoberta: “Isto muda a nossa visão sobre os mundos pequenos”, disse Ko Arimatsu, chefe do Observatório Astronómico de Ishigakijima, citado pela  Sky News . “ A descoberta sugere que alguns pequenos corpos gelados no Si...