Avançar para o conteúdo principal

Afinal o Ministro mentiu, Cravinho foi informado da derrapagem das obras do antigo Hospital Militar


João Gomes Cravinho actualmente ministro dos Negócios Estrangeiros era ministro da Defesa, Foto: NUNO FERREIRA SANTOS


Num ofício de Março de 2020, com as obras já a decorrer, o DGRDN informou o então ministro da Defesa sobre “trabalhos adicionais” que já somavam quase um milhão de euros a mais, avança o Expresso.


João Gomes Cravinho actualmente ministro dos Negócios Estrangeiros era ministro da Defesa NUNO FERREIRA SANTOS


O ex-ministro da Defesa e actual ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, foi informado em Março de 2020 de que o custo das obras no antigo Hospital Militar de Belém estava a derrapar, noticia esta sexta-feira o jornal Expresso.


O governante tem dito que desconhecia a derrapagem de mais de dois milhões de euros, mas, segundo o jornal, que cita um ofício de Março de 2020, com as obras já a decorrer, o director-geral de Recursos de Defesa Nacional (DGRDN) – hoje arguido por corrupção e branqueamento na Operação Tempestade Perfeita –, informou o ministro sobre "trabalhos adicionais" que já somavam quase um milhão de euros extra.


"Ou seja, nesse documento já era explícito que a obra mais do que duplicara de valor", escreve o Expresso, que acrescenta que João Gomes Cravinho "tem sido definitivo em negar que conhecia a derrapagem de mais de 2 milhões de euros, recusando que tivesse autorizado uma despesa cujo limite era de 750 mil euros e que acabou por chegar aos 3,2 milhões de euros".


Quando foi ao Parlamento para um debate de urgência no dia 20 de Dezembro – na sequência da operação judicial que constituiu arguidos por corrupção três altos funcionários da DGRDN –, o ministro "foi muito claro", escreve o jornal, sublinhando: "disse que "não" autorizou nem lhe foi solicitado "que autorizasse" a despesa que resultou na mais do que triplicação do valor orçamentado para transformar o antigo hospital num Centro de Apoio Militar para doentes ligeiros com covid-19".


Contudo, acrescenta o jornal, Cravinho – que vai em breve à Comissão Parlamentar de Defesa, chamado pelo PSD sobre este tema – "tinha informação sobre o começo da derrapagem quando as obras ainda estavam no início".


De acordo com o Expresso, o ofício com essa contabilidade foi enviado pela DGRDN para o gabinete do ministro da Defesa, com conhecimento ao secretário de Estado da Defesa, Jorge Seguro Sanches, apresentando "a situação da execução dos trabalhos" em três pontos.


"No primeiro, o DGRDN assumia que o orçamento "original dos trabalhos" era de "750 mil euros". Num segundo ponto, descrevia os "trabalhos extra solicitados pelo Exército", que integrava a equipa de gestão do projecto: rede eléctrica, reabilitação da climatização, substituição de caldeiras por um sistema a gás, reabilitação dos elevadores e instalação de um sistema automático de detecção de incêndios (obrigatório por lei), entre outras obras explica o jornal.


O Expresso diz ainda que "o documento explicitava que estes trabalhos tinham um orçamento extraordinário de 420 mil euros e informava que a DGRDN "deu início à execução"".


Um terceiro ponto deste ofício referia a "visita do director" clínico do futuro centro, o major-general Carlos Lopes, que considerou serem "necessários" mais "trabalhos adicionais": limpeza de telhados e condutas, salas de trabalho e salas de descanso para médicos e enfermeiros, uma farmácia hospitalar, armazém para material médico e de escritório, recuperação da morgue e dois ascensores para a alimentação, adianta.


Neste caso, as propostas não excediam os 500 mil euros. Ou seja, seriam 920 mil euros a mais do que os 750 mil iniciais, quase 1,7 milhões de euros no total da obra, mais IVA.


O jornal refere igualmente que o documento, da autoria de Alberto Coelho, "tinha a assinatura digital do subdirector-geral, major-general Côrte-Real Andrade".


Questionado pelo Expresso sobre este documento, o gabinete do agora ministro dos Negócios Estrangeiros remeteu para uma resposta dada ao Diário de Notícias em Março de 2021, que noticiava a existência deste memorando.


Na altura, o então ministro da Defesa respondeu que "todos os documentos relevantes respeitantes a este processo constam do processo de auditoria mandado instaurar pelo MDN, desenvolvido pela Inspecção-Geral da Defesa Nacional (IGDN) e entregue no Tribunal de Contas, na sequência do despacho do ministro da Defesa".


Sem negar a existência do documento, Cravinho sublinhou "que não foram autorizados nem tão-pouco propostos ao Governo trabalhos extra do Exército com um valor de 920 mil euros".


O Expresso escreve ainda que, quatro meses depois do ofício da DGRDN, no dia 23 de Julho de 2020, o secretário de Estado Jorge Seguro Sanches fez um despacho que o ministro Cravinho assinaria "com elevada preocupação": identificava as ilegalidades nos ajustes directos e na realização de despesas por parte de Alberto Coe­lho sem autorização superior, o que daria origem à auditoria da IGDN e depois à operação judicial Tempestade Perfeita.


Cravinho foi informado da derrapagem das obras do antigo Hospital Militar | Corrupção | PÚBLICO (publico.pt)


Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Engenheiro cria guarda-chuva voador que segue o utilizador

A imagem mostra o engenheiro Josh Tse com sua invenção Engenheiro cria guarda-chuva voador que segue o dono pelas ruas com radar tecnológico e muda o conceito de chegar seco em casa Criado por John Tse, o equipamento funciona como um drone adaptado com uma cobertura para proteger a pessoa da chuva A primeira versão da invenção ainda dependia de um controle remoto/Reprodução Um engenheiro canadense criou um guarda-chuva voador capaz de acompanhar o usuário enquanto ele caminha. A invenção mistura a tecnologia dos drones com um objeto tradicional do dia a dia e chama atenção por parecer ter saído de um filme de ficção científica. Criado por John Tse, o equipamento funciona como um drone adaptado com uma cobertura para proteger a pessoa da chuva. O dispositivo permanece no ar acima da cabeça do usuário e acompanha seus movimentos sem que seja necessário segurar o guarda-chuva. Para conseguir realizar essa tarefa, o projeto utiliza hélices, motores elétricos, sensores e uma câmera instalad...

Passe ferroviário verde vai ser alargado a linhas suburbanas "provavelmente já em setembro"

António Pedro Santos / Lusa  O passe que custa 20 euros atualmente permite viajar em toda a rede de comboios regionais, nos Intercidades (com necessidade de pré-reserva) e nos troços de urbanos que não estão incluídos em títulos intermodais. O passe ferroviário verde vai ser alargado aos comboios suburbanos "provavelmente já em setembro", anunciou esta sexta-feira o primeiro-ministro, Luís Montenegro, na tradicional Festa do Pontal do PSD, no Algarve. Atualmente, o passe ferroviário verde, que tem um custo de 20 euros, permite circular em toda a rede de comboios regionais, nos Intercidades (com necessidade de pré-reserva) e nos troços de urbanos que não estão incluídos em títulos intermodais. De fora estavam os comboios Alfa Pendular e as linhas suburbanas que tinham outros passes, nomeadamente as da Grande Lisboa e Área Metropolitana do Porto. Agora, segundo frisou o presidente do PSD e primeiro-ministro, também as linhas suburbanas estarão abrangidas. O Passe Ferroviário Ve...