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Analistas afastam que Evergrande seja Lehman chinês e provoque crise mundial


 © JEROME FAVRE/EPA


 Os 260 mil milhões de euros de dívida da Evergrande representam só 2% do total do crédito imobiliário na China.


Os analistas contactados pela Lusa descartam que se possa comparar o caso da chinesa Evergrande à queda do banco norte-americano Lehman Brothers, que marcou o início do último grande sismo financeiro, afastando uma crise mundial.


O analista do banco BIG João Lampreia disse que considerar esta situação "um momento Lehman Brothers não faz sentido", ainda que a empresa Evergrande seja das maiores construtoras e imobiliárias da China.


A menção ao Lehman Brothers recorda a queda deste banco de investimento dos EUA em 2008, uma das instituições financeiras mais prestigiadas de Wall Street, que sucumbiu aos créditos imobiliários sem qualidade ou de qualidade fraca, os designados "subprime". A sua falência precipitou a economia internacional em 2008 na pior crise financeira desde 1929, seguida de uma crise económica.


O analista estimou que haja perdas, sobretudo para acionistas e obrigacionistas da Evergrande, mas que tal já não é novidade para os mercados, que já o antecipavam. Além disso, o mercado imobiliário e o mercado financeiro tinham um nível de entrecruzamento nos Estados Unidos que não se compara com o que se passa na China, pelo que o impacto desta empresa não será o mesmo.


Contudo, afirmou, este caso demonstra como o abrandamento da economia chinesa representa um risco para o mundo, mas que também houve aqui um oportunismo dos mercados para corrigirem riscos excessivos.


Estimou ainda que, a médio e longo prazo, possa ter efeitos benéficos na economia, pois é provável que o Governo de Xi Jinping reverta a política de contração iniciada no início do ano e que para conter riscos mais graves dê como resposta uma política monetária mais favorável aos ativos chineses.



Também o mercado imobiliário chinês, disse, não deverá rebentar, pois, apesar de relatos de cidades fantasma, nas grandes cidades há um grave problema de oferta para a elevada procura. Além disso, os 300 mil milhões de dólares (cerca de 260 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual) de dívida da Evergrande representam só 2% do total do crédito imobiliário na China.


Segundo Eduardo Silva, analista da XTB, os mercados ficaram nervosos com a informação de que o Governo chinês não estaria disponível para resgatar a empresa e preocupados com o efeito sistémico deste conglomerado da segunda maior economia do mundo.


Contudo, disse acreditar que haverá ajudas indiretas, que o executivo chinês irá arranjar maneira de intervir na sombra.


Ainda assim, afirmou, qualquer "tipo de solução arrasta problemas para alguém, que terão de assumir perdas", mas afastou uma crise mundial decorrente da Evergrande.


Também Ricardo Evangelista, analista da ActivTrades, considerou que a Evergrande "não é outro Lehman Brothers, nem nada que se pareça", que a dívida emitida pela empresa é detida, sobretudo, por empresas chinesas e investidores chineses e que haverá medidas de menorização dos danos.



Sobre as consequências, considerou que no imediato o principal efeito poderá ser de alguma desaceleração da economia chinesa, poderá diminuir a confiança dos agentes económicos (por exemplo, reduzindo a compra de casas), mas que em poucos meses estarão ultrapassados os seus efeitos.


Depois do sobressalto nas bolsas de segunda-feira, esta quarta-feira já estiveram mais calmas, considerando mesmo Ricardo Evagelista que muita da ansiedade nos mercados se terá devido à expectativa face ao que a Reserva Federal dos EUA (Fed) iria anunciar.


Evergrande, o maior promotor imobiliário da China, assegura estar presente em mais de 280 cidades, empregar 200 mil pessoas e gerar indiretamente 3,8 milhões de empregos.


A empresa cresceu graças ao fácil acesso a crédito na China e à especulação imobiliária.


Desde há uma dezena de anos que o grupo se diversificou e multiplicou as aquisições. Possui um clube de futebol, o Guangzhou FC (ex-Guangzhou Evergrande), que é treinado pelo italiano campeão do mundo Fabio Cannavaro.


Está também presente no florescente mercado alimentar e de água mineral, com a sua marca Evergrande Spring, e sonha abrir parques de diversão "ainda maiores" do que a Disney, bem como investir no turismo, internet e digital, seguros e saúde.


Estas elevadas despesas foram financiadas por créditos negociados por Xu Jiayinn, o fundador da Evergrande que se tornou a quinta maior fortuna da China.


Em 2020, o Governo chinês tomou medidas severas dirigidas aos promotores imobiliários, para os obrigar a reduzir o endividamento. Agora, é-lhes interdito pré-vender bens imobiliários antes que a construção esteja terminada, um sistema que representava uma parte importante do modelo económico da Evergrande.


O grupo perdeu a capacidade de reembolsar os empréstimos contraídos, pondo em causa o reembolso de dois empréstimos. Perante os receios, muitos clientes pequenos que detêm dívida da Evergrande foram, nos últimos dias, a escritórios da empresa pedir para ser devolvido o seu dinheiro.


A situação do grupo pôs as atenções na intervenção do Governo chinês.


Na quarta-feira, a Evergrande disse ter chegado a um acordo com os detentores de obrigações para evitar o incumprimento de uma das suas dívidas.


O imobiliário é um motor essencial da economia chinesa. Representa cerca de um quarto do Produto Interno Bruto e desempenhou um papel determinante na recuperação depois da pandemia.


https://www.dinheirovivo.pt/economia/internacional/analistas-afastam-que-evergrande-seja-lehman-chines-e-provoque-crise-mundial-14150423.html

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