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Investimento cresceu a um nível recorde mas pode não durar

O investimento cresceu 17,8% no primeiro trimestre, a maior variação num trimestre em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior desde que há registo. Esta aceleração recorde do investimento permitiu à economia não abrandar, compensando o menor contributo da procura externa líquida e do consumo privado para a economia. Mas esta taxa recorde pode não ser sustentável.

Aumento dos inventários das empresas ajuda investimento mas não dura
Uma parte substancial do aumento do investimento deve-se à variação de existências, ou seja, ao aumento dos bens e serviços que as empresas têm nos seus inventários. O aumento dos inventários significa que as empresas têm em stock mais bens produzidos ou em fase de produção que ainda não foram vendidas, e apesar de ainda não terem sido vendidos contam como investimento.

O aumento dos inventários também ajuda a fazer crescer o PIB — segundo o BPI deu um contributo de 1,1 pontos percentuais para o crescimento de 1,8% verificado no primeiro trimestre — porque os bens produzidos são contabilizados como se fossem vendidos nesse ano.

Nas contas do primeiro trimestre, o investimento total em termos homólogos cresceu 17,8%, mas quando se retiram os inventários o investimento (a Formação Brutal de Capital Fixo) passa a ter um crescimento de “apenas” 11,7%. A diferença é de 6,1 pontos percentuais, uma parte considerável do investimento total.

Para as contas do PIB, este aumento dos inventários ajudou a compensar o abrandamento do consumo privado e público, mas estes aumentos são temporários e as empresas acabarão por escoar o seu stock de bens, o que pode levar a uma diminuição do valor total do investimento nos próximos trimestres, como diz o próprio BPI: “a variação das existências teve um forte contributo para o avanço do PIB nos primeiros três meses do ano (+1,1 pontos percentuais), o que poderá traduzir-se num desempenho mais fraco do investimento no trimestre sucessivo”.

No próximo trimestre, este crescimento histórico do investimento já poderá sofrer um reajustamento por esta via. A boa notícia para a economia portuguesa é que, segundo o INE, a confiança dos consumidores aumentou em abril e maio, com os consumidores a revelarem neste inquérito que devem aumentar a “realização de compras importantes“. Caso isto não se tenha verificado, as empresas podem começar a produzir menos, o que no limite levaria mesmo à necessidade de menos recursos, como o número de trabalhadores.

Abril, águas mil: um mau prenúncio para a Construção
Uma parte importante do aumento do investimento deve-se a um crescimento significativo da construção nos três primeiros meses do ano, 12,4% em comparação com o primeiro trimestre do ano passado.

Aqui a comparação tem um impacto importante. No primeiro trimestre de 2018, a construção só tinha crescido 2,1%, por isso há um efeito base que leva a que este aumento pareça maior.

Parte da explicação para o crescimento baixo verificado no início de 2018 deve-se a um mês de março de 2018 especialmente chuvoso. Aliás, o INE fez essa nota no destaque das contas nacionais do primeiro trimestre de 2018: “Refira-se que em março se registaram elevados níveis de precipitação, o que poderá ter condicionado a atividade de construção”.

O próprio INE, questionado pelo ECO, disse que este aumento significativo “em parte, poderá estar em parte associado a um efeito base do abrandamento observado no primeiro trimestre de 2018”.

Mas além do efeito base para estas contas, é preciso ter em conta a meteorologia deste ano. Em março, o país atravessava ainda um período de seca severa, o que ajuda à construção, mas o mês de abril já foi completamente diferente. Segundo o próprio ministro do Ambiente, o mês de abril de 2019 foi um dos mais chuvosos deste século, o que afeta a construção e deverá ter impacto no nível de investimento quando saírem os números do segundo trimestre.

“Foi mais uma reunião da comissão permanente de acompanhamento da seca que ocorreu no final de um mês de abril, que foi dos mais chuvosos do século. A chuva esteve 150 % acima do normal e, por isso, a situação da seca atenuou-se bastante em Portugal ao longo deste mês”, disse o ministro do Ambiente a 8 de maio.

A construção no primeiro trimestre representou 50% da Formação Bruta de Capital Fixo (investimento, sem inventários), o que faz com que o nível de investimento seja muito sensível a variações na construção.

A síntese económica de conjuntura do INE já aponta algum pessimismo do setor após um primeiro trimestre forte. O indicador de confiança da Construção e Obras Públicas atingiu em fevereiro deste ano o valor mais alto desde março de 2002, mas tem mantido um perfil negativo desde então e voltou a diminuir em maio. “A evolução do indicador refletiu o contributo negativo de ambas as componentes, apreciações sobre a carteira de encomendas e perspetivas de emprego”.

Aviões da TAP não contam para o investimento
No início do mês, o BPI estabeleceu uma ligação entre os aviões da TAP e o crescimento da economia, mas o INE explica que os oito aviões que a TAP já recebeu este ano (espera receber 30 ao longo de 2019) não darão qualquer impulso ao PIB.

Isto acontece porque a TAP recebe estes aviões através de uma locação operacional, logo não há transferência da propriedade económica para empresa. O proprietário legal continua a ser o proprietário económico, neste caso a francesa Airbus.

O INE já tinha explicado isto mesmo na sua síntese económica de conjuntura: “refira-se que o forte crescimento das importações de outro material de transporte em março, de acordo com os dados do comércio internacional que regista o movimento físico dos bens, reflete em grande medida a entrada de equipamento em regime de locação operacional. Contudo, em Contas Nacionais, a entrada destes equipamentos não é registada como importação nem como investimento, dado que a propriedade económica pertence à entidade locatária não residente. O indicador de investimento em material de transporte, que segue as regras da contabilidade nacional, não inclui equipamentos utilizados de acordo com o regime de locação operacional”.

Ou seja, apesar de nas estatísticas das importações a entrada dos 30 novos aviões — 16 A330 Neo, quatro A321 Long Range, cinco A321 Neo e cinco A320 Neo – estar registada, para o cálculo do PIB, por ser uma locação operacional, o investimento da TAP não conta nem como importações, nem como investimento.

https://eco.sapo.pt/2019/05/31/investimento-cresceu-a-um-nivel-recorde-mas-pode-nao-durar/amp/

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