Avançar para o conteúdo principal

Kiev acusa Moscovo de ter usado míssil que levou Trump a abandonar tratado nuclear



Um míssil russo percorreu mais de 1.200 quilómetros antes de atingir o território ucraniano a 5 de outubro. O ataque, segundo Kiev, foi feito com o 9M729, o mesmo míssil cuja existência secreta levou os Estados Unidos a abandonarem um histórico tratado de controlo de armas nucleares em 2019

A Ucrânia acusa a Rússia de ter utilizado, nos últimos meses, um míssil de cruzeiro cuja existência secreta levou o presidente norte-americano Donald Trump a retirar os Estados Unidos de um importante tratado de controlo de armas nucleares.

O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andrii Sybiha, afirmou que Moscovo tem recorrido ao míssil terrestre 9M729, o mesmo que esteve no centro da decisão de Washington, DC de abandonar o Tratado das Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF) em 2019. É a primeira vez que Kiev confirma oficialmente o uso deste armamento em combate.

De acordo com uma fonte militar citada pela Reuters, a Rússia terá lançado este tipo de míssil 23 vezes desde agosto, e já o teria utilizado em duas ocasiões em 2022.

Um dos ataques mais recentes, a 5 de outubro, terá atingido o território ucraniano depois de percorrer mais de 1.200 quilómetros, segundo a mesma fonte. O míssil pode transportar ogivas convencionais ou nucleares e terá um alcance estimado de 2.500 quilómetros, segundo dados do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), sediado em Washington, DC.

O desenvolvimento do 9M729 foi considerado uma violação direta do tratado INF, que proibia o uso de mísseis terrestres com alcance entre 500 e 5.500 quilómetros. Moscovo sempre negou estar a violar o acordo, mas a administração Trump acabou por abandonar o pacto em 2019, alegando incumprimento russo.

"Desrespeito pelos esforços diplomáticos"

Para o chefe da diplomacia ucraniana, o uso do 9M729 demonstra o “desrespeito de Vladimir Putin pelos Estados Unidos e pelos esforços diplomáticos do presidente Trump para pôr fim à guerra”.

Andrii Sybiha afirmou ainda que a Ucrânia apoia as propostas de paz apresentadas por Trump e apelou a uma pressão internacional máxima sobre Moscovo para forçar um cessar-fogo. Defendeu também que o reforço da capacidade de fogo de longo alcance da Ucrânia seria essencial para levar o Kremlin à mesa das negociações.

Kiev tem pedido a Washington, DC o fornecimento de mísseis Tomahawk, de lançamento marítimo, que não eram abrangidos pelo tratado INF. Moscovo, por sua vez, alerta que tal medida representaria uma “escalada perigosa” do conflito.

O uso do 9M729 expande o arsenal russo de mísseis de longo alcance e reforça a percepção de que Moscovo procura enviar um sinal de intimidação ao Ocidente, sobretudo num momento em que Donald Trump tem procurado reposicionar-se como mediador para uma eventual solução de paz.

A Rússia testou recentemente outros armamentos estratégicos, incluindo o míssil de cruzeiro nuclear Burevestnik e o torpedo nuclear Poseidon, intensificando os receios no Ocidente sobre uma possível escalada nuclear.

John Foreman, antigo funcionário  britânico de defesa em Moscovo e Kiev, sublinha que “se se confirmar que a Rússia está a utilizar mísseis de alcance intermédio, potencialmente nucleares, em território ucraniano, isso constitui um problema de segurança europeia, não apenas ucraniana”.

Imagens analisadas pela Reuters mostram fragmentos de mísseis com a inscrição 9M729 entre os destroços de um ataque russo a 5 de outubro, que atingiu um edifício residencial em Lapaiivka, matando quatro pessoas.

Jeffrey Lewis, especialista em segurança global no Middlebury College, analisou as imagens e confirmou que as peças e a estrutura correspondem ao modelo do 9M729, reforçando a probabilidade de se tratar desse tipo de míssil.

Segundo Douglas Barrie, analista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, o 9M729 permite à Rússia realizar ataques a partir de locais seguros, mais recuados no seu próprio território, uma vez que o sistema é móvel e fácil de ocultar.

O investigador destaca ainda que, embora Moscovo possa estar também a testar o desempenho do sistema em ambiente de guerra, a utilização repetida - 23 vezes em apenas alguns meses - revela um objetivo operacional concreto e não meramente experimental.

Kiev acusa Moscovo de ter usado míssil que levou Trump a abandonar tratado nuclear - CNN Portugal


Comentários

Notícias mais vistas:

Híbridos plug-in gastam até 3 vezes mais combustível do que o divulgado - por negligência do condutor

  Levantamento com 1 milhão de veículos na Europa revela que consumo real difere bastante dos testes oficiais de laboratório; marcas premium lideram desvios Estudo apontou diferença relevante entre números oficiais e desempenho nas ruas dos PHEVs (Foto: Volvo | Divulgação) Um novo levantamento baseado em dados reais de circulação colocou em xeque a eficiência dos veículos híbridos plug-in (PHEVs). Conduzido pelo Instituto Fraunhofer, na Europa, o estudo revelou que o consumo de combustível desses automóveis nas ruas chega a ser três vezes maior do que o registrado nos testes oficiais de homologação. A análise compilou informações de aproximadamente 1 milhão de carros fabricados entre 2021 e 2023. Os números foram extraídos diretamente do sistema europeu de monitoramento de consumo a bordo (OBFCM). Ao contrário dos ensaios controlados em laboratório, que costumam ser criticados por não refletirem a realidade, esses dados ilustram o comportamento dos veículos no uso cotidiano dos mot...

China declara guerra aos ecrãs nos carros com novas regras

 Ao contrário do que seria expectável, não foi a Europa nem os Estados Unidos da América que decidiram tomar medidas para combater a dependência dos ecrãs a bordo nos carros modernos. China adianta-se. Parece cada vez mais próximo o inevitável regresso aos comandos físicos tradicionais nos automóveis. Os ecrãs (quase de perder de vista) invadiram os cockpits dos automóveis mais recentes, começando por ser percepcionados como um sinónimo de vanguarda tecnológica e um factor de diferenciação, em grande parte impulsionado pelos construtores de automóveis chineses (mas não só). Pois bem, isso estará em vias de mudar por iniciativa da própria China. Ao contrário do que seria de esperar, não foi a Europa nem os Estados Unidos da América que tomaram a dianteira nesta matéria. À semelhança das novas regras que serão implementadas para reduzir o risco associado às portas de abertura electrónica (com puxadores embutidos sem accionamento mecânico ou “tipo Tesla”), o Ministério da Indústria e ...

Os professores

 As últimas semanas têm sido agitadas nas escolas do ensino público, fruto das diversas greves desencadeadas por uma percentagem bastante elevada da classe de docentes. Várias têm sido as causas da contestação, nomeadamente o congelamento do tempo de serviço, o sistema de quotas para progressão na carreira e a baixa remuneração, mas há uma que é particularmente grave e sintomática da descredibilização do ensino pelo qual o Estado é o primeiro responsável, e que tem a ver com a gradual falta de autoridade dos professores. A minha geração cresceu a ter no professor uma referência, respeitando-o e temendo-o, consciente de que os nossos deslizes, tanto ao nível do estudo como do comportamento, teriam consequências bem gravosas na nossa progressão nos anos escolares. Hoje, os alunos, numa maioria demasiado considerável, não evidenciam qualquer tipo de respeito e deferência pelo seu professor e não acatam a sua autoridade, enfrentando-o sem nenhum receio. Esta realidade é uma das princip...