Avançar para o conteúdo principal

Há países ricos e outros que não deixam de ser pobres. Agora há um Nobel a explicar como Portugal pode ter tido um papel nisso



 Investigação mostra o impacto dos Descobrimentos na forma como evoluem as sociedades

Quando Portugal, Espanha, Reino Unido ou França se decidiram lançar aos Descobrimentos, naturalmente que seria de esperar que mudassem a forma como os locais onde chegaram evoluiriam a partir daí. No Brasil não se falaria português se não tivesse sido Pedro Álvares Cabral a chegar lá primeiro, enquanto que grande parte da América Latina não se expressaria em castelhano sem as missões de Cristóvão Colombo.


Mas, quando os feitos destes homens, muitos deles ocorridos há meio milénio, concretizaram os seus propósitos, também moldaram o crescimento das sociedades onde chegaram.


Entre outras coisas, a confirmação disso mesmo valeu a Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson o Prémio Nobel da Economia, atribuído pela academia esta quarta-feira, e que vale à tripla um prémio total de 11 milhões de coroas suecas (cerca de um milhão de euros).


É que os três homens conseguiram, com uma investigação exaustiva, explicar como a natureza das instituições ajuda a explicar porque é que há países que se tornam ricos e assim conseguem continuar, enquanto outros permanecem pobres e com dificuldades em deixar essa situação.


The introduction of more inclusive institutions, less extraction and the rule of law would create long-term benefits. So why don’t the elite simply replace the existing economic system?


The laureates’ model for explaining the circumstances under which political institutions are… pic.twitter.com/oPCbMndkQM


— The Nobel Prize (@NobelPrize) October 14, 2024

A academia, que partilha este prémio com o Banco Nacional da Suécia - o único não atribuído exclusivamente pela Fundação Alfred Nobel -, congratulou o trio por ter conseguido explicar por que razão “sociedades com um Estado de Direito deficiente e instituições que exploram a população não geram crescimento nem mudanças para melhor”.


“Quando os europeus colonizaram grandes partes do globo, as instituições dessas sociedades mudaram”, escreveu o júri, citando o trabalho dos economistas. Embora em muitos locais o objetivo fosse a exploração da população indígena, noutros sítios a que os europeus chegaram foram lançadas as bases para sistemas políticos e económicos inclusivos.


“Os laureados mostraram que uma das explicações para as diferenças na prosperidade dos países são as instituições sociais que foram introduzidas durante a colonização”, acrescentou a nota, sem dar exemplos claros, ainda que seja fácil de perceber que nações como os Estados Unidos conseguiram prosperar após a colonização inglesa, enquanto outros, como a Guiné-Bissau - para dar um exemplo de colonização portuguesa - continuam sem conseguir evoluir económica e socialmente.


Os países que desenvolveram “instituições inclusivas” - que defendem o Estado de Direito e os direitos de propriedade - tornaram-se prósperos ao longo do tempo, enquanto os que desenvolveram “instituições extrativas” - que, nas palavras dos laureados, “espremem” os recursos da população em geral para beneficiar as elites - registaram um crescimento económico persistentemente baixo.



Símbolo de desigualdade? No Dubai é comum ver trabalhadores sem condições a construírem prédios de luxo (Kamran Jebreili/AP)

No livro de 2012 “Why Nations Fail”, Acemoglu, um professor turco-americano do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e Robinson, um professor britânico da Universidade de Chicago, argumentam que algumas nações são mais ricas do que outras devido às suas instituições políticas e económicas.


O livro começa com uma comparação dos níveis de vida em duas cidades chamadas Nogales - uma no Arizona e outra a sul da fronteira, na região mexicana de Sonora. Enquanto alguns economistas defendem que as diferenças de clima, agricultura e cultura têm um enorme impacto na prosperidade de um local, Acemoglu e Robinson argumentam que os habitantes de Nogales, no Arizona, são mais saudáveis e mais ricos devido à força relativa das suas instituições locais.


No ano passado, Acemoglu e Johnson - também ele professor no MIT - publicaram “Power and Progress”, um estudo sobre a forma como as inovações tecnológicas dos últimos mil anos, desde os avanços agrícolas à Inteligência Artificial, tenderam a beneficiar as elites, em vez de criar prosperidade para todos.


Os autores alertam que “o atual caminho da IA não é bom nem para a economia nem para a democracia”.


Por António Guimarães em:

Há países ricos e outros que não deixam de ser pobres. Agora há um Nobel a explicar como Portugal pode ter tido um papel nisso - CNN Portugal (iol.pt)


Comentários

Notícias mais vistas:

Construção da maior central solar em Portugal encravada há mais de dois anos na justiça, apesar de aprovada

Santa Luzia in northeastern Brazil.  EPA/SEBASTIAO MOREIRA  Desde 2024 que a autorização ambiental dada à central solar Fernando Pessoa foi suspensa por decisão do juiz e após impugnação do Ministério Público. Agência do Ambiente recorreu, mas não há decisão. A maior central solar aprovada para Portugal, com mais de mil megawatts (MW) de potência, está parada há mais de dois anos, na sequência de processos judiciais colocados contra a aprovação emitida pelas autoridades ambientais. A atribulada história do projeto, que foi batizado com o nome do poeta Fernando Pessoa, mostra que o licenciamento ambiental — por intervenção da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ou do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza de Florestas) — nem sempre é o maior obstáculo à execução dos projetos de energias renováveis. A central solar fotovoltaica Fernando Pessoa está prevista para o concelho de Santiago do Cacém e obteve uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada em jane...

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Governo assina contrato para DSTelecom levar fibra ótica a todo o país

Miguel Pinto Luz evidenciou que este projeto vai 'tornar viável viver e trabalhar fora das áreas metropolitanas'. - Luís Manuel Neves / Medialivre O Governo já assinou o contrato que vai permitir que a DSTelecom equipe Portugal com rede de fibra ótica, eliminando a atual fragmentação - as chamadas áreas brancas - que se tem sentido no acesso a internet, especialmente àquela de alta velocidade. O contrato foi assinado com as cinco Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional e a operadora que ganhou o concurso internacional em 2025. A DSTelecom vai ficar responsável pela instalação, gestão, exploração e manutenção das redes de comunicações eletrónicas de capacidade muito elevada, tendo o objetivo de dar cobertura a todo o território nacional. De acordo com o Executivo, esta instalação e consequente implementação visar levar internet mais rápida a edifícios residenciais e não residenciais, nomeadamente à indústria, comércio e atividades agrícolas. Em comunicado, o ministro...