Avançar para o conteúdo principal

O Preço da Eletricidade: Um Terror até 2032, Agravado com Hidrogénio

Clemente Pedro Nunes
opiniao@newsplex.pt

 Surgiu agora o famoso Projeto do Hidrogénio baseado na eletrólise da água. E a receita é exatamente a mesma que o Governo Sócrates utilizou em 2005.


Em 2005 o Governo Sócrates decidiu que “os consumidores tinham que pagar o que fosse preciso” para se viabilizar a ideia absurda de se basear o Sistema Elétrico português em 6.000 MW de potências intermitentes, eólicas e solares.


Por isso concederam aos respetivos promotores FIT – Feed In Tariffs, dando-lhes a garantia absoluta de preços muito elevados, e além disso o privilégio de expulsar todos os concorrentes sempre que quisessem, e tudo isso pelo prazo de 15 anos!


O esquema foi promover estas tecnologias, na altura completamente imaturas, garantindo aos investidores que alinhassem rendas muito elevadas. E isto à custa dos consumidores que, devido ao circo mediático montado na altura, nem se aperceberam que ficavam amarrados por longos anos a um Sistema Elétrico desastroso .


Para os observadores atentos, era já óbvia na altura a completa irracionalidade de se basear o sistema elétrico em 6.000 MW de potências intermitentes, que é muito mais elevado que o consumo em vazio que é apenas de 3.900 MW .


Como a generalidade dos 600 MW das potências solares, com FIT vieram a arrancar em 2013, vamos continuar a pagar a loucura dos 380 Euros/MWh até 2028!


E relativamente aos 5.400 MW de Potências eólicas a 100 Euros/MWh, esse pesadelo foi entretanto prolongado, à nossa custa, até 2032!


E como entretanto os preços do petróleo e do Gás Natural desceram para 40 USD/barril, e os custos das novas tecnologias desenvolvidas depois de 2005 vieram a tornar a eletricidade solar e eólica muito mais barata, os consumidores portugueses estão agora a pagar na fatura da eletricidade um sobrecusto de cerca de 2.000 milhões de euros por ano, face ao atual preço de eletricidade em mercado de apenas 40 Euros/ MWh!


E estão obrigados a continuar a pagar este sobrecusto anual até 2032, prejudicando gravemente os orçamentos familiares e a competitividade das empresas de bens transacionáveis, que têm que fazer face à concorrência de países com energia muito mais barata do que nós .


O efeito negativo desta situação no conjunto da economia portuguesa tem sido brutal, e é uma das principais causas do marasmo económico nos últimos 15 anos, e do facto da generalidade dos países da Europa Central, e que pertenciam ao antigo bloco soviético, nos terem já ultrapassado em termos de PIB per capita .


Mas a desgraça infelizmente não acaba aqui.


Como as Centrais de backup, que cobrem as falhas das intermitências eólicas e solares, são obrigadas a ter um funcionamento completamente ineficiente, baseado num regime de pára/arranca, a respetiva exploração tornou-se economicamente inviável, desde que não tenham a proteção duma CAE ou dum CMEC.


Por isso a EDP quer agora fechar a sua Central de Sines, porque o respetivo CMEC terminou em 2019.


E por isso as Centrais do Pego e da Tapada do Outeiro também pretendem encerrar, quando os seus CAE terminarem em 2021 e em 2025, respetivamente.


Só que o Sistema Elétrico não pode funcionar sem ter potências de backup, ou seja de centrais que têm de funcionar para se garantir o fornecimento de eletricidade quando não houver sol ou vento, e assim evitar o risco de sucessivos “apagões”.


Uma solução óbvia para se ter o necessário backup seria, por um lado o reforço das Centrais a biomassa, que é renovável, que se pode armazenar e não é portanto intermitente, e promove a limpeza das nossas florestas, e por outro lado o reforço das interligações elétricas entre a França e a Peninsula Ibérica .


Em vez disso, surgiu agora o famoso Projeto do Hidrogénio baseado na eletrólise da água.


E a receita é exatamente a mesma que o Governo Sócrates utilizou em 2005:


monta-se um circo mediático para promover uma tecnologia ainda imatura, anunciando que “se vai salvar o planeta”;


os promotores que alinham ficam com a garantia de terem rentabilidades que tornem atrativos os investimentos que tenham que fazer;


os consumidores “são obrigados por lei a pagar o que for preciso para que isso aconteça”!...


E é infelizmente isto que estabelece a Resolução do Conselho de Ministros nº 63/2020, de 14 de Agosto, ao estabelecer “sete metas obrigatórias a cumprir até 2030”, e que incluem 2.500MW de eletrolisadores, 15% de hidrogénio na rede de gás natural e 5% no transporte rodoviário, com a instalação de 100 pontos de abastecimento para o efeito .


Ao leitor irá restar o privilégio de “pagar o que for preciso para que estas metas sejam cumpridas”, embora não se conheçam nem as tecnologias nem os custos que isso implica.


Em cima do terror a que já estávamos condenados até 2032, e do peso de 3.000 milhões de euros da Dívida Tarifária do Setor Elétrico, vamos agora ter também o hidrogénio às nossas costas.


Precisamos duma Democracia de Qualidade para evitar estas calamidades !


 

Clemente Pedro Nunes

opiniao@newsplex.pt

Professor catedrático do Instituto Superior Técnico

Subscritor do manifesto Por Uma Democracia de Qualidade


https://ionline.sapo.pt/artigo/711239/-o-preco-da-eletricidade-um-terror-ate-2032-agravado-com-hidrogenio?seccao=Opini%C3%A3o

Comentários

Notícias mais vistas:

Rendas congeladas “desesperam” proprietários e inquilinos apontam despejos como medida “oportunista”

Foto: Rodolfo Alexandre Reis  Luís Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários diz que as propostas do Governo sobre o descongelamento das rendas são “minúsculas” e que mesmo em relação ao despejos “falta muito por esclarecer”. Já António Machado, líder da Associação de Inquilinos Lisbonenses considera que aumentar a liberalização dos contratos significa que “a parte mais fraca ainda fica mais fraca”. Concordam em discordar. É desta forma que os proprietários e inquilinos olham para o conjunto de medidas apresentadas pelo Governo sobre o novo regime do arrendamento urbano (NRAU). No lado da Associação Lisbonense de Proprietários (ALP), o presidente Luís Menezes Leitão, lamenta que o congelamento das rendas antigas a 1990, um dos principais cavalos de batalha da ALP se mantenha praticamente inalterado. “As alterações são minúsculas e só têm significado relativamente a inquilinos que ganhem acima de cinco salários mínimos mensais e mesmo assim estabelece a fi...

Hidrogénio verde deve começar a ser produzido em Sines em 2025

 © Paulo Spranger/Global Imagens  GreenH2Atlantic é o projeto que integra empresas como a EDP, Galp, Martifer, Efacec e Bondalti, e que acaba de receber luz verde de Bruxelas. Construção da unidade industrial apontada para 2023. Início da produção em 2025. A partir da central termoelétrica de Sines vai começar-se a produzir hidrogénio renovável (leia-se verde) dentro de quatro anos, graças ao projeto GreenH2Atlantic. Este projeto é responsabilidade de um consórcio de 13 entidades e acaba de ser selecionado por Bruxelas para ser apoiado por um fundo de 30 milhões de euros, no âmbito do programa Horizon 2020 - Green Deal, foi esta terça-feira anunciado. "Um consórcio de 13 empresas e parceiros de investigação foi selecionado pela Comissão Europeia no âmbito do Green Deal para desenvolver um projeto de produção de hidrogénio verde de 100 MW [megawatts] em Sines", lê-se num comunicado da EDP, que integra o projeto. O consórcio integra também a Galp, a Martifer, a Efacec, a Engie,...

Citi e Bank of America são mais dois bancos dos EUA a restringir acesso de IA a contas de clientes

 Nova York e Londres |Financial Times Citigroup e Bank of America tornaram-se os mais recentes bancos dos EUA a restringir o acesso de agentes de IA às contas de clientes, em meio a preocupações expostas pelas instituições aos órgãos reguladores de que esses agentes possam esvaziar depósitos ao movimentar recursos ociosos em busca de rendimentos mais altos. O Citi afirmou não permitir que "agentes ou assistentes de IA de terceiros acessem a conta de um cliente ou realizem transações diretamente em nossas plataformas bancárias digitais", informando que a medida foi concebida para ajudar a proteger as contas e as informações dos clientes. Brian Moynihan, do Bank of America, também indicou que o banco passou a restringir o acesso de agentes de IA aos depósitos de pessoas físicas enquanto elabora protocolos para determinar qual entidade seria, em última instância, responsável por pagamentos autorizados por inteligência artificial. Reflexo de quatro pedestres caminhando em frente ...