Avançar para o conteúdo principal

Preços da electricidade podem vir a ser negativos. Mas não terão impacto na factura


Energia eólica offshore (imagem de arquivo) © Paul ELLIS / AFP


 A partir de 6 de julho, é possível que uma empresa tenha de pagar para produzir eletricidade no mercado ibérico. Uma situação que dificilmente terá impacto no consumidor final. Os novos limites mínimos e máximos aprovados esta semana para o mercado ibérico de eletricidade (Mibel) vão trazer maior volatilidade de preços, cujos riscos as empresas poderão minimizar através de contratos de longo prazo ou, por exemplo, com soluções de armazenamento de energias renováveis.


Em causa estão as novas regras que vão alterar os limites de preço a que se podem colocar ofertas no mercado grossista de eletricidade em Portugal e em Espanha, alinhando-as com o restante espaço europeu, onde a possibilidade de produzir a preços negativos já era uma realidade há muitos anos. Na prática, estas alterações que decorrem de legislação e regulamentação europeia, mudam quer o limite inferior (que atualmente é de 0 euros por megawatt-hora (MWh), quer o limite superior (que atualmente se fixa nos 180 euros/MWh), passando a vigorar, respectivamente, limites de 500 euros negativos até ao tecto máximo de 3.000 euros por MWh.


Para a maioria dos consumidores domésticos estas mudanças, que decorrem de legislação e regulamentação europeia, poderão não ter impacto, pelo menos a curto prazo, uma vez que a maioria das famílias tem contratualizados tarifários por períodos de 12 meses, que reflectem o custo médio de aprovisionamento de energia do seu comercializador. E a longo prazo? "Sendo o preço de mercado o resultado do encontro de ofertas dos diferentes agentes, a real dimensão do impacte destas alterações de limites de preço só será observável com a sua implementação, sendo, nesta fase, prematuro estabelecer se o preço sobe ou desce por esta circunstância", explicou ao Dinheiro Vivo fonte oficial da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).


Em todo o caso, segundo o regulador, é de esperar que em situações de grande abundância de recursos para produção de eletricidade o preço possa até ser negativo - quem produz paga para produzir e quem consome recebe por consumir-, o que hoje não sucede porque o limite inferior de preço é zero, relembrou. Mas, em situações de extrema escassez de recursos pode acontcer o inverso, com os preços a subirem para valores acima do ainda atual limite. Ora, como não é do interesse dos produtores pagarem para produzir, não é expectável que a tendência de preços negativos, a ocorrer, se mantenha por tempo prolongado de modo a contribuir para uma expressiva alteração das tarifas cobradas aos consumidores.


Além disso, o preço refletido na fatura paga pelas famílias reflete normalmente o valor médio do preço de mercado grossista, sendo que este é mais afetado pelas condições estruturais - como o tipo de tecnologia instalada - do que pelas condições de curto prazo. "De todo o modo, na medida em que a teoria económica refere que um preço formado em condições mais eficientes sinaliza melhor o investimento (necessidades ou excessos), os consumidores tendem a ser beneficiados no longo prazo por uma mais eficiente utilização dos recursos do setor e da economia como um todo", acrescentou a ERSE.


Riscos e prémios


Apesar de as novas regras não terem grande impacto imediato na fatura dos consumidores, vai trazer vantagens para o mercado ibérico. Além de aproximar as regras do Mibel aos outros mercados europeus, este desenvolvimento no mercado vai permitir que os preços a curto prazo estejam mais adaptados à variabilidade na produção a partir de fontes renováveis, como o sol e o vento.


Com o reforço do investimento em energias limpas, "esperam-se períodos de maior volatilidade nos próximos anos e o mercado, e bem, vai agora ter a capacidade de refletir isso nos preços", contextualizou Ricardo Nunes, presidente da ACEMEL - Associação de Comercializadoras de Energia no Mercado Liberalizado. E alertou que com as novas regras, "agora mais que nunca vai ser fundamental ter um mercado ibérico de longo prazo (futuros entre outros instrumentos) que tenham profundidade, liquidez e até contratos menores para acertos, que comparem bem com os nossos congéneres europeus".


Este aumento da volatilidade traz riscos para as empresas, admite Ricardo Nunes, acrescentando que "esse risco terá sempre um prémio". Como? "Se for possível fixar o preço para um horizonte temporal maior através de instrumentos de compra/venda de longo prazo, essa volatilidade será obviamente minimizada". Outra das soluções para mitigar os efeitos negativos da volatilidade típica dos mercados de curto prazo (spot), passa pelas produtoras desenvolverem soluções "efetivas de armazenamento ou tecnologias renováveis mais consistentes que permitirão alisar a variabilidade do fotovoltaico e principalmente do eólico", concluiu.


https://www.dinheirovivo.pt/economia/precos-da-electricidade-podem-vir-a-ser-negativos-mas-nao-terao-impacto-na-factura-13755635.html

Comentários

Notícias mais vistas:

Forças da NATO não conseguiram detetar drones ucranianos em exercício militar em Portugal

    Drone Magura V7 da Inteligência Militar da Ucrânia, equipada com mísseis terra-ar, encontra-se num local não revelado na Ucrânia, no sábado, dia 6 de dezembro de 2025.  -    Direitos de autor    AP Photo Direitos de autor AP Photo O exercício experimental militar REPMUS25 aconteceu ao largo da costa portuguesa, no distrito de Setúbal, e pôs a nu algumas fragilidades das forças navais da NATO. Em cenário de guerra drones ucranianos teriam afundado uma fragata. O exercício experimental  REPMUS 25,  em paralelo com o exercício DYMS da NATO e considerado o maior a nível mundial no que diz respeito a sistemas não tripulados em âmbito marítimo, realizou-se entre Tróia e Sesimbra, no distrito de Setúbal, em setembro de 2025. PUBLICIDADE PUBLICIDADE No local estiveram duas equipas opositoras: a força RED ("força inimiga") liderada por militares da Ucrânia, que participou pela primeira vez, e por militares americanos, britânicos e espanhóis; ...

Bruxelas considera que é possível acabar com mudança da hora e vai apresentar estudo

 A Comissão Europeia considera que alcançar um consenso para acabar com a mudança da hora "ainda é possível" e vai apresentar um estudo nesse sentido este ano, com os Estados-membros a manifestarem-se disponíveis para analisá-lo assim que for entregue. Na madrugada do dia 29 deste mês, a hora volta a mudar em toda a União Europeia (UE), para dar início ao horário de verão, o que acontece atualmente devido a uma diretiva europeia que prevê que, todos os anos, os relógios sejam, respetivamente, adiantados e atrasados uma hora no último domingo de março e no último domingo de outubro. Em setembro de 2018, a Comissão Europeia propôs o fim do acerto sazonal, mas o processo tem estado bloqueado desde então, por falta de acordo entre os Estados-membros sobre a matéria. Numa resposta por escrito à agência Lusa, a porta-voz da Comissão Europeia Anna-Kaisa Itkonnen referiu que o executivo decidiu propor o fim da mudança horária em 2018 após ter recebido "pedidos de cidadãos e dos ...

Os professores

 As últimas semanas têm sido agitadas nas escolas do ensino público, fruto das diversas greves desencadeadas por uma percentagem bastante elevada da classe de docentes. Várias têm sido as causas da contestação, nomeadamente o congelamento do tempo de serviço, o sistema de quotas para progressão na carreira e a baixa remuneração, mas há uma que é particularmente grave e sintomática da descredibilização do ensino pelo qual o Estado é o primeiro responsável, e que tem a ver com a gradual falta de autoridade dos professores. A minha geração cresceu a ter no professor uma referência, respeitando-o e temendo-o, consciente de que os nossos deslizes, tanto ao nível do estudo como do comportamento, teriam consequências bem gravosas na nossa progressão nos anos escolares. Hoje, os alunos, numa maioria demasiado considerável, não evidenciam qualquer tipo de respeito e deferência pelo seu professor e não acatam a sua autoridade, enfrentando-o sem nenhum receio. Esta realidade é uma das princip...