Avançar para o conteúdo principal

“Esconde-se um problema muito grave por baixo disto”: DGS diz que contagem de tempos de espera para cirurgias permite “maquilhar” resultados



 O diretor do Programa Nacional das Doenças Oncológicas da Direção-geral da Saúde defendeu hoje ser necessário rever e "blindar" os critérios de contabilização dos Tempos Máximos de Resposta Garantidos, alertando que, neste momento, o sistema permite maquilhar resultados.


"O sistema, como está neste momento, dá para maquiar resultados e isto não pode acontecer. O sistema tem de estar blindado. E isto é o que nós queremos", afirmou José Dinis, questionado pela Lusa sobre os tempos de espera no Serviço Nacional de Saúde (SNS) para cirurgia em oncologia.


Reconhecendo que à data da sua implementação, a medida foi "uma pedra no charco", para o médico oncologista é tempo de "rever todo processo, desde como são definidos e são implementados", em face das incongruências na aplicação daquele mecanismo.


De acordo com uma análise da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), no primeiro semestre de 2023, na área de oncologia foram realizadas 30.697 cirurgias programadas nos hospitais públicos, o que equivale a menos 1% face a igual período de 2022, sendo que cerca de 19% foram atendidos com tempos de espera superiores ao estabelecido na legislação.


Os dados, a que a Lusa teve acesso na quinta-feira, dão ainda nota de que a 30 de junho de 2023, mais de 7.000 utentes aguardavam cirurgia programada na área de oncologia, 18% dos quais com espera superior aos Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG).


Os TMRG garantem o direito de acesso dos utentes do SNS aos vários tipos de cuidados de saúde sem caráter de urgência, em tempo considerado clinicamente aceitável para a sua condição. No caso da cirurgia, há quatro níveis de intervenção: urgência (nível 4) -- três dias; muito prioritária (nível 3) -- 15 dias; prioritária (nível 2) -- 60 dias; prioridade normal (nível 1) -- 180 dias.


"A Entidade Reguladora da Saúde faz o seu papel. Tem classe I, II ou IV no papel e analisa, mas esconde-se um problema muito grave por baixo disto. E o Estado está alerta, não é só a ERS, é também o Tribunal de Contas. Compete-nos a nós como Estado repormos isto, mas é um trabalho que vai demorar anos", alertou.


O médico oncologista explicou que a forma como são calculados os tempos de espera, quer em meio intra-hospitalar como inter-hospitalar, não é objetiva o suficiente, permitindo que casos idênticos tenham respostas diferenciadas.


"O mesmo tumor, num hospital pode ter uma classificação, e noutra unidade de saúde, outra. E é isso que nós na estratégia nacional de luta contra o cancro - que acabou agora de ser aprovada - queremos uniformizar".


Acresce, prossegue, que o mesmo tumor pode ter uma classificação de prioritário num determinado hospital e, em outro muito prioritário.


"O hospital que operou 40 doentes todos com 18 dias de tempo de espera, tem 40% acima de tempo médio de resposta, e o outro hospital que classificou o mesmo género de tumor como prioritário que são 45 dias, e o fez em 38, diz está tudo bem e não operamos ninguém acima do tempo médio de resposta garantido", exemplificou.


"Pelo menos, apertar a malha temos de o fazer, porque o que nós temos neste momento, é uma malha muito larga", sublinhou.


José Dinis considerou ainda necessário uniformizar os critérios pelos quais o tempo de espera começa a contar, defendendo que a atual portaria "torna o doente indefeso".


"O tempo começa a contar é quando o doente dá o seu assentimento e assina o documento. O doente pode assinar no momento da consulta multidisciplinar, como pode assinar uma semana antes da cirurgia e o doente que assinou no dia da consulta multidisciplinar esteve dois meses à espera, e o doente que teve uma consulta multidisciplinar não assinou e esteve 90 dias à espera e assina na véspera, conta como se tivesse três dias", detalhou.


"Temos de comparar alhos com alhos e bugalhos e bugalhos", rematou, alertando que os dados estatísticos em causa permitem uma comparação ano a ano, mas não dizem "onde é que está o problema".


“Esconde-se um problema muito grave por baixo disto”: DGS diz que contagem de tempos de espera para cirurgias permite “maquilhar” resultados - Expresso


Comentários

Notícias mais vistas:

Tesla acaba com compra única do Full Self-Driving na Europa e impõe subscrição mensal

 O Full Self-Driving (FSD) da Tesla passa a custar 99€ por mês na Europa, uma vez que a opção de compra única foi removida do configurador. A Tesla deixou de disponibilizar na Europa a opção de compra única do sistema Full Self-Driving (FSD), passando a exigir uma subscrição mensal para aceder às funcionalidades avançadas de assistência à condução. Até agora, os compradores podiam adquirir o FSD através de um pagamento único de 7.500€, garantindo acesso permanente às funcionalidades associadas ao sistema, mas essa possibilidade foi eliminada. Em sua substituição, a Tesla introduziu um modelo de subscrição mensal no valor de 99€ para novos utilizadores que pretendam ativar o pacote completo. Nos casos em que o veículo já inclui o Autopilot Aperfeiçoado, o acesso às funcionalidades adicionais do FSD passa a custar 49€/mês. A Tesla também retirou do mercado europeu o Autopilot Aperfeiçoado, que funcionava como uma opção intermédia e tinha um custo de 3.800€. Este pacote incluía funcio...

Thales revela arma de micro-ondas capaz de derrubar 80 drones

Thales revela arma de micro-ondas capaz de derrubar 80 drones (X @AlexXplore) Por Wilson: Ao contrário de outras armas deste tipo, cujo objectivo é cortar o GPS ou a comunicação com o piloto, esta possui potência suficiente para destruir os componentes electrónicos do drone. Assim, esta arma consegue ser eficaz contra a nova geração de drones autónomos que utiliza visão computacional e IA e não é dependente de GPS ou do piloto. Por carroemotos/Militarnyi:  A arma de micro-ondas RapidDestroyer, desenvolvida pela Thales UK e parceiros da indústria britânica de defesa, alcançou um marco importante ao destruir 80 drones durante uma série de testes recentes. O sistema foi criado para neutralizar enxames de aeronaves não tripuladas por meio de energia dirigida por radiofrequência, uma tecnologia considerada cada vez mais relevante diante da crescente ameaça representada pelos drones no campo de batalha. O projeto conta com o apoio do Ministério da Defesa do Reino Unido e reúne empresas c...

Fortuna da família Trump em stablecoin é impulsionada por relação com a Binance

  Um empreendimento cripto da família Trump está gerando lucros elevados com sua entrada no mercado de stablecoins, em parte graças a um acordo promocional com a Binance Holdings Ltd Representação — Foto: Bloomberg Um empreendimento cripto da família Trump está gerando lucros elevados com sua entrada no mercado de stablecoins, em parte graças a um acordo promocional com a Binance Holdings Ltd. A World Liberty Financial Inc., cofundada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e por seus filhos, está a caminho de gerar quase US$ 150 milhões neste ano com a emissão da USD1, um token atrelado ao dólar lançado em março de 2025, segundo análise da Bloomberg News com base em divulgações públicas e documentos financeiros. O crescimento da stablecoin foi impulsionado pela Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo, onde está concentrada a maior parte da USD1. A World Liberty não compartilha com a Binance a receita gerada pela USD1, segundo uma pessoa familiarizada com o as...