Avançar para o conteúdo principal

Este país esteve à beira da bancarrota na mesma altura de Portugal. Agora tem um problema diferente: dinheiro a mais


Grande parte da vida de Dublin passa-se junto ao rio (Peter Morrison/AP)

Opiniões dividem-se sobre a melhor forma de gastar o dinheiro. Agora ou no futuro? A Irlanda tem excedentes na casa dos 8.600 milhões de euros - mais do que 10 vezes acima da 'almofada' portuguesa para este ano. É um problema com que muitos países gostariam de lidar

Lembra-se dos anos da crise? Se não, regresse connosco até ao início do início da década de 2010. Foi nessa altura que três países europeus, à beira da bancarrota, saltaram para as bocas do mundo por precisarem de pacotes de resgate financeiro. E pelas medidas de austeridade que tiveram de adotar para lidar com eles.

Um deles sabe de certeza, até porque o sentiu na pele: Portugal, com um pacote de 78 mil milhões de euros. Antes disso, já a Grécia e a Irlanda tinham pedido a ajuda da chamada Troika: o Fundo Monetário Internacional, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu.

Desde então, as comparações entre Portugal e a Irlanda são constantes. Só que agora os irlandeses estão a lidar com um ‘problema’ ligeiramente diferente: excesso de dinheiro. Com o terceiro ano consecutivo de excedentes orçamentais, acima dos oito mil milhões de euros, instala-se o debate: o que fazer ao excedente?

E as opiniões, naturalmente, dividem-se. Há economistas a defender que se trata de uma oportunidade única para fazer um investimento público nas necessidades mais urgentes para a população. Contudo, o governo - talvez algo escaldado com os fantasmas da austeridade - escuda-se na volatilidade das receitas fiscais e na necessidade de ter uma 'almofada' financeira que permita, no futuro, dar resposta a grandes desafios na área das pensões, alterações climáticas e infraestruturas.

(RM Ireland/Alamy Stock Photo)

'Almofada' dez vezes maior do que a portuguesa

Mais de uma década após a intervenção da troika, a Irlanda tem um problema que a maioria dos países gostaria de ter: dinheiro para gastar. Além do excedente orçamental na ordem dos 8.600 milhões de euros, há outro aspeto positivo a ter em conta: uma economia que cresceu cinco vezes mais rápido do que se esperava no ano passado.

Para efeitos de comparação, aqui vão as perspectivas para Portugal: para este ano está previsto um excedente orçamental de 664 milhões de euros, para o próximo ano aproxima-se dos 800 milhões. Ou seja, a 'almofada' da Irlanda é mais do que 10 vezes superior ao valor previsto em Portugal.

Parte do sucesso irlandês assenta no facto de o país se ter transformado no lar de grandes multinacionais, sobretudo farmacêuticas e tecnológicas. São esperadas receitas fiscais de 24,5 mil milhões de euros este ano. E é daí que partem também alguns receios de Dublin, que olha para este encaixe como temporário, volátil e sem grande margem para continuar a crescer ao ritmo atual - o que já levou inclusive a uma revisão em baixa dos números dos excedentes para os próximos anos. 

O mesmo dinheiro, caminhos diferentes

Muitas têm sido as vozes, incluindo de especialistas, a defender que era tempo de aplicar estes sucessivos bónus nas contas públicas nas necessidades mais urgentes da população. E exemplos há muitos: habitação, infraestruturas de energia, sistema de saúde, sistema de transportes, combate à solidão, à ansiedade e à pobreza infantil.

“O problema da Irlanda não é ter dinheiro suficiente, é ter demasiado”, resume Gerard Brady, economista chefe na Ibec, citado pelo Financial Times. “Há uma necessidade gigante de investimento público e uma oportunidade única nesta geração para financiá-lo”, completa o economista David McWilliams, ouvido no mesmo artigo.

A expectativa é de que a proximidade às eleições, marcadas para 2025, possa ajudar a abrir um bocadinho mais os cordões à bolsa no orçamento do Estado que já está a ser preparado, com medidas cujos efeitos se fazem sentir diretamente no bolso dos contribuintes.

O governo, até agora, já prometeu incluir 6,9 mil milhões de euros em despesas e outros 1,4 mil milhões em medidas fiscais. São números que violam a regra auto-imposta de não aumentar os gastos acima de 5% ao ano, recorda o Financial Times.

Dublin - que não tem deixado de usar o dinheiro para renegociar a dívida pública ou apoiar medidas de resposta à covid-19 e à subida da inflação - tem, segundo os especialistas, uma visão mais a longo prazo: optou, por exemplo, por colocar mais de 100 mil milhões de euros em dois fundos soberanos até 2035 para responder a necessidades futuras no campo das pensões, alterações climáticas e infraestruturas. 


Este país esteve à beira da bancarrota na mesma altura de Portugal. Agora tem um problema diferente: dinheiro a mais - CNN Portugal (iol.pt)


Comentários

Notícias mais vistas:

Uma empresa que quase só dá prejuízo está prestes a fazer do homem mais rico do mundo o primeiro trilionário da história

 O objetivo traçado pela SpaceX é claro mas ousado: "construir os sistemas e as tecnologias necessárias para tornar a vida multiplanetária, compreender a verdadeira natureza do Universo e estender a luz da consciência às estrelas" A SpaceX revelou esta quarta-feira os tão aguardados planos de entrar em bolsa, lançando luz sobre as finanças e a liderança de uma das maiores, mais conhecidas e, ainda assim, mais secretas empresas privadas da história. A empresa de foguetões e satélites de Elon Musk revelou detalhes até agora desconhecidos, incluindo os seus membros do conselho, as vendas, os lucros, as despesas e a forma como opera. As suas ações serão negociadas na bolsa sob o código SPCX. Um dado que não foi divulgado: quanto é que a empresa espera arrecadar e qual o seu valor potencial naquela que está amplamente prevista ser a maior oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) da história - talvez até três vezes superior. Estes detalhes serão divulgados posteriormente, p...

BYD negocia compra de fábricas da Stellantis para dominar a Europa

Fábricas da Stellantis na Itália estão entre os principais alvos da BYD (Foto: Stellantis | Divulgação)  Gigante chinesa busca assumir unidades subutilizadas e descarta parcerias para manter controle direto; Itália é um dos mercados no radar da companhia A BYD confirmou estar em negociações com a Stellantis e outras montadoras para adquirir fábricas subutilizadas no território europeu, afirmou a Bloomberg. A estratégia visa consolidar a presença industrial da marca no continente e acelerar a produção local, conforme revelado pela vice-presidente executiva da companhia, Stella Li, durante a conferência “Future of the Car”, em Londres. A executiva destacou que a BYD avalia oportunidades em diversos países, com atenção especial à Itália. O país vive um impasse entre o governo e a Stellantis, com Roma pressionando o grupo para que atinja a meta de 1 milhão de veículos produzidos anualmente em plantas italianas. Para a BYD, a prioridade é a gestão direta: a fabricante prefere operar as ...

Stellantis quer democratizar elétricos na Europa com o programa E-Car

 A Stellantis lançou um novo programa de desenvolvimento de automóveis elétricos compactos e acessíveis para a Europa. O grupo automóvel quer lançar novos veículos elétricos compactos a partir de 2028, com produção inicial na fábrica italiana de Pomigliano d’Arco. A Stellantis anunciou o arranque de um novo projeto para desenvolver automóveis elétricos acessíveis. Denominado “E-Car” , é um programa de desenvolvimento de carros elétricos compactos e acessíveis que visa impulsionar o emprego europeu nas áreas do design e da produção automóvel, mas também acelerar a adoção de veículos 100% elétricos na Europa. A produção destes modelos tem arranque previsto para 2028 na unidade de Pomigliano d’Arco, em Itália. Uma unidade com capacidade para fabricar quase 300 mil veículos por ano, agora inserida naquela que é uma aposta para reforçar a mobilidade elétrica urbana e recuperar o segmento dos automóveis pequenos no mercado europeu. O regresso do carro do povo? A Stellantis refere que os ...